IRREVERSÍVEL

 (fotografia, andré nunes, 2007)
Oi, oi, oi!
E ontem, tivemos a finalização do Grupo de Estudos de Práticas do Coletivo de Estudos de Terapia Ocupacional e Produção de Vida. Escrevi um texto como forma de devolutiva aos integrantes desse ano e que deixo aqui postado aos visitantes desse blog. Ok?
Abç
andré



Devolutiva final do GEP











Já dizia uma norma terapêutica ocupacional, que toda atividade em relação, assim como uma boa narrativa, tem começo, meio e fim. Um fim, por mais que tentemos adulterá-lo, redimensioná-lo, esquecer de assuntar sobre o mesmo, sempre se mostra de uma maneira que nos faz perceber que ele é de fato uma posição, um limite, uma espécie de censor do irreversível, que ao se aproximar apita aos nossos olhos e ouvidos uma conversa inevitável a cerca da irreversibilidade. Os encontros, os processos, os amadurecimentos , as experiências em grupos humanos , as atividades e os casos rumam para isso, posto que se existiram realmente terão demarcado presença e passagem. O fim determina parte desse rumor, hiato no tempo do transponível.




É do fim que esse texto se trata. E quando dito assim, é do fim que esse: SE TRATA, abrem-se pelas palavras portas para as quais sentidos se fazem em intuitos, rumos e questões muitas vezes inacabadas e inacabáveis. Vejamos bem, quando aqui é escrito SE TRATA, põe-se no mínimo uma duplicidade no raciocínio. Se, trata-se do conteúdo do texto, ou seja, é sobre isso que ele aborda, e/ou se, SE TRATA a si em seu conteúdo, como se o ato de escrever, e nisso textualizar, pudesse em si efetuar um tratamento, um tratado, uma tramóia saudável do próprio texto. Seria então, esse último apontado, uma forma de desdobra-se em si, uma forma de criar-se, de inclinar-se sobre si , e porque não dizer de PRATICAR-SE, ou melhor, CLINICAR-SE?




A clínica, nesta nova configuração, é aquela que se faz no território. Ela não está voltada para a remissão dos sintomas, mas para a promoção de processos de vida e de criação, e poderá, portanto, comportar uma outra saúde. Não uma saúde de ferro dominante, mas uma irresistível saúde frágil, como diria Deleuze (1997), marcada por um inacabamento essencial que, por isso mesmo, pode se abrir para o mundo;”(LIMA, 2006, p. 327)











Foram esses alguns dos objetivos efetuados durante nossos encontros de 2009. Um grupo que pudesse se cuidar e criar através do estudo daquilo que pratica, a forma principal levantada para isso deu-se através de “escritas”, tanto gráficas (nas palavras redigidas por cada um dos componentes), quanto ditas (nas conversas disparadas pelos conteúdos manifestos dos integrantes), lidas (nos próprios textos, nas entrelinhas, nos outros referenciais bibliográficos disponibilizados), refletidas (em opiniões e questões vindas), imaginadas (na configuração de palavras que pudessem minimamente abarcar uma ponta do que estava se procedendo nos acontecimentos individuais e grupais). No fundo, todas transformadas em gatilhos para que outras formatações pudessem ganhar algum nível de registro diferente do que somente era tido pelos indivíduos em suas solitárias práticas de escrita.




Questionar-se e ser questionado sobre os modos como cada um lida com sua solidão na e da prática, com sua maneira de tornar aquilo que era tido como informe (ou seja, sem forma) em outro sentido que a mesma palavra informe pode carregar (ou seja, registro, documentação, relato), foram preocupações dialogadas em ocupáveis éticas singulares, derivadas durante esse processo de um ano. São essas passagens de estado que enformaram o que estava nomeado como ESTUDO, mote número um desse grupo. Ao executarem suas produções escritas, daquilo que faziam em suas relações de trabalho e terapêuticas, o grupo exprimiu o mote número dois de seu nome: PRÁTICA.




Ao verbalizar tais substantivos (ESTUDO E PRÁTICA), efetuando nos mesmos uma operação expositiva á ação, teve-se como resultado a abertura desses para outros agenciamentos possíveis. ESTUDAR e PRATICAR são assim práxis transpostas da nomeação do próprio grupo. Atividades conscientes em potencial ativadas nos e pelos fazeres, criadoras de perspectivas que permitem perceber esse campo de ação, se não como uma unidade, ao menos enquanto uma parte de um todo.




Sendo parte desse um todo, uma finalidade desse texto a parte é a de devolver alguns pontos estabelecidos durante o processo no qual o grupo esteve reunido. Nada disso seria possível sem a atividade de escrever. Que fique claro que não é da escrita em si que se refere esse texto, pois ela é um dos objetos da ação empregada, é um produto efetuado enquanto começo do processo- do ato, e/ou um meio material no qual a ação se deu, e/ou a finalidade que se pretendeu. É sobre o ESCREVER que essa composição se destina. E sendo destino, tal qual a atividade em relação ou ainda uma boa narrativa, teve começo, está no meio e terá fim.




Como aponta PINO E ZULAR ( 2007), “ escrever é uma prática social, isto é, resulta do desenvolvimento de uma tecnologia específica, de um conhecimento longamente assimilado durantes anos de formação, o qual terá funções diferentes em épocas e lugares distintos, participando de inúmeras maneiras da dinâmica da sociedade” (p.49). Ou seja, refletindo que o grupo é uma forma socialmente construída e que operou dentro de seu sistema com a atividade de escrever, tem-se hoje nessa devolutiva esses resultados acima citados enquanto nós, laços e aberturas estabelecidos pela dinâmica de seu funcionamento. Desenvolveu-se, conheceu-se, assimilou-se, teve funções/tempos e lugares, participou-se. Esteve por fim, essa atividade humana de escrever, ligada a construção de modos abstratos mediadores de sua própria prática.




Foram 5 casos relatados, transformados através das palavras em conteúdos específicos para o desenvolvimento de tecnologias de terapia ocupacional, em todos os envolvidos cada um interessado por um lugar distinto/ um assunto no campo desse conhecimento humano. Em cada um deles o escrever deu-se através de modos de fazer do caso: matéria desdobrada da prática e do estudo, assim como, configuração e abertura de consciência do que estava sendo exposto, e ainda, reflexão do retorno sobre aquilo que era emitido.




Pode-se hoje pensar que uma dinâmica de produção cultural foi estabelecida pelo grupo. As condições de produção desse escrever foram trazidas de um eixo estalecido entre a vida privada de cada um e as representações públicas de discursos e significados. Essas condições de produção culminaram num texto enquanto forma através da qual parte da troca se deu. Essa forma textual ao ser lida, ou seja, referendada a leitura (e escuta) aproximou-se de outras condições formadas por um outro eixo estabelecido pelo universal abstrato e um particular mais concreto. Essa parte do processo dado pela leitura transformou-se, por fim, numa cultura vivida através das relações sociais efetuadas no e pelo grupo.




Se hoje tem-se condições de escrever outro texto sobre os textos feitos, ou seja, realizar essa atividade (re) vivida, é sinal de que essa dinâmica de produção e circulação chega a um fim, ou melhor, abre-se para um outro começo. Nesse sentido conformamos aquilo que CASTRO, LIMA E BRUNELLO (2001) tão bem pontuaram sobre a realização de atividades, ao escreverem que “... procede de experiência vivida, fornece experiências e vivências, ampliando esses campos, e permitem aos sujeitos agirem sobre o próprio meio. Mediante as atividades podemos mergulhar na significação de gestos e das ações e estabelecer relações com aspectos materiais. Esse fazer está ligado também a valores espirituais de sujeitos e grupos e pode representar o processo cultural de um grupo social, apresentando-se como um fator ativo de organização social.” (p.50)




Finalmente, de fato, tem-se então um caminho paralelo efetuado pela junção entre ESTUDO E PRÁTICA, esse foi avançado através do ESCREVER. Uma experimentação avançou para uma idéia, que avançou para uma palavra, que avançou para outras, e já sendo três minimamente reunidas, ao estarem juntas configuraram um desígnio aparente. Entre uma palavra e outra um espaço branco que se superou. Uma abertura que evidenciava a possibilidade das palavras de “estarem juntas” mesmo que estivessem separadas. O texto deixou de ser texto, e passou a ser um mapa onde os sinais solitariamente reunidos vigoraram e cada construção representa um avanço frente a demarcação do irreversível.











Referenciais Bibliográficas




CASTRO.E.D, LIMA.E.M.F, BRUNELLO.M.I.B, Atividades humanas e Terapia ocupacional, In: Terapia Ocupacional no Brasil, Ed. Plexus, são Paulo, 2001.




LIMA, E. M. F. A. Por uma arte menor: ressonâncias entre arte, clínica e loucura na contemporaneidade. In: Interface - Comunic., Saúde, Educ., v.10, n.20, p.317-29, jul/dez 2006.


PINO.C.A, ZULAR.R. Escrever sobre o escrever. Uma introdução crítica à crítica genética.


Ed. Martins Fontes, São Paulo, 2007.



Comentários

Postagens mais visitadas