ESTUDAR...

A gente ia conversando na penúltima postagem, e aqui nessa última da série: ESTUDAR PARA QUÊ... que os alemães, ao criticarem as razões presentes no movimento iluminista dos franceses chegam a uma questão de ONDE ESTÁ : A vida de verdade? Onde o pensar e o sentir estejam no mesmo ato. Prestou atenção que os alemães juntam pensar, sentir e ação? Por que isso era tão importante no século 18? E no século 21 continua o sendo? Agora não apenas mais no campo da literatura/crítica literária mas também em outras áreas do saber.

Se a gente conseguir entender e pensar a arte antes da especialização efetuada no século 18, pode bem derivar caminhos outros para isso. Como isso é possível ser usado como antídoto? Eu aqui não sei, mas houveram dois gênios que souberam estabelecer algumas panorâmicas para tal problema.

O primeiro atende pelo nome de Paul Valery, para quem a subjetividade era uma malha caótica, onde a crítica e a relação dessa com diferentes literaturas iam se imbricando a ponto de se transformar... Essa reflexividade, esse desdobramento do escritor em si, do poeta em si, podia, a seu ver, dar um auto-bote transformando o alívio em veneno. Afinal de contas, se UMA estética fosse possível a obra de arte não seria necessária. Se pudesse a partir do discurso dizer sobre a obra, ninguém precisaria da obra. Nesse sentido, faz-se necessário ter CARNALIDADE E RESISTÊNCIA, para que o pensamento não se desdobre em pura abstração. Enfim essa crise do desdobramento da subjetividade sobre si mesma tem haver com o Romantismo.

Paul Valery, aos 20 anos, era um autor consagrado em plena França. Formava um grupo pesado, junto a Cesame,Degas, Mallarmé, entre outros. Com a morte do Mallarmé, Valery entra em crise sobre escrever poesia. Quer não pensar o poema, mas pensar O QUE É PRECISO PARA SE ESCREVER UM POEMA.

Entra num projeto único entre os anos de 1895 e 1945, isso mesmo, 50 anos de escrita. São os chamados CADERNOS. Cria sua Teoria da mente. Estuda, escreve algo próximo a crítica ao que Freud está fazendo na clínica. Nesse sentido, Valery também estabelece de outro patamar seus fundamentos da subjetividade.

Se o projeto Freud era ler a FUNCIONALIDADE da subjetividade, estando ele instalado em sua crise entre neurologia X subjetividades vividas. Valery, em seu próprio canto já mostra em seus Cadernos que os fatos podem ser extremamente problemáticos ao criar sua teoria da mente para entender poesia.

Pois veja bem como ele fez isso. Todos os dias, das 5 as 7 da manhã, acordava e escrevia... todos os dias... realizava seus EXERCÍCIOS PARA DESENVOLVER A MENTE. Fazia isso em prol de seus desenvolvimentos mentais, e não para produzir efeito em ninguém, dizia que nesse horário a mente estava mais liberta. Mas sabe quem o inspirou a produzir tal antídoto para si? Um outro gênio, diretamente do século 16.

LEONARDO DA VINCI. Isso mesmo, E há de se fazer uma pequena introdução ao método do Da Vinci. Ele não separa O PENSAR DO FAZER Constitui um MODO que não os separa. Tudo funciona em conjunto. Leonardo é um dos maiores filósofos da história, pelo fato de não separar filosofia de criação. É aquele que para pintar um corpo vai entender como o corpo funciona. Põe o problema da pintura numa dinâmica. Faz aquilo funcionar, que dinâmica é necessária, qual processo é vivenciado e não apenas a abstração do mesmo. Vive o processo onde as coisas estão em funcionamento.

Nesse sentido, Leonardo cria O ESBOÇO COMO MÉTODO. A partir do esboço é possível transitar do INFORME para A FORMA. Observa paredes, vai percebendo, vai olhando, configurando manchas. Esboços como tantos outros. Estileta, recorta o que mais quer pintar. Seu método (assim como o de Valery) pressupõe racionalidade crítica, do INFORME PARA FORMA, numa dinâmica processual. Nesse sentido, o FAZER realiza, é mais importante que a obra feita, é mais importante o projeto que o resultado do que leva, mais importante o âmbito privado da imaginação de si do que o que é feito no domínio público.

Tanto Da Vinci, quanto Valery estão tocando em regiões do problema da relação com o outro, estão tocando em aspectos relativos a ÉTICA DA FORMA/CONTEÚDO. De que forma se dão o processo, os produtos formais, a reflexão produtiva, sendo que a obra impõe restrições, faz com que se saia do ritmo normal, se reinventa a partir disso e reinventa as relações com a forma? Tocar os limites da racionalidade, o contingente, o fragmentário, o irracional, não significa não pensar.

Nesse mundo caótico, fã de Romantismos, lúcidos prazeres de pensamento e secretas aventuras de ordem, talvez um modo de continuar refletindo, um modo de continuar a necessidade de refletir, de lidar com o material e as materialidades, com a língua, com a escrita e a palavra, com o refletir sobre o fazer e continuar fazer, não separando fazer do pensar, onde as reflexões sobre o fazer e o fazer sejam uma coisa só, numa espécie de filosofia que não separa pensar/sentir de fazer, sejam um projeto dessa maneira de produzir essa uma literatura barata, aqui posta em uso por mim.

saudações

andré



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