objeto letra A


ACONTECIMENTOS OU A-COM-TECIMENTOS...
Ao escrever essa palavra em meu caderno, grafia replicada e aberta desse segundo jeito, fiquei a pensar num duplo. Um duplo:quase.  E sendo assim, um quase que deixa-se transformar em "talvez seja isso!" Não minto, isso veio à mente.
São esses "quases" os campos aos quais nos aproximamos do outro, e neles deixamos que efetuação de boa parte de nossos trabalhos se deem. No "quase" é possível deixar vir a tona aquilo que acontece de fato, na presença do vivido onde a garantia se assegura na experiência do fazer. É possível na escrita fazer com que o  "A" teça com os seus...

 nesse espaço duplo e ao mesmo tempo inter-distante comecei a confabular

Nem ACONTECIMENTO por si só, nem A -COM- TECIMENTO, por fim dizer. 
O silêncio é impecável!
Partindo de um modelo doente e circunstancial abri esse espaço e constitui um lugar para catalisar o cuidado diluído nessa criação entre um e outro modo de pensar...
o objeto A vinha até mim a todo instante... O objeto A era minha mostra doente, porque derivava de uma ausência de ser-sem. Era como eu-viver-"sem isso", prefixando oposições ou negações do processo vivo. O objeto A trazia até mim um conglomerado de significações possíveis. Ele se pluralizava em palavras de ordem categóricas frente ao esquecimento patológico instalado em um processo de demência senil que acompanho.

Nas elevadas potências do acontecimento, assim ele se configurava, resultando em objetos instalados na borda da ausência de estados do ser:
   
na phroma- AMORFO - sem forma definida e/ou sem estrutura- OBJETO-COISA:  indefinido
na poiesis - APOÉTICO- sem criação, ação ou confecção - OBJETO QUASE : inexistente
no pathos - APÁTICO - insensível a tudo, indiferente SUBJETIL: inexpressivo
na práxis - APRAXICO - sem habilidade para executar movimentos e gestos precisos que conduziriam a um dado objetivo OBJETO-AÇÃO: inativo


O "campo dos phenômenos" viabilizado pelo acontecimento primeiro, campo circunscrito "entre-tempos" (1.) quando potencializado nesse estágio dos objetos A, resultava um estado de paralisação total. Fortes eram as lembranças dos pacientes com demências senis avançadas, cuja identidade, memória, praxia, poiesis, constituição corpórea, subjetividades, linguagens, atenção, relações inter e intra pessoais, entre outras composições do ser, configuram-se num grande estado de perdas, num processo de saúde muitíssimo frágil.
Neles a capacidade de dividir seus atos e ações em redes relacionais está bastante comprometida. E o pouco que acabam conseguindo tem um resultado muito menor que o vazio criativo. Haja visto que a questão da completude dos atos acaba por ficar quase que inteiramente desarticulada de si É quase um modo de viver onde o EU da relação se volta sempre em tornar-se apenas um "isso". O reconhecimento do feito opera-se em dispersão extremamente excêntrica tamanha a introspecção do ser vivente, com imensurável ressoar em si frente a impossibilidade cientifica atual de medir as capacidades existentes num estado bastante avançado de adoecimento.
O fato é que obtemos ressonância naqueles que compõe sua rede relacional, esses é que acabam por acolher e apreciar o que é por eles feito quando a negação do processo não está instalada.
Aqui cabem questões de ordem para pensarmos a estreita relação arte-clínica, pois através desse processo pelo qual a consciência pode ser apreendida através de um determinado objeto nos mostra que as formações são partes intrínsecas das formas, as poeisis são indistintas da fruição (2.), os pathos decorrem da relação sujeito-objeto - subjetividades e as praxias de reflexões das e nas ações. nenhum deles se apresenta isoladamente, isolada é o modo como tentamos objetar essa apreensão. Na realidade eles se emaranham, se relacionam indistintamente, se complementam em circunvoluções por serem da ordem da complexidade.  
Talvez ( e esse "talvez"entendido aqui como um quase), a verdade seja dita através de uma pergunta a ser acolhida frente a imprecisão desses escritos não tanto científicos porém advindos de minha cons-ciência até você :  
O OBJETO LETRA A NÃO EXISTE?

enfim... salvo esses pensamentos aqui na tentativa de não deixá-los guardados nas páginas de meu caderno...
abç
andré

1.Pode-se aproximar ainda a noção de acontecimento de Foucault à acepção que Deleuze dá a ela: de um “entre-tempo” como “espera e reserva” (Deleuze, 1993, p. 203-204), ou ainda como o “ins-tante”
(Augenblick), como o conjunto de tudo o que do porvir e do vigor de ter sido se concentra e condensa na dinâmica de uma unidade (Heidegger, 1990, p. 197, 204).
2. "O ato de criação é sempre, então, uma recriação que resulta em novas recriações por outros sujeitos. Lembremos ainda que esta ação re-combinatória pode tanto resultar, no âmbito da comunicação social, em uma recriação comunicativa quanto em uma ação social.".

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