Você tem medo de quê?

(ilustração, andré nunes, 2010)

Anti natural seria, se as pessoas não sentissem esse que é um dos maiores aliados da condição do ser humano, não é mesmo? Parece que nas horas em que sentimos ele, o medo, de forma intensa, deixamos de percebê-lo como algo que sempre nos constituiu. Passamos a tê-lo como um marco instransponível visto que a  rotina da existência é posta em cheque.
A ansiedade cresce, cresce como uma bola de sabão soprada com um longo fôlego ofegante.
Nada no momento desacentua a experiência vivida. Mas se respirar mais fundo, passando pro profundo, a gente descobre que consegue. Daí cresce uma bolha de resposta, que te conto agora nessa forma narrada.
O sr. A, um homem por volta dos 35 anos, alto como uma biruta a flamejar por entre os ventos, gostava de deixar sua vida organizada, como quem escreve bilhetes em papéis amarelos de lembretes auto-colantes na tentativa de não esquecer as coisas urgentes a serem resolvidas. Trabalhava há 20 anos num banco central no próprio centro da cidade onde morava. Todo dia caminhava pelas ruas segurando sua pasta de couro preta, atravessava as grandes calçadas não olhando atentamente para quem nelas também passava. As vezes sentia um cheiro desagradável, mas não se importava muito com isso. No pescoço a gravata apertava-lhe o nó do pomo de adão,  que existe entre a cabeça e o tronco de seu corpo largo.  
Levava seu dia-a dia a conversar com pessoas conhecidas, exigindo eficiência, quase nunca se dirigia a estranhos. Era um pouco fechado como um cadeado antigo, oxidado com pequenos pontos de ferrugem.
Trabalhava com economias, gastos, dívidas, empréstimos, lucros, cobranças da ordem de boletos e papéis numerados. Para se dar conta do que os outros o entregavam, levava o dedo indicador a boca, molhava o mesmo com um pouco de saliva ressecada, esfregava a ponta semi-úmida na ponta do polegar num pequeno movimento circular e seguramente segurava os papéis.
Primeiro contava em sussurrar de números quantos documentos ali estavam em análise. 1,2,3...30... geralmente notas de dinheiro, envoltas aos papéis, eram vistas pelo mesmo como mais um entre outros tantos registros de valor. O sr. A contabilizava o que os outros tinham, teriam ou terão. Ter, que é diferente de dar, que é diferente de ser, era a palavra que ele mais usava. Ele tinha, e era só isso.
Um dia, o senhor A. acordou atrasado. Tinha perdido alguns minutos de seu precioso tempo num sonho que ele teve e quis ter mais. Nesse sonho ele caia de um prédio muito alto, onde um megafone cantarolava suavemente: ...a estrada é longa e o caminho é deserto...
Deserto árido, como se ele naquela noite tivesse se atirado num grande salto de trampolim. Sentia durante a queda o vento atravessar todo seu corpo. Um vento frio e cortante de inverno, que lhe gelava a cabeça. Aos poucos, quanto mais se aproximava do chão, o vento ia esquentando. Ele sentia um medo que o impedia de respirar. Mas tão logo viu um lago, sentiu uma forma de alívio, fechou os olhos e pela boca engoliu uma quantidade boa de ar. Até que ele mergulhava num grande lago profundo e bem quentinho.
A cena do mergulho era sentida em câmera lenta. Primeiro a cabeça, depois os ombros, os braços, tronco, mãos, quadris, coxas, joelhos, calcanhar e por fim as plantas dos pés... ele abria os olhos dentro dágua, e via uma ampulheta gigante, sendo virada pelo mergulho, para que a areia seca pudesse voltar a cair pro outro lado agora vazio.
Ele acordou. Viu o relógio piscando. Estava atrasado pro trabalho com os papéis. Se arrumou com pressa, apertou menos o nó da gravata daquele dia. Não conferiu as coisas que levava na mala. O peso da mesma parecia ser maior do que a do dia anterior.
Quando chegou na grande calçada que todo dia atravessava para chegar ao trabalho, viu  lá na outra ponta, uma menina sentada no meio fio.
Kelly devia ter seus 14 anos.Tinha o rosto magro, a aparência suja de quem não toma banho faz dias. Os cabelos embaralhados e uma barriga redonda que parecia desproporcional ao restante do corpo esquálido.   Ela levava a boca uma lata de alumínio cortada. E acendia um isqueiro que aquecia a ponta da lata. A chama  criava uma luz dourada no rosto dela, mesmo que fosse dia de sol. Respirava a fumaça que dali saia, e por alguns minutos agitava todo seu corpo num movimento de perder o fôlego.
Ao longo do trajeto, nada mais parecia existir para o sr A.. Aquela imagem da moça numa espécie de transe-ritual, fazia com que o corpo do sr. A tremesse por dentro, como se a ferrugem de um cadeado esquecido por anos fosse arrancada pelo giro de uma chave antiga encontrada.
Ele respirou mais fundo, e fez força em suas pernas para destravar o movimento, estava atrasado, é verdade. Precisava chegar logo aos papéis que lhe aguardavam. Mas a medida que se aproximava de Kelly sentia um frio percorrer a espinha em direção a nuca. Quando estava em frente a ela, paralisou. 
A moça, que já não mais se encontrava agitada, lhe olhou com dor, nos olhos. Baforou um suspiro. Levantou mais a cabeça, deixou a barriga grávida aparecer, olhou nos olhos do sr. A e lhe disse: Desculpe se te atrapalho. Aqui ninguém está feliz.
Feliz, feliz, feliz... aquela palavra impedia que o sr A. conseguisse contar os papéis. 1,2,3, feliz, 3. Novamente... 1,2,feliz. 1,2, feliz. 1, feliz... feliz, 2.
A palavra: feliz, percorria-lhe o corpo como um vento frio de inverno. Lhe gelava as mãos, que suadas não mais precisavam ser molhadas pela saliva ressecada.
Ele bufou. Não conseguia ter pensamentos outros a não ser os da vontade de saber: Como será que ela se chama?
Na hora do almoço, ele retornou até a calçada. a moça ainda estava ali.
Ele se aproximou, com um tanto de medo de saber. e perguntou o nome dela.
Kelly se apresentou, com muita simplicidade. Pediu dinheiro.
Ele tinha, mas pela primeira vez entendeu o que ali estava posto. E disse não ter.
Ela insistiu. Ele se agachou na altura dela. Aquele abaixar quebrou a ferrugem em seus joelhos travados. Tomou fôlego e coragem e perguntou:
Kelly, como você está?
Estou cansada, ela respondeu.
Cansada, como a terra pouco produtiva por já haver suportado muitas culturas de plantio.
No momento em que ela falou a palavra: cansada, parecia que um grande dragão sem fôlego, sem fogo e chamas para cuspir, saia de dentro de sua voz, e sentava-se ao seu lado. 
Ela pegou o isqueiro que guardava e deixou cair de lado.
Olhou para o sr. Álvaro e continuou a dizer:
Sabe sr, eu quero parar. A luta pra sair não é nada fácil depois de entrar. A vontade que tenho de deixar isso é muita, mas é menor que a vontade de continuar. E continuo porque não sei para onde ir. Sigo ao sabor do tempo, como uma fissura de erosão na terra.  Para onde eu vou se em casa meu pai que também usa, foi quem me ensinou a usar? Se minha avó apanha do dragão dele, quando ele usa o isqueiro. Tudo fica descontrolado. Sem norte, sem rumo, meio biruta em dia sem vento. Eu uso isso pro vento descontrolado parar. Mas o descontrole não está no vento, não está na brisa, não está.  
O sr Álvaro, agora menos exigente, sem ter muito o que fazer naquele momento, percebendo que era esse um instante dos muitos e inumeráveis estados do ser, com um olhar aquoso, quentinho como abraço em dia de frio, fitou os olhos de kelly e ambos entenderam que ali um perguntava em silêncio para o outro: Você tem medo de quê? 





  

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