MAQUINO-ATIVANDO A FESTA


Carta aos amigos e colegas terapeutas ocupacionais que compõem equipes de saúde.
Primeiramente, gostaria de abrir espaço para diálogo sobre a oportunidade de estar com vocês na construção e luta desta profissão, visto que nos últimos dias enfrentamos um de nossos maiores desafios.
Estando os Fisioterapeutas, profissão que compõe nosso conselho de classe, interessados em assumir uma parcela de nossos atos profissionais em detrimento das leis mercadológicas e expansão dos campos de atuação deles, desrespeitando o decreto que firma enquanto os atos privativos do terapeuta ocupacional incluem a programação das atividades da vida diária e outras a serem exercidas pelo cliente, orientação e supervisão do mesmo na execução dessas atividades, bem como a adaptação dos meios e materiais disponíveis, pessoais ou ambientais para o desempenho funcional do cliente (Resolução COFFITO n° 216 de 13/11/78). 
Deixo aqui uma mensagem que teci para considerar parte de um processo vivido pelas pessoas da equipe na qual trabalho, e que para para produção de uma festa de natal juntamente aos usuários daquele serviço de saúde contou com a presença desse terapeuta ocupacional que vos escreve.
Na escrita um certo distanciamento é exigido. Mas posso assegurar, que da mesma forma e intensidade na qual  escrevo, estive enquanto terapeuta ocupacional, envolvido nas trans-formações desse dispositivo de saúde pública. E ainda mais, sendo o maquinomóvel esse espaço virtual no qual tento ampliar outros modos de propagar pensamentos em terapia ocupacional e inscrever a MAQUINOATIVAÇÃO, enquanto um saber extra-universidade, deixo aqui uma análise baseada nesse saber produzido juntamente ao "coletivo de terapia ocupacional enquanto produção de vida". 
Começo então contando sobre a construção da festa. Nela pude observar  que tivemos efetivamente, espaço para, não só acolher, mas produzir locus práticos e teóricos de participação popular e condutas democráticas de ações em saúde ampliada. Foi formada uma comissão que incluia usuários e trabalhadores de um serviço substitutivo de saúde mental especializado em atender demandas desdobradas do uso e abuso de substancias psicoativas- álcool e drogas.  
A constatação da apropriação vivenciada por nós, usuários ( e aqui não diferencio quem é trabalhador e paciente posto que entendo que nós, que na clínica dos CAPS e CAPS-AD trabalhamos, fazemos uso desse serviço para realizar nossos fazeres laborais), através da atividade-FESTA  apresentou-se a todos em multiplos modos de vir a ser, e que o pior manicômio sem sombras de dúvidas é o “manicômio mental”!. Lembro de um mote antimanicomial veiculado durante as festas do Multiplacidade nos aureos tempos do  caps- itapeva, da cidade de são paulo:  PARA QUE TRANCAR SE PODEMOS FAZER FESTA?
Todo esse movimento, toda essa  ativação, apresentou-se a nós em varias formas: pães, guarnições, palavras, escritas, saladas, sobremesas, duendes, papelões, árvores, enfeites, músicas, violão, batuques, alimentos, fogões em diversos andares, forno de uma entidade referência para população em situação de rua, panelas de um centro comunitário, vasilhas e utensílios de diferentes pessoas, caixa de som, tintas, legumes, carnes, cardápios A_B_C, dinheiro, eteceteras.
Apresentou-se a nós através de multiplas poiesis , potências de/em criações nos feitos de muitas pessoas que através de dobras resgatadas de seus históricos de vida puderam emergir ou desbobrar-se em criativas variedades: pão em formato de jacaré, pizza enrolada de salsicha, arroz a grega do japão, pernil bem temperado, bolas-duendes-pinheiros-papai noel em treno de papelões catados nas ruas, músicas soando para ouvir no trabalho, canto coral de metamorfoses ambulantes, cartaz produzido no dia intensificando um quê da festa, caminhadas em companhias pela região expandida na busca de matérias para produção “na tribo” de um momento em que aconteceria nossa celebração, reuniões em equipes  compostas de “técnicos” e “não-técnicos” especialistas na arte de domar o fogo e os panelões, reivindicações por parte daqueles que encabeçaram a comissão àqueles que decidiram outra coisa diferente da firmada, introdução de quem na hospitalidade noturna buscava atenção a seus processos de cuidado de si e encontrava no Caps um lugar no mundo onde seu saber era potente de encontros com um jeito diverso de estar na vida, eteceteras.
Apresentou-se nos pathos, ou seja, nas paixões vividas não através daquela “patologia” que caracteriza-se como – o estudo das doenças-, mas sim, num de maior força e envolvimento – O ESTUDO DAS PAIXÕES ( pena que o mundo não nos deixe ser assim.) E tomar cuidado para não romantizar a situação, é verdade! Mas é necessário um tanto de paixão (sentimento enlouquecedor e intenso, tanto para o bom quanto para seu oposto) para que a questão se afirme em nós, em nossos nós. E se dessa paixão pelo fazer desvelamos uma amorosidade ao feito que tivemos e temos, sentimos que foi um acontecimento muito singular. No dia 21-12-2010 tivemos, ou melhor, vivemos isso: um caso com a grande saúde. O que é um caso? O que é um caso de amor? O que é um caso complexo? O que é um caso difícil? O que é um caso clínico? A festa foi um caso apaixonante , um caso de amorosidade com o serviço. Um caso, não ao acaso, de amor ao SUS. Um caso sistematicamente único de saúde. Envolvemos usuários, trabalhadores do CAPS, da UBS, pessoas das instituições da comunidade, dos mercados em outras regiões da cidade, da internet... expandimos nossas relações.
E ainda, apresentou-se a nós nas tantas práxis desenvolvidas através desde : imaginar a possibilidade de uma festa, fazer um cartaz para agenciar quem quisesse participar, reunir, desejar um cardápio, lidar com uma verba menor, adaptar, pesquisar, escolher, comprar, escrever preços, conectar a internet, visitar mercados, passear de kombi pela cidade, conversar sobre a vida, sair em companhia da equipe pela manhã, sair em companhia a tarde com a equipe, buscar, cortar cebolas e chorar, imaginar, criar, colorir, pintar, recortar, recordar, dobrar arames, acender velas e aquecer arames, usar o isqueiro de modo diferente, assar, subir escadas, salgar, provar, degustar, adoçar, aquecer, bater claras, separar gemas, servir pratos, lavar, cantar, brincar, gozar com algo produzido por todos, celebrar o que está vivo em cada um de nós, saber que isso é fruto e reflexo de um modo brasileiro-uma invenção oiticicana cotidiana de um povo- de ampliar um sistema que compromete-se em unificar ações de cuidado em saúde.
Mas, tudo isso só foi possível porque ousamos dividir, compartilhar, fazer circular todos esses micro acontecimentos em uma rede relacional potente. E nessa “divisão” pudemos ver que os acontecimentos, ou seja, essas atividades fundamentais para consolidação do acontecimento maior, essas ações inscritas no campo fenomênico dos fazeres ganharam potência, foram potencializadas através das formas, das poiesis, dos pathos e das práxis de todos os integrantes envolvidos.
Nossa rede relacional contou com os nós articulados e agenciados pelos integrantes do CAPS-AD , com os integrantes da organização social que presta serviços a prefeitura, da UBS, dos agentes de saúde, da associação que acompanha as pessoas em situação de rua, do CAPS-i, dos demais departamentos existentes no mesmo prédio, do pessoal do transporte, dos albergues e hoteis sociais (em especial das AS) que entenderam que os usuários que estiveram no serviço construindo a festa chegariam mais tarde na 2ª. Feira, da supervisão municipal de saúde mental, da prefeitura, do ministério da saúde que constituiu uma política que nos permite agir assim.
Tudo isso resultou em algo menor ou igual ao vazio. Não aquele vazio em que tudo é falta e recalcitrância. Mas um vazio prenhe de devir. Devir-cozinheiro, devir-cortador de maçãs, devir-chef, devir-artesão, devir-cantor, devir-coral, devir-decorador, devir-drag queen, devir-metamorfose ambulante, devir-terapeuta ocupacional, devir-redutor de danos, devir-orador, devir-fotografo, devir –identidades singulares, devir-pessoas.

E a descoberta de que fizemos e fazemos muitas coisas, a cada dia. E que o fazer é sem sombra de dúvida nosso maior tesouro. Para tanto devemos LUTAR a favor do que nos é PRECIOSO.

Deixo um grande abraço, com muita força, saúde e paz a todos.
Feliz natal.
andré nunes

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