LIVRO-ME V OU O meu MAPA (parte 2)


(fotografia, Kamila Padula, 2008)

Parto. Perto do Porto, é dele de Santos. Não todos, nem ao menos os que pedem a nós um peito de fé. Todos dias, que eu abro a janela que dá vistas para o fora do cômodo,próximo em que moro, eu tenho o privilégio de ver navegações que rumam ao grande território que é de alguem: o mar.
O mar de alguém não é de ninguém, senão de qualquer um. O mar não pára e é para todos. O mar é o mais dos lugares que liga aqui com lá. O mar não vem nem vai. O mar está. O mar é próximo do lugar de onde saí.
Entrei no ônibus e subi sua serra. Eu, para ir de encontro ao chamado, subi. Acima do mar e sua Serra, que fica entre ser oceano e capitanear. A Serra é do Mar. Subi pensando se teria resistência para suportar um dia inteiro de intinerância. Vagar, sem carta, sem mapa, derivar.
Chegando no topo, tomei o metrô. Que sobre velocidades eletrostáticas percorre quilômetros em suas linhas demarcadas por cores. Da linha azul saltei na Luz.
Caminhei até  a porta de um prédio sem número, tinha teto, tinha chão, tinha um quê de casa em graça dada . A portaria estava tomada por móveis, caixas, botijões de gás, crianças a correr... uma idosa esperando alguém chegar, ajuntamentos de trecos que pareciam lhe pertencer. Sentada numa cadeira de rodas, bem antiga, parecia não estranhar toda aquela mudança...
Na faixada do prédio um grupo de pessoas executava um trabalho artistico sob uma grande placa de vidro. Era como se estivessem construíndo uma porta gradeada, cujas pontas afiadas - cortantes - coloridas apontavam para dentro. Tal qual uma cama envidraçada de faquir.
Usavam um maçarico, e espécies de pipetas, tubos de ensaio, cacos de vidro. Transparências perigosas para quem?
Se ali era uma porta, e hoje não era mais, foi ali que me dei conta do que esse encontro tinha por mostrar. Aos olhos de quem vê de fora, e vê de longe, noutra espécie de porta (telecinética) ou janela vidrada, o Movimento dos Sem Teto soa como: "um grupo de gente que por não ter onde morar INVADE prédios fechados"... pré-conceitos veiculados. Muitos vindos de cabeças jornalísticas reacionárias, que no cair da tarde disseminam pelos lares esses venenosos chavões. Despejam pancadas, tragédias e injúrias no cair da tarde. É quando deixam cair lares adentro uma forma de controle controlada. Cai a tarde e esse controle tardio despeja-se sobre nós.
Mas nenhum controle controla totalmente... ainda bem!

Comentários

bagala disse…
Oi, gostei do que li, só que amanheci estranha e não tenho o que dizer. Talvez porque neste dias seja tbém como o mar e nada como a serra do mar. Nada pertence a ninguem .....
Desculpa ai comida de bola e um gde e feliz aniversário....seja feliz ,, voce merece. A felicidade não esta atrelada a nada externo, apenas ao existir.

Namastê

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