ESTUDAR PARA?


A gente vinha conversando nesse blog, sobre a prática de ler. Leitura. É com certa alegria de pensar, que emerge dessa, que podemos também estabelecer a literatura enquanto prática. E se a coisa é prática, detem em si, modos de uso da mesma, como qualquer outra que se estabelece no fazer.
Nesses sentidos, pois vejam que aqui ao escrever estou definindo alguns, a curiosidade de perguntar pode nos mover para outros mundos. Assim, me pergunto e a vocês também, quais são os modos de usar a literatura?
Recapitulando o já escrito aqui sobre esse gênero (literatura barata), vimos que a literatura a partir do século 18 exige uma reflexão do que é a literatura. Então veja, se não tem mais de antemão dado o que é, mais exige que se reflita sobre isso. E assim ao fazer estamos já no campo da crítica literária.
É preciso refletir a respeito de si. E esse questionamento é para sempre.
Ao pesquisar sobre a questão da crítica literária, temos modelos dessa. E cada modelo demanda visões de cada um sobre si e sobre os atos de si. Pois vejam vocês quando nos aproximamos do mundo grego.
Você já ouviu falar de Homero? Homero, viveu conforme a história ocidental no século 8 antes da vinda do Cristo, onde a tradição oral era a base da transmissão dos conhecimentos. E ele conversou ou contou a alguém, e esse alguém transcreveu. Operou a escrita, TRANSFORMOU o oral em registro gráfico. Contudo, esse algo transcrito em nome de Homero, esse algo dito foi atribuido a ele. Mas ninguém sabe se Homero existiu. Pois na época, os textos e representações do mesmo eram de uma outra área de humanidades, tudo era TEATRO.
O teatro era um espaço, uma casa, um lugar localizado na subida da montanha entre a polis e a acrópole. E a Grécia vivia uma crise gigantesca.
Platão, uma espécie de crítico da época, começa a dizer o que se deve publicar, ler e não ler. Ele tinha uma teoria de mundo ( mundo degradado e mundo das ideias). Para ele, a arte copia, ou seja cópia da cópia, e na arte (nem nos artistas) não se pode confiar. Homero diz : Platão não ficará chateado se cortarmos uns versos dele. Não ficará chateado porque se alguém diz por exemplo, que o inferno é algo terrível, quem vai querer ir para a guerra? Editemos isso.
Quando assim te conto a coisa pesquisada, numa espécie de tentativa de imitação, podemos ver dois modos de imitar. Um é o jeito de cada um falar, o outro assume um discurso que conta o jeito que as pessoas falam.
Você pode estar pensando, que miscelânea é essa? O que o Homero e o Platão estão fazendo aqui nesse modo de imitar? Que a Grécia tem haver com isso?
No mundo grego, haviam dois modos de abordar os "textos", eram o modo trágico ou a epopeia. O modo trágico, se a gente for pensar relacionado aos modos de imitação acima citados, tem haver com as pessoas falando. Já a epopeia tem haver com as pessoas contando em sua própria voz. É como se esses fossem prototipo de crítica. Para o Platão a epopeia é melhor que a tragédia, a crítica dele é circunstancial.
Aristóteles foi o maior confrontador de Platão. Ele começa a colocá-lo em dúvida, principalmente no capítulo terceiro de POÉTICA, numa tentativa de salvar a tragédia. Aristóteles vai dizer que imitar é do homem. E o erro de Platão é dizer que a ARTE imita as pessoas. Para ele não, ARTE IMITA A AÇÃO DAS PESSOAS. Nisso se tem a ideia de VEROSSIMILHANÇA. Não importa se é dito verdade ou não. Importa se ela tem : unidade, coerência e poder de produzir o efeito que ela deseja. VEROSSIMILHANÇA. Se imitar é NATURAL DO HOMEM, a tragédia está acima da epopeia.
Esse embate sendo feito, entre Platão e Aristóteles, dá pano pra manga pra gente pensar COMO a teoria do Aristóteles defende a tragédia em relação a epopéia. Ou seja, evidencia um modo de abordar um tema a partir de um exercício crítico. É um terreno movediço entre ele e o Platão, pois defendem através do discurso contextual formas antagônicas do que vem a ser arte e a função da arte. Nesse sentido, essa "teoria dos dois gêneros" surge para dar conta de questões vividas naquela contemporaneidade, ou seja, são contextuais.
E essa história protocrítica literária, essa "teoria do gênero" foi se tornando gradativamente mais normativa. No tempo o percurso foi sendo feito, até que na idade média surge um denominador para tais formas: ARS LATINA (habilidade de fazer bem qualquer coisa) e ARS LIBERAIS (homens livres fazendo sem precisar ganhar dinheiro a partir disso).
Os conhecimentos vão se conformando em zonas/áreas de agrupamento. TRILIUM: composto pela GRAMÁTICA, RETÓRICA E DIALÉTICA e QUATRILIUM: composto pela aritmética, música, geometria e astronomia. E os autores vão se tornando canônicos. Os conhecimentos vão sendo estabelecidos com regras estritas e fixas : ARS STRITU.
É na Idade Média que se dará a formatação de COMO SE DEVE LER E ESCREVER. O ápice da normatização da teoria dos gêneros ocorre no Renascimento, que recupera aspectos da tradição clássica e passa a ler ( ou reler) o mundo e obras como se fossem regras a serem seguidas.
O renascentismo vai lidar com a tradição das belas letras ( BELLE LETTERS) na corte, sustentadas por mecenas que são figuras impostas pelo contexto. Nas artes, pintores sem mecenas pintam quadros que vendem para qualquer pessoa, daí temas como marinhas e naturezas mortas terem ganhado consideração maior.
Essa poética Renascentista, de ler (reler) o mundo a partir do referencial clássico, desdobra-se no Barroco.
Só como curiosidade, o primeiro músico a compor fora do sistema de mecenato, foi Mozart.
E por hoje é isso aí...
abç
andré





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