NADA


De uma borda a outra, quatro cordas dividem o território irmanamente. É noite. O retângulo azul dá a ele o contorno que tanto necessita em seus ciclos de desprendimento e passagem. Não fosse a luz artificial, a iluminar todo o entorno da figura geométrica, seus sentidos teriam trabalho redobrado no reparo dos limites de um extremo a outro. Numa das margens uma estrutura de alumínio serve de escada para o acesso aos que dentro do espaço demarcado se põem no constante movimento de imersão e seu antônimo. Braços e pernas, em regimentos contra-laterais, dão a ele uma coragem disciplinada, com certa dose necessária de reconhecível persistência, para formação de um corpo-resistência que atravessa, e atravesse, estados e intensidades, nos constantes ires e vires. A faixa preta, inscrita no fundo, é sua linha de fuga predileta. Ao mesmo tempo que tarja a direção de rumo possível, abre nele uma relação apaixonante de fronteira. Com ela, ele desenha percursos, esboça recursos, inscreve pensamentos, deposita lamentos, organiza esquemas, planeja viagens, ruma sonhos, mapeia trajetos, acha-se e perde-se, performa resistências, briga problemas, alinhava devires. Ela é hoje, elemento que sustenta seu maior caso de ambiguidade da ficção com a realidade. Um uso indevido, na delimitação do estar sujeito em seus restos e coisas. Não uma cisão (realidade-imaginário, eu-outro) mas sim uma total identificação. A linha preta é o portal do meio fluido, não é alegoria. Está. Não é ela que vem buscá-lo, mas ele que vai todas as noites encontrá-la. Mais do que a união de um ponto a outro do retângulo azulejado, mito-subjetividade-noturno mergulha devires. Um vazio, é um caso de amor e obsessão. Quase um vício. É tudo o que deveria permanecer secreto, escondido e se manifesta ali, no fundo da piscina, entre a braçada, o corpo, a linha, a água, a borda, o canto e o nada

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