papo livre

boas!
as vezes acho meio descabidas as coisas que posto aqui para os leitores. descabidas porque parecem expor algo que realmente é experimental, e assim o sendo não tem muito lugar aonde encaixar. nisso acabo sentindo que quem lê também está experimentando isso enquanto possibilidade de produção. a um mesmo tempo te mostro, é isso um certo acúmulo sobre essa experiência de fazer um tipo de comunicação de uma das formas possíveis de conhecimento, e também desconstruo uma idéia de que as coisas vem prontas definitivamente.  
tudo é muito precário, tenho noção. parece mesmo uma grande instalação de frases e pensamentos transpostos para a coisa escrita. e a coisa escrita é sempre diferente da coisa falada. 
hoje me vi conversando sobre isso com um paciente. guardar o tanto que pensa por temer que alguém acesse seu jeito de compreender os mundos internos e externos. pensando bem o que move isso tudo aqui é uma grande necessidade de conseguir conversar sobre essas coisas com alguém e não encontrar alguéns que topem isso. mas enfim... vou tentando a meu modo, esperando que alguém se aproxime também. para ser bem realista talvez não devesse alimentar essa esperança. e encarar essa solidão do pensar possa ser meu maior desafio até outros tempos depois...
não gosto de comentar ou postar muito sobre minhas ações realizadas enquanto terapeuta com indivíduos. mesmo porque acho esse tipo de exposição um tanto quanto complicada, principalmente para a outra parte.
quase sempre que escrevo sobre atuações profissionais elas estão imersas numa construção realizada coletivamente, em grupo, em uma outra forma de estrutura que de certo modo resguarda as individualidades e identidades.
não sei se isso acaba por gerar um certo mal estar em quem acessa essas páginas. mesmo porque o feed back recebido via comentários não é de fato o melhor meio de averiguar isso tudo. 
dias atrás, escrevi sobre um medo que senti de fato sobre o fim da profissão. e que tempos atrás tinha posto essa questão para circular em um outro lugar, no caso um lugar de formação e aprendizagem.
o mais bacana que pude até então perceber é que a construção dessa coisa que chamamos identidade da profissão, ou identidade profissional,  é algo feito até o fim de nossos tempos. está continuamente em construção-desconstrução, mesmo porque isso fazendo parte da vida humana em seu fazer corre nessa tentativa frágil de organização.
e se hoje fosse possível realizar um exercício experimental, e é possível sim fazê-lo, gostaria de ousar imaginar como seria minha vida sem o exercer dessa profissão. sem eu me denominar terapeuta ocupacional.
de primeiro o medo surge maior, parece aumentar. sabe como é? não sei porque cargas d' água a profissão que a gente exerce, exerce um poder muito grande sobre nossa vida. vira e mexe quando vou me apresentar a alguém digo: sou andré, terapeuta ocupacional, etc e tal... teve épocas que num certo cansaço de explicar que raios era isso pras pessoas dizia que tinha outra profissão.
hoje, sinto um certo prazer em explicar pros outros sobre terapia ocupacional. bonito quando as coisas na vida da gente mudam.
mas voltemos, como seria minha vida se hoje não existisse mais a terapia ocupacional? hoje no metrô, ao passar a catraca de saída pensei isso. e se eu deixasse nesse momento de ser t.o? o que aconteceria? estaria trabalhando como corretor de imóveis? seria vendedor de eletrodomésticos? que atividade estaria eu, fazendo? e quando me vi pensando sobre as atividades mais uma vez o que era ser t.o voltava a tona.
como pode o trabalho impregnar na gente de tal modo que não conseguimos desvencilhar dele, não?
que o trabalho é uma grande linha de força que organiza processos de constituição das subjetividades humanas nessa sociedade, não é algo que podemos negar! não tem nem como negar isso. mas pensando, que valores estavam implícitos quando me questionei sobre o fim disso? pensava naquele instante: eu estaria ganhando mais? estaria menos sobrecarregado? estaria mais feliz com minha situação de vida? sentiria que tipo de responsabilidade frente a vida?
nisso me pus a pensar sobre minha história de vida, e os valores que foram sendo contituídos em mim durante seu decorrer. dessa coisa de gostar de estar com as pessoas na forma de ações de cuidado e de ajuda, desde criança faço isso. estranho porque parece que toda vez que penso em mim automaticamente passo a pensar no próximo. não de um modo que deixe de viver minha vida e viva a vida dos outros. mas sim, num jeito que minha vida é sentida mais intensamente viva quando me aproximo dos outros e de alguma forma posso, ou me disponho a ajudar. é espécie de mistura de empatia com o alheio.
parece algo como se colocar próximo ao outro e tentar observar e pontuar um certo lugar que esse ocupa nas relações com aquilo que estão fazendo.é estar com o próximo e lá estamos nós novamente na terapia ocupacional. mesmo porque parece que quase tudo me remete a associar as coisas ao redor com ela. lembrei agora da eliana e sua pergunta no processo de aprofundamento sobre o fazer. aquilo que posso associar com a ação humana lembra T.O?
mas dizia acima que era um tentativa de observação. e para observar a gente precisa ver. e me pus a refletir sobre como via as coisas e pessoas ao meu redor. que visões eram essas? de homem? de mundo? de saúde? de vida? de arte? uma vez escrevi aqui que tudo era desenho. e sendo desenho estava numa zona entre ver e imaginar, perceber e ser percebido, coisa mental como disse Leonardo, no caso esse era o da Vinci. todas as coisas produzidas pelos homens hoje em dia foram em algum momento desenhadas. foram projetadas a ocuparem algum espaço e tempo nas relações. algo que existe como se fosse um design ocupacional.
até as palavras que pensamos foram designadas pela cultura na qual estamos imersos desde antes de nascermos. e quando nascemos de cara já ocupamos um lugar nesse mundo. e o que fazemos com isso e o que fazem com isso na gente, também de certa forma é o tempo todo designado. 
as forças que designam são inumeráveis.loucura maior é tentar captar essas no transcorrer da experiência de vida.
hoje li em algum lugar que já não me lembro onde, que são as experiências que vivemos que vão construindo os sentidos para as ordenações de sentido em nossa vida. e não o contrário, que a vida quem ia dando sentido à experiência. quando transpus a catraca do metro e passei por aquela saída, isso fez o maior sentido até então do que já vivi. acho, e por enquanto posso dizer que acho mesmo, que poder escrever isso tudo aqui de modo mais livre é  melhor canal de linguagem e comunicação que já pude fazer por mim mesmo. e que quando pensei (mesmo sem saber muito) isso para mim abri um lugar no mundo para outros também poderem assim fazer. 
sei lá, parece que a medida que o tempo passa e vou compreendendo um pouco mais de que muito pouco sei e falta tanto mesmo por saber, ao mesmo tempo que mergulho de modo diferente nas vidas de outras pessoas encontrando algo mais próximo ao que seja essencial, vou me permitindo também descontruir as amarras que um dia acreditei me segurarem sobre a forma, ou sobre o nome de uma profissão. é isso, não é a profissão que me define e modela, e sim, eu quem a meu modo defino aquilo com o que realizo uma fissão (ruptura) em direção para o... ou pro, anterioridade, origem ou extensão.   
 enfim, vou ficando por aqui.
gde abraço
andré

  

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