a casa de vidro.



A casa de vidro serve a cidade. Tem em seu interior uma população passante. Pessoas que no ir e vir despendem desejos e dejetos, coisas-sujeitos e coisas-objetos. Alucinando por momentos, adentram a mesma espumando pelo canto da boca algo da substância amorfa desprendida. Entorpecidos cruzam a porta do elevador translúcido, evaporando pelo buracos do corpo em pele nuvens transparentes voláteis. Cachimbam, pipam, dão pauladas, aspiram, fungam, cheiram, injetam, tragam, engolem, ingerem, piam, acidificam... verbalizando-se em modos variados um mal estar em seus processos de vidas. E talvez as mesmas, por serem ainda possíveis, por serem ainda desgraçadas, belas, latentes, implícitas, entranhadas, disponíveis, suportem a cada passo dado ( em avanço ou recuo) aproximarem-se, ou seu oposto, a borda do que torna o transcorrer desses existires ambíguo.
Quase como se fosse um decreto instalado. Sim, a casa de vidro é uma instalação em processo contínuo. Sedas, papéis, jornais, carbonos, cachimbos, canetas hidrocor, fichas de evolução, barbantes, apacs em pé e deitadas, assinaturas, telefonemas, esferográficas, contatos, dvd´s e palavras. Muitas palavras são produzidas. E no cotidiano, o que se materializa em formas escritas, ditas, desenhadas, colorizadas, misturadas, cozidas, remediadas no conta gotas do soro desintoxicante, tentam dar contorno ao plasmar o grande labirinto erguido pelo vítreo que veio da areia do fora aquecida.
A casa de vidro tem tratamento ante-bala, ante-pedra, ante-pó, ante-erva. Prevenindo-se dos danos que virão. Não sejamos ingênuos ao querer andar em seu interior com apenas um dos olhos abertos. Piratas sem o tampão que venda, assim por vezes os habitantes caminham. Mal sabem que abrir os dois olhos é experiência fundante. Olhos para fora e olhos para dentro.
Para andar pela casa além das vistas, é necessário tato. Evitando esbarrões e encontrões com o que nem sabia-se estar ali. E por ser de vidro tem seu teto aparentemente frágil. Temem as tempestades, seus habitantes, pois essas se formam no alto além de si. As nuvens carregadas se adensam, com relâmpagos temidos, que ecoam trovejando barulho e passam. Pouco clareiam. Deixam nos que ali estão um desgaste, porque, para se preservarem saem correndo e por vezes dão de cara com paredes que antes, ou nunca antes, haviam visto. Há dessas coisas na casa.
No seu refeitório, servem comidas em marmitas finas como pratos fundos e vazios de vidro, bolachas d'água, chás em copos de vítrea medida americana. Os que comem em seu interior são vistos pelos que não comem. Cotidianamente o desconforto é estabelecido. Os habitantes quebram-se em modos e manejos. Tentativas de dar conta da falta evidenciada pela vidência de que a entrada não é igual para todos. Equidade.
Acontece as vezes da casa sofrer um movimento de suas paredes. Aglomeradas as pessoas esperam no recipiente da recepção, aglomerados trabalhadores param em comunicação, aglomerado o vento sopra pelo corredor vazio abrindo ou batendo portas de trincos gastos.
E ao bater, há quem brade querer mais e mais do dentro da casa. Não percebem que, se levaram a vida toda sendo tratados como peixes ornamentais num aquário com ritmo de vida vicioso, o simples fato de terem sido transpostos do antes para o agora faz da vida desses mais ampla e mais perigosa.
Se antes peixes-beta habitando um copo d'água, hoje por mais brigas que queiram fazer e ter, darão de encontro com paredes não tão claras até para os que os cultivam e tentam cativar. Ameaçar quebrar a casa só torna suas vidas mais restritas.
Hão, ou não, de se adaptarem as novas medidas ofertadas. Arremessar um: “ Quero minha vida de peixe-beta !” num universo de água corrente, é quase como desprender uma única bolha num copo de anti-ácido efervescente em efervescência. Passado o efeito do comprimido, o que sobra é o saturado decantado em resíduo. O resto é reto, e também o remédio para o seu mal estar.
E assim a casa segue seus dias, não é fácil abrir os dois olhos ao mesmo tempo. Há pessoas que passam a vida inteira e só conseguem abrir um olho, tateando, tateando, andam... são tempos de se perguntar: estaremos com os olhos bem fechados ao termos os olhos abertos? Na casa de vidro é preciso saber que vemos aquilo que nos olha, e isso é um modo de saber cuidar de si.  

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