As masculinidades na T.O composteira 7 ou "Cada revolução tem um período de transição"

("Cada revolução tem um período de transição." Marji Sapatri em PERSÉPOLIS.

Quanto mais bato nas teclas em busca de novas respostas e perguntas que sustentem a pergunta principal que me trouxe de volta à escrita, mais vou me dando conta que Não existe um ideal de masculino, mesmo esse sendo uma grande construção social, mesmo esse sendo uma ilusão universal, padronizada, cis-hetero-branco-ocidental. Construída por narrativas, que ao longo dos tempos foram depositando nesses ideais de poderes um tanto de privilégios.
A escrita desse "final de semana", apesar de curta (é que vou visitar meu pai pra comemorar seus 82 anos), carrega no corpo da mensagem um paradoxo. Vinda de um lugar tão distante, me fez pensar seriamente como os padrões são conformados pelas culturas. Culturas essas que incidem nos CORPOS, dando a esses um grande celeiro central de experiências, aberturas e privações. Corpos sexuados no mundo. Corpos colonizados, significados e ressignificados, corpos ocupados e ocupacionais, corpos apagados onde nem todas masculinidades estão girando nas esferas do poder, corpos invisibilizados nas precarizações de relação de trabalho, corpos aprisionados por uma lógica punitivista, corpos nos presídios brasileiros em sua maioria filhos das mulheres pretas das periferias, corpos de mais de 420 mil...
Tudo foi se somando e somando cada vez mais essa semana. A chegada de um novo morador no serviço que coordeno me fez pensar muito nas privações vividas na clausura, e também nas fantasias alimentadas pelo estigma do desconhecido, os filhos do Paulo Gustavo agora com um só pai, amigos empregados em trabalhos adoecedores que intoxicam o emocional e não podem falar abertamente sobre suas vulnerabilidades, as mensagens por direct de outros homens recém chegados na profissão... olhar para o real e dele imaginar outras coisas... imaginar como forma de resistir e revolucionar. Essa é minha saída na vida.

Bom, a penúltima mensagem dos T.Os do estrangeiro chega do Irã. Quando vi a localidade me lembrei dos filmes iranianos fantásticos que já assisti:

  • A maçã
  • Filhos do Paraíso
  • O Balão Branco
  • O Jarro (que o link você encontra aqui abaixo da foto)


https://www.youtube.com/watch?v=LC-S0fTMY-M&list=PLoJbOGUpb2S4AmTfyFbimKw4eB47gvkX8&index=2

Mas lembrei também da HQ Persépolis, cuja autora dedica a história ao povo iraniano. Enfim, vamos lá: 

5.


 First of all i´m sorry about my low level english. 

Yes. Like ur country, in Iran we have few men in OT. 

But it i think there is no difference between men and women in being  an OT.

And what is more important than gender is intereste in work and profissionalism.

Men and women based on capacities and interest can choose a suittable scope like psychosocial, pediatric, handytherapy or...

In Iran men prefer work with pediatric, and adult with neurologic desease

But women prefer work with mental desease.

And this is not true about all OTs.

Ur welcome. I´m glad to meet u. Good Luck dear collegues.

(Em primeiro lugar, sinto muito pelo meu baixo nível de inglês. sim. Como no nosso país, no Irã temos poucos homens na T.O. Mas acho que não há diferença entre homens e mulheres em ser um T.O. E o que é mais importante do que gênero é o interesse no trabalho e profissionalismo. Homens e mulheres com base em suas capacidades e interesses podem escolher um escopo adequado, como psicossocial, pediátrico, terapia à mão ou ...

No Irã, os homens preferem trabalhar com pacientes pediátricos e adultos com doenças neurológicas. Mas as mulheres preferem trabalhar com doenças mentais. E isso não é verdade para todos os TOs. Seja bem vindo. Estou feliz em conhecê-lo. Boa sorte, queridos colegas.)

Em resposta escrevo esse breve recado:

Caro colega, sua mensagem me fez pensar que apesar de nossa vontade de que não haja diferenças, elas existem sim. Compreendo que a luta é justamente essa, para que as diferenças possam, ao invés de serem inferiorizadas, serem valorizadas. O mundo atual que ainda habitamos coloca tudo que é feminino numa relação  de inferioridade. Não só as mulheres, mas todas as pessoas que tem gestualidades ou falas mais femininas habitam essa espécie de campo onde irão sofrer um tanto mais durante seu processo de vida. Seja por conta das violências, seja por conta das políticas "pessoais", seja por conta da ética e dos valores de cada cultura, seja por conta da não abertura de espaços de linguagem e narratividades. Que possamos fazer  e somar nessa profissão forças para juntos construirmos no cotidiano um movimento de reposicionamento libertário à tod@s. 



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