DISPARAR A BUSCA



Nesse momento que te escrevo, tenho em minha companhia as vozes de pessoas a cantar num bar da esquina. Em alto som a letra de “DISPARADA”, ecooa por entre os prédios da rua. Estava aqui, tentando achar que ficava quieto em meu canto. Nada de nada disso não. Levei sacolejo das idéias ontem. Daqueles que te dizem: olha, você está vivo quando cria, porque estar vivo nas coisas prescinde de criações.
A cabeça ainda retornando à dor dispendida por tanto pensar e perceber. Fez nisso, com que eu não acomodasse de nenhum modo, algumas reflexões que me passam por entre dias em que correrias de mim por eles acontecem, e me vejo trabalhando em demasia e dando pouco espaço para refletir sobre o que faço e escolho fazer. São liberdades expressas em escolhas. Mas antes de tudo, liberdades.
Venho pensando muito nelas. Liberdades de vários modos, liberdades de vários meios, li-ber-da-des... ter pouco tempo livre de compromissos me fez valorizar momentos e instantes em que sentir-me livre de obrigações são possíveis.
De uma certa maneira minha, penso que isso aqui, poder compor nesse campo aberto a conversa, nesse e esse respeito pelo que um e/ou outro pensa-redige-lê, é um MEIO de exercício da tal Liberdade de expressão. Que pode, também, se exerce em narrativas, literaturas baratas, pois situam no tempo e no espaço do emissor-expressor e do ouvinte-leitor-impressor (pra contapor o termo antagônico do que nem sei denominar), parte do que se passa entre nós, nos nós-ou laços sociais- de redes relacionais infoviárias.
Liberdade de expressão aqui passa a ser um mote, existente nos processos humanos de percepção de si e do outro nas relações comunicacionais. Liberdade de expressão é um campo onde um sujeito, desejante de querer entrar ou estar em contato adquire de um outro (as vezes até de si) a capacidade-possibilidade de se abrir ao dispêndio de tornar exposto aquilo que em muito sente, pensa, deseja, vive, passa...
Liberdade de expressão como efeito de um ato, de um fazer criativo-construtivo-poiético que visa garantir minimamente uma atitude de dignidade e tolerância nos processos de interação entre os seres, em seus mais variados campos de existência ( reais, imaginários, religiosos, ideológicos, críticos, etc) presentes na aventura humana do viver junto.
Mas daí, o pensamento maquinado, vem e começa a me apertar: o que é ser-estar livre? o que é pensar liberdade nessa situação de criação? que tipo de ação geramos e gerenciamos em nosso cotidiano quando toda a parafernália científica e técnica não consegue responder a demandas vinculadas a pobreza, a desfiliação, as vulnerabilidades de quem habita a extrema borda social? Que liberdades são essas?
Sou fã incondicional de NISE DA SILVEIRA, e dias atrás, acho que isso me pegou de jeito porque estava lendo um livro de suas entrevistas dadas ao longo do decorrer de anos: 


E lendo, ficava a pensar sobre o tamanho do espírito de liberdade existente nessa mulher. Tamanha coragem de suas ações e pensamentos, da certa constância e coerência de seu discurso e palavras cautelosa e pacientemente escolhidas para dizer sobre aquilo que fez com tanto esmero. Gosto dela e da verdade que criou ao lidar com os "inumeráveis estados perigosos do ser". Gosto do jeito como diz sobre a estruturação do serviço de terapêutica ocupacional, e de como rompeu com esse nome-palavrão e inventou a "emoção de lidar". Gosto da polifonia referencial de seus achados visando sustentar os projetos e tentativas de entendimento de realidades rompidas nos processos do viver daqueles a quem dedicou grande força. Da luta para criação das oficinas no hospital D. Pedro II em Engenho de Dentro, da Casa das Palmeiras e principalmente do  Museu de Imagens do Inconsciente. Gosto da forma como se descobriu nas mandalas, nos mitos, nas expressões plásticas e artísticas, no contato com o pensamento do mestre Jung. Mas gosto, sobretudo, da forma humana, extremamente humana, como ela aborda e acolhe as pessoas as quais estiveram com ela nessas construções e invenções. Nise os chama pelos nomes próprios, Adelina, Fernando, Raphael, Emídgio, entre muitos outros.
Ontem, eu tinha a impressão de leve, que Nise estava entre nós. Que a leveza contida na conversa carregava por entre palavras e cuidados um quê da instigação dessa mulher. Talvez o tema, disparado através da Arqueologia das Atividades Humanas feito por Eliana Furtado e o modo como Mariângela Quarentei possibilita coletivamente a criação de territórios existênciais tenha feito em mim essa possibilidade de junção-experimentação.
Minha cabeça latejava de tanto poder pensar, como se máquina aqui presente estivesse sendo reacionada sem reacionarismos.Um jeito mais liberto de poder compor, de poder mostrar como se dá essa ocupação.
Agora tenho vontade de ouvir a música cantarolada na rua, juntar imagem, melodia, letra e gesto do cantor.
Contar os passos dessa busca, disparada. Nos encontros tidos na rede, num tópico da comunidade orkutiana  "Terapia Ocupacional Libertária" criada por Leonardo Valesi Valente, a terapeuta ocupacional  Simone Bastos me ajudou muito a clarear o que vinha indagando. Não sabe ela o bem que fez ao somente assim escrever. "Pra voce André, o que é? Liberdade de expressão é........"
Que eu vinha e venho em busca de minha liberdade, potencializada na vivência da clínica, numa situação onde me deparei com a ameaça de morte, presente numa vida ainda adolescente.
Não tenho pressa, mesmo porque faz-se necessário lubrificar algumas peças da máquina, que estavam meio esquecidas. O que posso te cantar agora, é que retomo nas mãos as rédeas desse carro, máquina, maquino... Móvel... movente... em movimento...

gde abraço
andré





Comentários

Aline Godoy disse…
André, me emocionei...

Obrigada
Aline disse…
André, me emocionei...

Obrigada
eneida disse…
Nossa Andre, 'as vezes eu acho que voce anda pensando demais...ou eu e' que tenho analisado as coisas muito de-menos...ou both.
Sometimes I have the feeling that by having to switch to English, I had not only to switch my language but also the way I think. And that's not necessarily a bad thing, English is a very straightforward language. I bet I might missing so many things now, but I also think that this switch gives me a level of freedom that I didn't have before. Sei la'

Postagens mais visitadas