ARTE COMUM E TERAPIA OCUPACIONAL

(pintura, Helena Mioko, 2010)

(pintura, Carlos Masuno, 2010)

Bom, hoje inicio esse post trazendo à vocês duas obras desencadeadas pelo fato ocorrido no outubro de 2010 o qual mencionei na postagem de ontem. O nascimento dos filhotes deu-se em uma época que estavamos trabalhando com imagens coloridas a fim de poder através dessas criar outros corpos de contato com os quais dialogaríamos o que cada um dos integrantes via de mais belo, o que cada um dos integrantes percebia que acontecia ali naquela sala.
Ambas as imagens dão conta, cada qual a seu modo, de uma experiência de transcendência na esfera do cotidiano. Sim, elas indicavam que algo valioso e de singular beleza orbitava ao nosso redor. E os personagens, ou figuras ali instaladas  no suporte do papel, ganhavam uma tônica separada do habitual, do comum, do que pudesse ser tido enquanto fazendo parte do mundo dos mortais.
Não sei se é do conhecimento de todos vocês que agora leem esse texto, mas gostaria aqui de comentar sobre a origem da palavra IMAGEM. 
A palavra IMAGEM tem sua origem no latim IMAGO .(imaginário também provem daí...). Conta-se que no mundo antigo imago significava uma máscara de cera utilizada em rituais de enterramento. Essa máscara servia para reproduzir o rosto dos mortos. Ou seja, seu surgimento nasce da morte para prolongar a vida. a imagem nesse sentido, nos apresenta duas noções importantíssimas para constituição da história da humanidade. São elas as noções de DUPLO (apresenta um no lugar do outro) e a noção de MEMÓRIA (recompõe em recordação). 
A imagem assim, recompõe o homem cujo corpo estaria decompondo-se pela morte. Beira, outrora, um caráter mágico por proteger os vivos das visões do corpo putrefado e libera-os do temor frente a finitude da vida. As imagens emergem então com a função de tornar presente algo ausente e dar CONTINUIDADE à  existência.
Essa questão da contuidade vinda da imagem, encerra em si  o sentido do DUPLO. "Por que isso?" alguém deve estar se perguntando!!? Ao se configurar uma imagem, ela ( a coisa/objeto-quase/ representação, etc) passa a existir uma segunda vez, e nessa deve haver semelhança e ao mesmo tempo distinção com aquilo que serviu como modelo para sua aparição.
Tudo isso foram pensamentos provindos de modos de pensar da modernidade ao analisarem conjunturas da antiguidade. E podemos dizer que servem, e muito, aos dias atuais. Principalmente á nós quando lidamos com produções desenvolvidas por pessoas que tem pretenção de fazer da imagem, quase que um objeto de vestígios de outras experiências, quase um certo tapume estruturante no qual haja possibilidades de assentamento de outras coisas que ocupam suas existências. Ou melhor ainda, quase que um objeto que em um determinado momento pode ganhar um status de apartamento (estar apartado) do mundo.
Essa forma que molda, que emoldura uma experiência de mundo e de vida pode servir para separar aquilo (uma pintura por exemplo) do resto do mundo. E quando lidamos com molduras, com bordas que dão a forma uma espécie de auréola (não seriam os títulos e teses da academia uma espécie de auréola?) uma aura que separa tantos acontecimentos e motivos do seu mundo, ou ainda separa arte do que seja cotidiano.   
Volto agora as imagens que encabeçam esse post. Naqueles dias em que foram feitas, elas tinham como função uma certa transcendência possível de uma experiência de intenso contato com a vida que nos foi surpreendida pela natureza da gata que pariu seus filhotes dentro da sala de T.O e os modos como cada um sentiu em si esse acontecimento de marca maior. Eram então as imagens, veículos trans-portadores das experiências em cada um de nós. Ao mesmo tempo  que apagavam fronteiras existentes entre as obras feitas ou a serem feitas e todo o restante do experimentado coletivamente (algo do sagrado? uma grande obra ?),  elas também possibilitavam que uma certa distância entre as pessoas  pudesse ganhar destaque para que cada um manifestasse o que transcêndia em si. 
Nesse sentido, por fim, a terapia ocupacional pode ali, estando em volta as artes, se debruçar sobre a questão : O QUE FAZER COM ISSO?
Não dar a essa experiência um lugar, uma OCUPAÇÃO, estando presente no acompanhamento terapêutico dessas pessoas seria de uma crueldade ameaçadora. Perceber a beleza do ocorrido e trazer isso ao cotidiano dessas pessoas, inserir o fato no tempo e no espaço vivido,  possibitando um movimento de aproximação e distanciamento - um deslocamento realizado- através de alguns fazeres foram ações ou melhor, ATIVAÇÕES  desenvolvidas nesse processo.
Hoje tenho para mim que essas ações ( e as imagens como reflexos dessas) serviram enquanto modos de agir e inter-agir feitos em movimentos de transcendências possíveis. Tendo o borrar das fronteiras do acontecido, das obras, da arte, das imagens uma ocupação revalorizada, ao não se deixar ser engolida e devorada pelo caos existente na vida vinda da própria vida.     


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