LÍQUIDA-AÇÃO


(líquida-ação, fotografia, andré nunes, 2009)

A semana que passou foi intensa, e de certo modo pude exercer nela ações líquidas, visando sobretudo infiltrar meus modos próprios de exercer aquilo que um dia nomeei como ocupação/cuidado diluído. Te conto melhor. Amigos que a vida traz de volta, após um certo tempo de afastamento, me convidaram a realizar algumas palestras para os estudantes de psicologia da Unianhanguera- Campus Santo André. O intuito era poder narrar um pouco da minha trajetória em saúde, dentro dos serviços públicos. Tinha então 15 minutos pra poder contar um pouco sobre esses quase 12 anos de formado.
Tomei o cuidado de fazer da minha fala um oposto do que já havia vivido, quando então formado recebia os acadêmicos professores para palestrarem nos serviços de saúde. Sem muito rebusques mas cheio de prática fui conversar, isso mesmo, conversar com os estudantes. A experiência foi bem bacana.
Escrevi um texto que tomei a liberdade de ler, e que transcrevo em parte aqui nesse blog. A minha parte eu fiz, e pelo que ressoou espero que eles tenham gostado, e que nós tenhamos feito desse encontro algo bom. Enfim...
Santo André, outubro de 2009.
Vou dar início a minha fala tomando a liberdade de poder ler o que escrevi a vocês. Vou contar um pouco sobre como surgiu essa possibilidade de encontro entre eu e vocês. Desse nosso encontro em si eu não sei o que pode acontecer, quer dizer, eu imagino e torço para que algo bom possa ser feito. Mas o que sei que ficará é um certo efeito desse encontro, tanto em mim quanto em vocês. Esse nosso encontro, que eu vou chamar de nosso-que é um jeito da gente poder se aproximar e apropriar do que está FAZENDO JÁ, no aqui e agora, essa comunicação, pode ter muitas qualidades. pode ser diferente, indiferente, estranha, cuidadosa.
O meu desejo é de que ela seja cuidadosa. Uma comunicação cuidadosa, para que todos nós possamos juntos apreender mais nessa via de mão dupla e de troca que é ( e que deveria sempre ser) o processo de ensino. Saber um pouco mais sobre esse trabalho de cuidado ás pessoas, que todos dessa sala se dispõe a refletir e se formar em seu dia-a-dia.Ok? As palavras que se seguem vem para cutucar vocês a pensar sobre isso mesmo: O QUE É CUIDAR DE GENTE? ISSO QUE A GENTE FAZ?
Pois é, o telefone tocou, era domingo.Do outro lado da linha, Elaine, uma amiga de mais de uma década entrava em contato comigo. Fazia um convite a esse terapeuta ocupacional, para vir falar sobre sua trajetória em saúde dentro serviço público, ou dizendo de outro modo, como fui construindo minha prática e exercício profissional dentro de um sistema maior, o Sistema Único de Saúde- SUS. que é o sistema do país onde moro.
Se ele, o SUS, tem 20 anos de idade, posso dizer a vocês que vivi em locu, como trabalhador, metade de seu tempo de vida. Me graduei em Terapia Ocupacional, que é uma faculdade e não uma especialização (como tem gente do próprio campo da saúde que não sabe... enfim, esses são outros 500!) há 11 anos.
De um modo bem sintético vou definir o que é Terapia Ocupacional, para a gente até poder ter dimensão de que existem outros saberes sendo exercidos nos processos de produção de vida e de saúde-doença das pessoas a quem prestamos nosso trabalho.
Isso de trabalhar com a possibilidade de diferenças de olhares é algo qu vocês devem ter aprendido em algum momento da formação. É todo aquele papo de dispositivos multi, inter e transdisciplinares. Vocês já ouviram falar sobre isso, né? Levanta a mão aí quem nunca ouviu? Pois é, isso realemnte existe, e o fato de eu estar aqui é uma prova disso.
Pois então, Terapia Ocupacional é uma área de conhecimento que surge dentro da saúde, da área médica, nos tempos da guerra...engraçado (para não dizer paradoxal) pensar que a gente é filho da guerra...que se expandiu ao longo do século XX porque se permitiu produzir saber prático-teórico, e nessa produção do prático ao teórico, é nisso que está uma das bases da T.O. Nós acreditamos que a gente, as pessoas, o povo, cada um é o que faz. O que estou dizendo é que nosso olhar é pautado no indivíduo enquanto sujeito da própria ação.
Os fazeres, as atividades, as ocupações, as ações, as tarefas definem em parte as pessoas.É sobre elas que nós, t.os, estruturamos nossa clínica. Então, só para fechar o parênteses do que é T.O, vou definir  como uma área de produção de saber que atua no campo de conhecimento e intervenção em saúde, educação, cultura e na esfera social. Nossa intenção é promover emancipação e autonomia nas pessoas quando essas apresentam problemas de ordem física, mental, social, sensorial, etc. Esses problemas podem ter um tempo de acometimento breve ou definitivo, e assim tais pessoas passam a apresentar dificuldades em se inserir na participação da vida social. Nossas intervenções tem nas atividades, e seus usos, um elemento fundamental. E essas são pensadas singularmente nos processos terapêuticos de cada um.
Vou contar desde o meu início de experêiência profissional na clínica. Que não foi como T.O, mas sim como A.T, estando eu ainda na faculdade. A.T para quem não sabe, significa Acompanhante Terapêutico. É uma clínica bastante ampliada, na qual o terapeuta estando junto com o acompanhado circula pela cidade, em estabelecimentos, transitando e articulando laços sociais no processo de produção de vida das pessoa. Sou A.T faz uns 14 anos...
Fiz estágio no CAPSI_DIADEMA por 1 ano. ao me formar o campo da saúde mental foi aquele que mais me chamou atenção e com o qual mais me identifiquei. Trabahei em dois ambulatórios de saúde mental (Mogi das Cruzes-SP e Praia Grande-SP). Depois fui para Taboão da Serra-SP ajudar na montagem de um Centro Comunitário em Saúde Mental, um serviço na comunidade de Pirajussara ligado ao Hospital Geral de Pirajussara. Foi uma experiência muito rica, porque ali aprendi que é possível construir algo "do zero". Lembro que no primeiro dia de funcionamento, haviam uma mesa, 4 cadeiras, eu, o psicólogo e dois usuários. Graças ao cuidado de uma senhora que acompanháva-mos enquanto usuária, que no dia levou uma garrafa de café pra gente ter o que fazer juntos,  o centro começou a fazer sentido pra todos nós.
E por fim, há 4 anos, estou no Naps-2 de Santo André, um serviço que compõe a rede de atenção em saúde mental desse município.
Nesses anos de trabalho realizei duas especializações, uma em práxis artísticas e praxis terapêuticas-interface arte-saúde, com o pessoal do PACTO_USP, e outra em educação permanente com o pessoal da FIOCRUZ. Ambas podem ser tidas enquanto formação continuada, pois em parte cria-se uma ilusão de que o processo formativo termina com o findar da faculdade. Na realidade ele se inicia nela, pois essa te mostra uma diversidade de assuntos e interesses a serem futuramente trilhados a partir do interesse próprio.
Podemos também pensar que além da formação ser feita oficialmente, ela também se dá de maneira não formal. Trabalhar no serviço público de saúde em si tem esse caráter de aprendizado diário. Cada pessoa te ensina modos e modos de ação diferentes. À gente compete aprender e registrar. Então passo essa dica a vocês, assim que jogarem o chapéu pro alto na formatura, comprem um caderno novo e registrem suas ações clínicas, mesmo porque como já disse, O SUS também é um processo em construção, assim como nossa clínica. A gente sai da faculdade com a cabeça fresca e fragmentada, e quando a gente escreve está ao mesmo tempo que se juntando, está inventando nosso jeito de fazer cuidado, com o próximo e com a gente mesmo.
No Naps, realizo as atividades de triagem, acolhimento, plantões de recepção, grupos de crise, grupos de hospitalidade dia, grupos de terapia ocupacional, grupos psicoterapêuticos familiares (enquanto co-terapeuta), grupos de referência terapêutica, oficinas de arte e terapêutica, atendimentos individuais, reuniões de equipe, discussões de caso, articulação entre equipamentos e dispositivos na constrção de redes relacionais, participação em eventos e conferências que discutem as diretrizes de saúde a serem prestadas pela municipalidade através de suas secretarias... efnim, são algumas das diversidades que compõe meu dia-a-dia enquanto trabalhador desse serviço.
A minha relação com a psicologia dá-se através de estudos sobre temas de interesse nessa área de conhecimento, assim como nas trocas necessárias entre os profissionais que trabalham comigo nessa equipe.
Como modo de ilustrar parte daquilo que realizamos no cotidiano da clínica, enquanto construção desse processo de saúde tanto individual quanto coletiva, trouxe um conjunto de fotos editadas contando um processo de construção de uma tela painel em comemoração aos 97 anos do Centro Hospitalar Municipal dessa cidade no ano de 2007.  Esse serviço acolhe as pessoas na emergência psiquiátrica, essas posteriormente podem vir a fazer parte dos usuários do naps-2 onde trabalho. é uma espécie de retorno ao local que cuidou desses num certo momento. Mas esse retorno agora é diferente, porque de modo mais humanizado aproxima as pessoas de um outro jeito.
Então as imagens mostram parte do processo iniciado dentro da clínica mais específica e sua ampliação. Espero ter feito uma comunicação cuidadosa, e a gente conversa melhor depois.
Abraço...
e foi isso aí pessoal!
andré

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