Poiesis



Em que pé estou? Sim é verdade, por mais que tente me afastar da terapia ocupacional, o fato é que isso em mim tem marcas. Não é tão simples assim deixar de fazer as ações do dia-a-dia sem pensar um tanto nisso. Fica mesmo colado no jeito como enfrento o processo de viver. Me lembrei de uma história que me contaram num grupo de passagem, na qual uma moça cansada de trabalhar na saúde e tendo sua mãe doente e velha decidiu pedir as contas da clínica onde trabalhava. Ao ir conversar com sua supervisora essa comentou:
_ olha, entendo que a vida tem percalços onde a gente se esvai, onde a gente deixa escapulir toda nossa força de transformação, onde a gente se descuida porque viver não é nada fácil. Engana-se e muito quem acha que isso tudo é simples por demais e que não exige da gente um tanto de crença. Uma vez, folheando uma antiga revista li uma reportagem que dizia algo muito particular que tem a ver contigo.
E nisso a supervisora pôs-se ao dizer. Um artigo contava sobre descobertas feitas durante um processo arqueológico. Nessa uma ossada completamente deformada foi encontrada no meio de tantas outras. Tratava-se de alguém que pelas vias do cuidado havia sobrevivido a três gerações de homens da caverna. Sabe como isso pode acontecer? Foi por cuidado que essa tribo protegeu esse ser diferente. Foram necessárias ações de todos para que esse pudesse ser levado adiante mesmo que a morte de outros viesse a ocorrer. E esse prosseguir era uma espécie de mérito a todos que passavam de geração pra geração. Um ser sobrevivente que carregava a historia daqueles que por ali passaram.
_ veja bem!  Continuou a supervisora. Por mais que sua vontade seja a de largar tudo, não há como negar sua natureza. Ela é do cuidado. Nos cuidados você se encontra e isso pode parecer estranho mas é uma missão. Está em você isso. É uma marca de gerações anteriores. Daquela tribo você fez parte.
Eu aqui, sempre que penso estar abandonando aos poucos a terapia ocupacional, fico pensando isso. Sim, aos cuidados presto meus antecedentes. Nos cuidados me encontro a mim mesmo. Isso em mim mesmo ainda está instalado em uma ética inquestionável.  Um dia talvez consiga romper com essa mudez. Essa mudez daquela fala mais particular que tenho para comigo mesmo. Sim, as vezes converso sozinho. E esse conversar solitário me é de extremo valor. Posso rever e revisitar tantos esquemas de pensamento, posso melhorar dos contatos que me demandam uma exigência que às vezes não tenho nem para comigo mesmo.
Ao realizar esses “loopings”, literalmente me pondo de ponta de avesso, no cuidar encontro algo genuinamente meu. Penso que sou terapeuta porque de fato não saberia estar próximo aos outros se não fosse para ajudar os demais a se conhecerem. E conhecer-se pode trazer dores a tona, se em mim sinto que traz no outro isso é bem capaz de acontecer, e quando a gente leva aquele susto em se descobrir assim ou assado  pode fazer emergir tantas variáveis, pode sim fazer de mim alguém que veio ao mundo com um aparelhamento psíquico capaz de tornar consciente , alguém que pertence ao mundo com um caráter de auxiliar ao meu próximo, porque nisso eu me auxilio a descobrir sobre aquilo que busco não plenamente no outro, mas na ressonância desse contato.
Daí, entro em acordo que aquilo que faço, sendo arte e terapia ganha sempre, estando na esfera do contato uma aura de cuidado. Sim é isso, a clínica diluída assim como a arte da saúde são compostas de elementos  especiais  por serem singulares demais a cada um mesmo quando agenciados os saberes do mundo ao redor. São compostas por elementos temporais, de temporalidades inclusivas de um agora cuja aparição única no momento de espanto da criação da consciência é algo que pode parecer distante por mais perto que esteja. Isso se parece tanto com o conceito de aura descrito por Walter Benjamim...
Às vezes o fato de sentir-me sozinho nisso aqui me entristece bastante, quando vejo que  o esforço que realizei até hoje pra manter esse lugar no mundo, esse lugar poético de escritas e imagéticas, esse lugar de poiesis, enquanto fabricação de meu ser deveras não é suficiente para dar ao próximo o acesso àquilo que pude ser  no vivido juntamente composto pelo criativo. Mas também as vezes concordo tanto em tom de alegria com a frase de Lispector que nos diz que “ o que nos salva da solidão é a solidão de cada um dos outros.”. Enfim, é um tanto isso, dentre outras coisas que está me aparecendo nos últimos tempos. Abraço.

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