500 posts!


"Nas lendas gregas e egípcias, a fénix representa o sol que se põe todos os dias, num vermelho flamejante, para na manhã seguinte renascer. O seu nome deriva da palavra grega para “vermelho”, simbolizando o fogo… nada mais apropriado uma vez que o pássaro mitológico mais famoso de todos os tempos morre e nasce envolto de chamas. Os egípcios, por sua vez, acreditavam que só podia existir uma fénix de cada vez e que esta era vista de 500 em 500 anos.".
De escrita em escrita aqui estamos... 500 posts.
Muito do conteúdo apresentado nessas páginas virtuais, foi de fato profundamente vivido. As linkagens iam aos poucos tomando forma e com essas a possibilidade de formação de uma rede intra-maquínica ia se se "enformando". Outros links vieram ao acaso, que como tantos outros que nos ocorrem durante os processos na vida mostram-se potentes por nos levarem a lugares de conhecimento inesperados. Tantos compartilhei por achar pertinente, mas a grande maioria veio de uma criação bastante singular e quase que artesanal.
Diferente da maioria dos blogs de Terapia Ocupacional, onde muitas das informações são disponibilizadas mediante artigos de outros escritores. E ao assim ser feito acabam transformando a plataforma do blog em uma central de distribuição da informação, esse aqui ousou compor algo de fato original. Original no sentido que comportou uma série de escritas inventadas ao sabor de um pensamento livre- articulado as certezas que as artes trazem em si.
Saudações a todos que apoiaram essa iniciativa que hoje culmina na publicação de número 500.

Oba! Tamo vivo!

Hoje vou dizer de um jeito bem simples coisas que fiquei a refletir no cotidiano mais pequenininho. No trem, quando a caminho do trabalho pensava, puxa vida, parece que agora estabeleço um looping no processo. Ando redescobrindo que coisas criadas já podem ser revisitadas e acrescidas de outras descobertas e criações novas. (fato que ocorre nesse exato momento-02-11-2011, quando reedito esse texto e toda vez que vc encontrar uma letra diferente nesse texto é sinal de que a escrita é posterior a data de sua primeira publicação. Algo como uma reedição revista e ampliada).
Outra coisa que me chamou a atenção é o fato da idéia original ter vingado de um jeito que não esperava. Grande parte dos acessos dá-se a partir de uma imagem do post "quando Iara disse sim". A imagem de um dedo saindo de dentro da água aponta uma saída do meio líquido.
Tudo rima pro despertar do cuidado diluído. São sinais que associo aqui na caixola, gosto desse jeito mambembe de compor na vida. "Fantasia pura!"dirão alguns. Pode ser, por que não? Mas pode ser também um outro jeito de perceber as coisas, e isso não invalida nada o que foi vivido aqui bem perto.
Bom, resgatei um hábito de carregar comigo uma caderneta pra escrever quando algo de sustância viesse à idéia. E aqui te passo algumas coisas que pude perceber. Já te digo de cara que a maquinoativação de fato funciona, agora cabe um jeito outro de tentar transpor até você como isso se aplica. Ok?
O fato é que:
O conteúdo dos fazeres está implícito nos acontecimentos. Assim dito, podemos pensar primeiramente que os acontecimentos carregam e são compostos por uma diversidade de fazeres que se manifestam mais por atos do que por palavras.  Explicitá-los é um modo de exercer potencializações, de exercer condições para que o mesmo se desenvolva, parte desse exercício de criação de condições ou de conhecimento dessas ocorre de forma fluida e em paralelo. Na maioria das vezes ela se encontra ao lado daquilo que fazemos, compõem uma parte. Essa parte eu a nomeei de clínica/cuidado diluído.
O cuidado diluído é um constituinte da potencialização daquilo que nos dá vida, diríamos que um dos agentes catalizadores do processo amoroso existente nas relações humanas. Ele contempla todas as operações de elevação das relações humanas e tem na amorosidade um eixo estruturador de si, ou ainda dizendo, cuidar e amar apesar de não serem sinônimos carregam em si aproximações que podemos qualificar de evolucionais e libertárias.
Frente a isso vou lhes apresentar um exemplo de como a maquinoativação pode ser feita, e de como possíveis objetos aliados nessa relação podem ser postos para a formação de um raciocínio clínico ampliado. Ampliado porque no frigir dos ovos é da vida que estamos cuidando, da vida como um todo que nos acontece.
A primeira potência abordada aqui emerge na forma. As formas presentes nos acontecimentos do cotidiano de qualquer humano, são atributos da formatividade. Ao emergirem nas relações inter-intra pessoas e dialógicos tornam-se aparentes, e assim conferem ao acontecimento graus de presença. Ao instalarem presenças operam-se recortes no tempo e no espaço, temporalidades e espacialidades. Tudo isso tem muito a ver com a ocupação, tudo isso é reflexo ocupacional do humano em nós. Passado e futuro turbinam-se e se retroalimentam. Aqui e lá se movem encontrando-se. Tal qual o movimento de propulsão de uma monada. A instalação da presença AGORA vem na forma de um preparo para que tempo/espaço sejam cônscios.
O agora, tempo primeiro da presença, é a forma abstrata através da qual o acontecimento formaliza-se. Ao processar sua formalização no ser elenca informes possíveis de percepção. Esses irão linkar-se a outras tantas formas e demais potencializações.
No caderninho que carrego assim anotei:
Agora na viagem do metrô estou percebendo seu movimento pelo visual, auditivo e senso-própriopercepção movente de meu corpo existente dentro do corpo do metrô. Uma moça de pernas cruzadas e mini saia vermelha a minha frente desperta minha atenção. Nesse instante a voz robótica anuncia a próxima estação: Ana Rosa, minha atenção desvia-se para isso, escrevo no caderno. Penso se vou até a avenida paulista ou se desço e decido ir a um outro lugar... as pessoas formam uma fila aglomerada próxima a porta do vagão para desembarcarem. Fico num impasse breve. Resolvo ficar, o registro do que acontece está prazeiroso.
Continuo escrevendo: Isso, de registrar é o acontecimento principal para o qual meu fazer se converge. Os demais são potências elencadas pela forma escrita de explicitação do que estava acontecendo naquele agora de minha presença. Um grupo de rapazes entra no trem. Ficam uma estação e descem. Trocam entre si risadas a partir de uma foto existente no aparelho celular de um deles. Ou seja, acontece com eles de elencarem como potências do acontecimento as formas imagéticas, sonoras e gestuais: FOTO + PALAVRAS + RISADAS.
O riso é um gesto? pergunto-me.
Sim, penso que sim, o riso é um gesto criativo.
Desço na estação Consolação. Esse caderninho, uma materialidade da forma- ou objeto coisa- serve-me como um caderno de campo antropológico. Uma forma de cuidado comigo no processo de auto-maquinoativar-me.
Carrego ele na tentativa de reaver um modo já operado num tempo atrás, uma práxis por mim já realizada anteriormente.
Do trajeto do metro até aqui, um parque chamado Mário Covas, pensei algumas coisas. A vontade de pontuá-las (pathos- subjétil) veio a fim de poder desdobrar o que ocorreu- simpathias empáthicas!.
Ao chegar na esquina da Paulista com a Augusta a nomeação :  CADERNO DE CAMPO, pulsava como uma idéia gostosa. Um sentimento de "_É ISSO!" ou seja, uma afirmação me atravessava.
Escolhi descer a rua Augusta sentido centro da cidade. uma questão entrecortou o que sentia/pensava. Um POR QUE barrou a continuidade. POR QUE sempre desço essa rua nesse sentido? Parei um momento na calçada a refletir. Me dirigi até o bar da esquina, pedi um café. Fiquei olhando as pessoas ao redor. Um sentimento de estranheza me veio a tona. Puta merda, eu tô vivo! Será que estou com cara de quem está em meio a um processo de criação? De alguém que está com os sentidos um tanto quanto aguçados estampados na cara pelo fato nada fácil de ter tomado consciência de que está vivo? Bebi o café, me dirigi a avenida paulista subindo a rua frei caneca. Uma senhora de toca vermelha de croche e olhos azuis me acompanhou na travessia da rua. ATENÇÃO: Pela segunda vez a cor vermelha!


Vermelho
Movimento: o movimento do vermelho não possui direção, parece mais um borbulhar em si mesmo, Kandinsky vê nessa cor uma imensa e irresistível potência.
Simbolismo: o vermelho é a cor autoconfiante, transbordante de vida, ardente, agitada, efervescente, ao misturar-se com o preto o vermelho adquire a cor marrom, que se classifica como uma cor dura, estagnada, quase sem vida. No entanto, também considera o marrom uma cor potente, na sua sonoridade interior, capaz de expressar uma beleza interior que não pode ser traduzida em palavras.
Temperatura: é também uma cor quente, embora também tenha potencialidades para se tornar uma cor fria.
Som Musical: representa o som impertinente de uma fanfarra, com instrumentos como a trombeta, com sua potencia e seus agudos.
Estado de Espírito: com uma mistura ao amarelo o vermelho evoca força, impetuosidade, energia, decisão, alegria, triunfo. Já em um tom médio o vermelho representa um estado de alma no qual há paixão, um vermelho mergulhado no azul representa uma paixão abafada, uma brasa que se apaga na água.
Subindo a rua parei próximo a um conjunto de prédios espelhados. ( Isso é um verdadeiro exercício para a memória descritiva e narrativa: relembrar o que ocorreu e tentar organizar através da escrita, vale a pena experimentar mais!). Um grupo de pessoas observava algo curiosamente. Eu estava em busca de um lugar para sentar e redigir. Fui ao encontro das pessoas e quando cheguei numa pracinha entre os prédios vi que todos cuidavam de seus cães domésticos que brincavam entre si num pequeno gramado. Um casal tirava fotos em frente as janelas espelhadas. O rapaz fazia poses e a moça apontava sua máquina em direção a ele na captura de sua imagem. 3 mulheres uniformizadas como ajudante de limpeza observavam os dois amantes. Passei em frente ao prédio e observei meu reflexo em movimento. A barriga saliente foi a parte de meu corpo que meus olhos primeiramente buscaram. Chegando a paulista vi um conjunto de árvores numa esquina. Resolvi conhecer o parque. Na travessia da avenida me dei conta de que poderia tentar explicar sobre a maquinoativação através do exemplo FACEBOOK. Algo que as futuras gerações irão perceber com muita facilidade. Visto que esse é um de seus brinquedos ou brincadeiras predileto.
então aqui vai:
MAQUINO ATIVANDO A BRINCADEIRA FACEBOOK:


Hélio Leites from Cesar Nery on Vimeo.
6a. feira chego em casa. Ana Clara (uma amiga no trabalho) havia encontrado-se com um vídeo e marcou meu nome e de umas outras pessoas em seu compartilhamento. Essa operação dá aqueles marcados a possibilidade de visualizar o que ANA em parte viveu nesse encontro. Melhor dizendo: Ana ia vivendo sua vida e aconteceu nessa um encontro. Descobriu um vídeo e resolveu linká-lo a algumas pessoas que compõem sua Rede Relacional. A relação de Ana com o vídeo permitiu que ela refletisse a cerca da relação dela com os outros.
Quando me vi marcado no vídeo compartilhado um sentimento de curiosidade ( pathos-subjétil) aguçou-me. No momento que assisti o vídeo ele me aconteceu por completo. 
Aconteceu então o meu encontro com o vídeo.E nesse o meu encontro com parte do que Ana dispôs. Esse mesmo aí em cima. A forma vídeo tem um conteúdo muito belo do artista Helio Leite, e mostra-nos algo a cerca do fazer interior.
Quando isso acontecu em mim, imediatamente potencializei esse encontro, pois ao ver que criara  nesse que vos escreve (poiesis-objeto quase) uma vontade de mostrá-lo a mais outros que talvez Ana não conheça. Criou-se assim em mim a  vontade de fabricar o encontro desse com outras pessoas. Ou seja, a poiesis reverberou no acontecimento.
Por se trata de um vídeo emocionante, sentimentos foram despertados: alegrias, belezas, reconhecimentos, pertencimentos, estados reflexivos, empathias... ou seja, algumas paixões humanas foram elencadas. O pathos foi ativado em seu potencial.
Assisti ao vídeo, me emocionei, apreciei, lembrei de amigos, quis compartilhar a brincadeira no facebook ao selecionar endereços de perfis virtuo-digitais, cliquei botões do mouse, busquei as pessoas pelos nomes, linkei-me a alguns. Essas foram algumas das práxis realizadas.
Tudo isso aconteceu comigo e ao dividir em minha Rede Relacional do FACEBOOK, ou seja, ao tornar  a presença desse existente para outros, fiz com que acontecesse mais circulações.
Logo os comentários surgiram. ou seja, o devir operou em escala menos ou igual ao vazio enquanto criações outras. 
É um exemplo corriqueiro esse, mas de fato essa operação ocorre nos fazeres e acontecimentos em geral. Demanda um grau de cuidado amoroso para com os outros.
Mas o que isso tem a ver com Terapia Ocupacional?
Vamos a uma situação clínica. Onde a potencialização é exercida mediante uma operação de cuidados específicos.
Um paciente chega a sala de Terapia Ocupacional para um primeiro encontro. Na relação proponho que entre no espaço-setting da sala, o contato-manejo já inicia através da possibilidade de escolha de um lugar que ele venha a querer ocupar ali dentro. Terá de escolher se fica em pé, se escolhe sentar-se ao redor de uma grande mesa com 8 cadeiras. Ele escolhe uma e senta-se. Geralmente sento-me ao seu lado, sim evito sentar-me a sua frente do outro lado da mesa.
Iniciamos uma atividade através de uma conversa, a forma escolhida nesse instante é o diálogo. O encontro relacional primeiro dá-se através da palavra, matéria humana por excelência. Me apresento e digo que esse é nosso primeiro encontro. Peço que me conte o que está acontecendo consigo. Isso pode começar com uma pergunta do tipo: Então, o que está acontecendo contigo? Ou ainda o que te trouxe aqui? Ou como você chegou até aqui? Geralmente as pessoas que frequentam terapeutas ocupacionais tem um longo percurso de tratamentos anteriormente realizados. São portadoras de histórias onde tentativas outras de cuidado já foram tentadas ou realizadas. É um clássico na profissão lidarmos com pessoas que de algum modo tem necessidade de cuidados de aspectos referentes as atividades da vida diária e da vida independente.
Nesse momento, no agora do encontro, sua rede relacional ali sou eu + ele = uma dupla. Somos um combinado de EU-TU. E o que faço é estabelecer contato mediante a forma da palavra dita.
Geralmente esse primeiro contato marcado pela forma verbal tem uma criação poética possível no encontro de alguém que busca numa oferta profissional algo que possa despotencializar uma experiência-sofrimento. A poética do encontro é uma potência a qual iremos conjuntamente buscar meios e condições de cuidado frente aquilo que possa ser demandado como necessidade. E os pathos emergentes dessa poética geralmente envolvem tristezas, dores, desespero, despersonalizações, rupturas, crises, rancores, ódios, desolações PRÉ-OCUPAÇOES ou DESOCUPAÇÕES.
As práxis do sujeito, em sua maioria, estão voltadas para um desconhecimento de si, uma inconsciência do que se faz ou do que é feito consigo.
Geralmente é isso que acontece na divisão-circulação desse primeiro encontro nessa micro-rede relacional.
Para além disso observo muitas coisas, sua ações, seus gestos, seus modos de mostrar seu ser, seus cuidados para com seu corpo, sua higiene, sua fala, sua voz, como fala de si em propriedade, como se mostra, como se veste em suas escolhas de roupas, sua lógica, seu humor, sua atenção, suas emoções, se chora, se altera-se, se escuta a si e a mim, se pergunta-se, se responde, se gosta... o que faz de si ser si mesmo.
Uma pergunta chave que faço no primeiro ou segundo encontro é: O QUE VOCÊ GOSTA DE FAZER? as vezes, para chegar nisso pergunto: COMO É UM DIA SEU?
Peço que me narre, ou seja, que me conte suas ações.
O cotidiano, sem dúvida, é a temporalidade espacial de maior organização de nossos fazeres. Cuidar do que nele fazemos é um modo de diluir nossa atenção para conosco. e você, o que tem feito em seu dia a dia?
enfim... por hoje fico por aqui. Deixo um grande abraço, e até uma próxima.


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