EM ALGUM LUGAR DA TERAPIA OCUPACIONAL



O post de hoje mostra um dos desdobramentos de um acontecimento incrível ocorrido dentro de uma sala de Terapia Ocupacional. Na real é um espaço que utilizo enquanto ateliê e sala de atendimento. Numa caixa de luz feita de madeira, utilizada para transposição de desenhos e construção de telas para serigrafia, a natureza encarregou-se de deixar uma marca de força maior.
Já fazia alguns dias, isso ocorreu nos idos de outubro de 2010, uma gata sempre saia as pressas todas as manhãs que nós abriamos esse espaço para nele podermos trabalhar. Até que um dia ela sumiu.
Quer dizer, sumiu não. escondeu-se. Encontrei-a em meio ao bloco de cartolinas, e ali não estava desacompanhada. Havia dado cria a uma ninhada de filhotes.
Quando isso ocorreu, remeteu-me a primeira semana em que entrei nessa instituição para trabalhar enquanto terapeuta ocupacional. Uma outra gata havia dado cria em outra sala e simplesmente abandonara seus filhotes.
Reza a lenda que quando um felino assim faz é sinal de que desacredita que seus rebentos terão forças suficientes para sobreviver. Prefere abandoná-los a ter que alimentar e cuidar de quem não dará continuidade ao ciclo vital amadurecendo e procriando.
Lembro que nos 20 primeiros dias que descobrimos esse acontecimento, todos do coletivo c.u.p.i.n.s (central unida de pessoas inventando novas saídas) prontificaram-se a cuidar de modos muito próprios para que ali a vida pudesse vingar em suas potências maiores. Ninguém ousou tocar os filhotes. Distante observava-mos a mãe acalentar e nutrir suas crias.
Conversamos muito sobre diferenças existente entre aquilo que era natural, que era dado por instinto aos bichos e aquilo que era feito pelos humanos. Aquilo que é construção da cultura, dos modos de cada um engendrar cuidados e continuações.
Bom, coube-nos sentir no dia a dia o tempo passar através do crescimento dos filhotes. E de certa maneira ao mesmo tempo em que cuidamos para que ali nenhum ser vivente fosse abandonado, também fomos cuidados por essa mãe que deixou-nos participar e assistir de perto os atos realizados nos primeiros dias de vida de seus filhotes.
Saindo da caixa, quero dizer, quando a imagem sai da caixa, você pode ver vários trabalhos realizados por pessoas diferentes ao longo de muitos anos. De algum modo, essas criações e crias realizadas durante o período em que muitas vezes as pessoas em suas saúdes frágeis e doença evidentes, encontram nessas ações e produções meios para resgatar algo que está vivo e não encontra lugar outro no mundo para aparecer que não seja no interior dessa relação com o terapeuta e essa sala "onde a bagunça pode existir!". Talvez essa seja nossa caixa de luz...
Muitas vezes após a melhora esses trabalhos ficam ali depositados, como uma espécie de inconsciente ocupacional de atos realizados em tempos onde o caos imperava na forma reconstitutiva de uma ordenação ou ordem ainda de reestabelecimento engatinhante. 
Quem sabe próximo ao cuidado que a gata cuidou de seus rebentos quando uma fragilidade era constituinte desse tempo imaturado. Com o zelo de olhar, perceber, tocar, cuidar, alimentar, transportar, guardar, proteger, ocupar-se em cuidados tantos... podemos dizer que a clínica em terapia ocupacional opera também um tanto assim. 
Maternagem é um conceito bastante propagado na área, e quando alguém encontra-se perdido em meio a um sofrimento tamanho havemos de dar a esse condições quase que primárias para que possa aos poucos retomar seus campos de grande saúde. Mas antes de tudo, a tal maternagem ( e eu tô achando bom um homem poder falar sobre isso, ao menos aqui no maquinomovel!!!!) é algo estabelecido em relação. E muitas vezes viver uma relação não é uma escolha. É algo mais próximo a um acatar, um acatar originário no qual a humanidade está mergulhada, um acatar que origina em criativas outras saídas e elaborações.
A verdade ( e afinal o que é a verdade? a verdade é uma coisa ou um lugar?) é que isso tudo dito é algo inesgotável, tal como a propagação das gerações de gatos, de homens, de seres viventes. Daí termos que de verdade, ela, a verdade é uma eclosão. Uma eclosão na qual querendo ou não estamos nos relacionando a todo instante, mas a isso também não poderíamos chamar VIDA?
fico por aqui!
abç
andré
     

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