VAMOS FAZER UM FILME?



Máquinas de fazer ver
Faz-se necessário, antes de mais nada, compreender bem a questão atual.  Trata-se de dizer sobre uma vontade nascente em um trio de terapeutas ocupacionais de fazer um filme nas bordas da história de uma profissão com um quê de cuidado diluído.
Bom, se levarmos em conta uma parte da história do cinema, há no encontro com seu corpo de filmes e estéticas diversas, inscritas ao longo de mais de 100 anos em diferentes tempos e espaços de produção, um certo predominio por uma marca que  busca  UM EFEITO DE NATURALIDADE ao visível e ao feito que se mostra presente por essa linguagem. Esse é, a nosso ver, um grande nó existente nessa produção que se enuncia num futuro.
Com o intuito de desatá-lo, numa melhor concepção sobre o filme e essa nossa experiência com o cinema, é valido ressaltar o "modelo clássico" sempre apregoado, não apenas no âmbito cinematográfico, mas que como força de tradição nos é sempre apresentado. Narrar é sempre nosso : denominador comum nas formas de expressão construídas para as passagens adiante de marcos deixados ao longo da evolução criativa humana. Serve essa tradição narrativa-expressiva para essa e  várias outras estruturas, meios e linguagens das artes visuais e da terapêutica ocupacional.
O fato é que temos na narrativa, e nela os tantos fazeres envoltos, parte do elemento estrutural e sintetizador dos modos humanos de configurar a experimentação e ordenação do acontecido ao vivo e ao vivido. Ao tornarem-se aparentes esses atos, eles encontram no campo do entendimento, do acontecimento e do discurso, a possibilidade de contagem de sua trajetória e desenrolar.
No campo estrutural da linguagem artística cinematográfica, um jogo de alternância e tensão entre características realistas e características experimentais sempre está presente. Remetendo a esse jogo uma certa força constituinte, tanto do cinema (o que de fato está em questão aqui), como de seu PODER (sob a forma de fascínio) junto ao público  dessa linguagem. A gente ao fundo se pergunta: O QUE PODE UM FILME AO PÚBLICO? 
Ao bem analisarmos numa primeira vista, os acontecimentos mostrados nos filmes são quase sempre enunciados enquanto questões narrativas, estão centralizadas sobre pré-ocupações em contar bem uma história através de meios definitórios de estilos próprios dessa linguagem que no decorrer de sua evolução assumiam e assumem propriedades novas a cada movimento artístico ou conceito anunciado em percursos e escolas de pensamento-criação; em segunda vista, tratam-se (ou seria cuidam-se?) de modos de exercer poder através de organizações e criações imagéticas discursivas, estabelecidas através de linhas temporais de desenvolvimento e de caráter efetivamente narrativo.

Sendo NARRAÇÃO (e no caso aqui o cinema em devir) esse um dispositivo amplamente difundido, que tem nos princípios de montagem-colagem-cadência-edição-fluxo-corte-fluxo...grandes eixos estruturadores de seus modos de ativação e feitio... é válido observar que tais operações abrem-se através desses recortes constituintes, afirmando possiveis e variados diálogos com todas (senão quase todas) as outras linguagens do conhecimento humano. E o cuidado é um conhecimento?  Produzindo por vezes reflexões entre outros campos de poder instaurados nos produtos, produções e realizações humanas.
O cinema sem dúvidas nos remete aos mecanismos humanos de MEMÓRIA E COGNIÇÃO, esses também situados entre realismo e experimentação.
O primeiro trecho de filme mostrado acima, mostra uma sequência contínua, realizada e apresentada pelos irmãos Lumière, num  dia de 1895. Intentavam produzir uma sensação visual de movimento nas pessoas ali presentes. Apresentaram cenas cotidianas da ordem do já acontecido, cenas da chegada do transporte, a chegada de uma grande máquina móvel a vapor da época.
 A cena do trem, na qual os mesmos projetam os frutos originais dos avanços tecnológicos do século XIX mediante fusões ópticas, dava-se através de apresentações de cenas projetadas por uma outra máquina que punha em movimento ações. Essas estavam gravadas na matéria, entornadas pelo fluxo da luz, a velocidade de giro e a projeção na tela dessa cadência de imagens em um ambiente de penumbra...isso tudo nos faz pensar se não teriam pois acionado nas pessoas ali presentes, tantas outras questões não anunciadas pelo filme em si.
As questões referentes a alternância e tensão entre o que era da ordem do real, o que era da ordem da experimentação, que forças constituiam o cinematógrafo, que forças constituíam aquela projeção-reflexão frente a nova “máquina base do ver”, ficam assim levantadas por quem ainda hoje assiste as mesmas e considera esse filme como o primeiro e original exemplo dessa linguagem humana.
O segundo trecho de filme mostrado abaixo, trata-se de “ Um homem com uma câmera” de Dziga Vertov, 1929. Nesse filme fica clara a importância (e dependência) da montagem para a linguagem do cinema.  O material disposto em sequências, construindo-se uma narrativa através da combinação montada pela diversidade de planos, estruturando narrativas outras em editadas visões do homem urbano pela seleção alternante de imagens de si e recortes de imagens da urbens, gera em quem assiste um diferente encadeamento temporal, mais tenso porque menos próximo ao real. Todo esse material nos fez por fim pensar, afinal, qual a matéria do cinema?
A tensão entre diferentes materiais empregadas por Vertov, em oposições de: planos e imagens contrastadas x imagens simultâneas, alternância frenética x exercícios de observar, acontecimentos entre o olho e a cena urbana, entre o que vê e o que é visto, entre o presente e o passado... são todos planos opostos e contrários, porém complementares aos dispositivos necessários para a produção das máquinas óticas.
As saídas dão-se nas mudanças,  no que se veem, se fazem ver e no que se ocultam. Sim, são mudanças enfrentadas pelos dispositivos de visibilidade, que põem em exame constantemente, através dos exercícios de observação, as transformações operadas nas “máquinas do ver”. Ao terapeuta ocupacional cabe desenvolver seu OLHAR.





saudações.

Comentários

post primoroso, gostei do trecho cuidado diluído, eu diria cuidado endurecido... instigante escolha dos filmes...

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