Serpente-Sergente-Ser*Ente.


Pois já dizia o Pessoa que  "tudo vale a pena se a alma não é pequena"... ora pa, mas e se de repente por circunstâncias da vida a alma estiver diminuta? Tempos do hoje dessa avalanche que nos atravessa exigindo reações para coisas que tocam em terrenos do ser não racional, nem elaborado... convívios que despertam uma crescente vontade de ausência do mundo da vida? Algo que traz a tona em nós essa força mortificante encoberta via ódio? O que fazer? 
Só consigo pensar que frente a isso se mobilizar e sair do lugar é essencial. E isso a gente só consegue na precisão do se cuidar melhor,  meu povo. Nos tornarmos de fato e de ato, seres protetores de nós mesmos. Seres que no "ocupar de si", enquanto ocupam "o parque Augusta" ou outro lugar qualquer imaginado, são capazes de lidar nas relações consigo e com os outros de modo mais amoroso e com mais presença. Amoroso no sentido de quem convive com o diferente e consegue deixar que o diferente continue diferente. Talvez seja um outro nome que respeito leva. Pra isso aqui não virar, a cada dia mais, um covil maior de todos.

Essa semana numa reunião da equipe Brasa, Ogawa me fez relembrar uma fábula contada por Franco Basaglia em seu livro : A instituição da violência. Eu já havia lido numa das páginas da tese do doutorado do Fernando Kinker. Lembrei na hora o quanto aquela história era um soco na boca do estômago, desses que desassossegam a alma pois disparam lembranças e devaneios de acontecimentos vividos por cada um de nós, acontecimentos que ecoam e ressoam em quem já passou por processos regados a violência. Procurei a fábula na internet, encontrei e queria compartilhar. 

O homem e a serpente
“Um conto oriental relata a história de um homem que andava enfrentando-se com uma serpente. Num dia em que nosso homem dormia, a serpente, deslizando por sua boca entreaberta, foi colocar-se em seu estômago, e desde então dedicou-se a ditar dali sua vontade àquele desgraçado,que de modo se converteu em seu escravo.O homem se encontrava à mercê da serpente:não era dono de seus atos.Até que, um belo dia, o homem voltou a sentir-se livre:a serpente tinha partido.Mas de repente deu-se conta de que não sabia o que fazer com sua liberdade.
Durante todo o tempo que a serpente havia mantido sobre ele um domínio absoluto, o homem havia se acostumado a submeter por completo sua vontade, desejos e impulsos à vontade, desejos e impulsos da serpente, e por isso havia perdido a faculdade de desejar, querer e atuar com autonomia... Ao invés da liberdade, só encontrava o vazio... mas com a partida da serpente perdeu sua nova essência,adquirida durante seu cativeiro.
E só foi necessário que aprendesse a reconquistar, pouco a pouco, o conteúdo precedente e humano de sua vida.
A analogia entre esta fábula e a condição institucional do doente mental é surpreendente: parece ilustrar, em forma de parábola, a incorporação, por parte do doente mental, de um inimigo que destrói com a mesma arbitrariedade e a mesma violência que a serpente da fábula exerce para subjugar e destruir o homem. Porém nosso encontro com o doente mental nos demonstrou, afinal, que – nesta sociedade - todos somos escravos da serpente, e que, se não tentamos destruí-la ou vomitá-la, chegará o momento em que nunca mais poderemos recuperar o conteúdo humano de nossa vida.”
Trecho do livro “A instituição da violência” de Franco Basaglia.

Fico pensando que os tempos protofascistas atuais tem agido nessa mesma vertente, instaurando em nossas almas e corpos desejos e impulsos de ódio e destruição. Provocando não rasgos mas um fechamento retrógrado que aos poucos vão nos distanciando das pessoas, dos encontros e trocas. Sustentar um simples diálogo, tornou-se tarefa rara, quase que arqueológica. Mas a gente re(x)siste!
Saudações, leitores...
tamos aqui tb pra conversar.


Comentários

Unknown disse…
Texto muito bom, ótimo para refletirmos.
Liberdade, mesmo que tan tan. Viva a luta antimanicomial!!!!

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