Noções de Contorno e Limite na Perspectiva Winnicottiana



Noções de Contorno e Limite na Perspectiva Winnicottiana

 André Miolo Nunes

Terapeuta Ocupacional,

Acompanhante Terapêutico,

 Psicanalista

Resumo

O texto aborda as noções de contorno e limite na teoria de Donald Winnicott, destacando sua relevância para o desenvolvimento emocional e a estruturação psíquica do indivíduo. O contorno refere-se à sensação de integridade e coesão do self, construído a partir do holding (sustentação) proporcionado pela mãe, que oferece um ambiente suficientemente bom para o bebê desenvolver segurança e continuidade. Já o limite está relacionado à capacidade de diferenciar o eu do não-eu, emergindo da experiência de frustração suportável, que permite ao bebê perceber que o mundo externo nem sempre corresponde às suas expectativas. O texto explora como esses conceitos se desenvolvem ao longo do processo maturacional, desde a fase de dependência absoluta até a dependência relativa (percepção da mãe como pessoa separada). A transicionalidade é apresentada como uma ponte entre o mundo interno e externo, auxiliando na construção de limites flexíveis e dinâmicos. Por fim, é enfatizada a importância de diferenciar contorno e limite na prática clínica, especialmente em casos de psicose, onde falhas no desenvolvimento primário podem levar à fragmentação do self. A reflexão proposta convida o leitor a pensar sobre como essas noções podem ser aplicadas para promover um cuidado mais sensível e eficaz, ajudando os pacientes a se perceberem como indivíduos únicos e coesos, capazes de se relacionar de forma saudável com o mundo externo.

Palavras-chave: Contorno; Limite; Winnicott; Holding; Transicionalidade.


Abstract

The text addresses the notions of contour and limit in Donald Winnicott's theory, highlighting their relevance to emotional development and the psychic structuring of the individual. The contour refers to the sense of integrity and cohesion of the self, built through holding (sustaining) provided by the mother, who offers a good enough environment for the baby to develop security and continuity. On the other hand, the limit is related to the ability to differentiate the self from the non-self, emerging from the experience of tolerable frustration, which allows the baby to perceive that the external world does not always meet their expectations. The text explores how these concepts develop throughout the maturational process, from the phase of absolute dependence (undifferentiation) to relative dependence (perception of the mother as a separate person). Transitionality, symbolized by the transitional object, is presented as a bridge between the internal and external world, aiding in the construction of flexible and dynamic limits. Finally, the author emphasizes the importance of distinguishing contour and limit in clinical practice, especially in cases of psychosis, where failures in early development can lead to fragmentation of the self. The proposed reflection invites the reader to consider how these notions can be applied to promote more sensitive and effective care, helping patients perceive themselves as unique and cohesive individuals, capable of relating healthily to the external world.

Keywords: Contour; Limit; Winnicott; Holding; Transitionality. 


___________________________________________________________________________________A questão que trago hoje vem diretamente da experiência clínica, e é daquelas que te fazem parar, pensar e mergulhar em um buraco de coelho teórico. Imagine uma situação onde a peculiaridade necessária para diferenciar um tema de outro era tão gritante que parecia saltar aos olhos. O cuidado oferecido ali naquela situação operava numa zona mais do  que ambígua, e isso, claro, impactava diretamente a possibilidade do trabalho. Foi aí que senti aquela coceirinha na mente, aquela necessidade de pesquisar, de entender mais. Afinal, como dizia Winnicott (1948, p. 234): “Para fazer pesquisa é preciso ter ideias: há um ponto de partida subjetivo em todo processo de pesquisa.” E cá estou eu, com minhas ideias e inquietações.

Havia uma certa indignação no ar. Não apenas nas palavras, mas principalmente na forma como o cuidado era oferecido. Era como se a confusão, em vez de facilitar o ambiente, promovesse um distanciamento crescente nas relações. Lembro de uma fala que ecoou: “Tudo que ele faz as pessoas acham bonito, e a vida não é assim. Ele precisa de limites.” Saí dali pensando: será que o problema era realmente sobre limites? Ou será que o que faltava ali era algo mais básico, mais primordial? Algo como... contorno. Daí veio a pergunta que não queria calar: será que ela sabia a diferença entre contorno e limite, especialmente para alguém que enfrenta a psicose?

Bom, sentei, respirei fundo e comecei a arregimentar ideias, esboçar argumentos. E pensei: por que não compartilhar isso? Talvez essas reflexões possam ser úteis para mais alguém. Afinal, a psicanálise winnicottiana, com sua visão profunda e singular sobre o desenvolvimento emocional, tem muito a nos ensinar. Winnicott nos convida a olhar com carinho para as relações primárias entre a mãe (ou cuidador) e o bebê, e isso é fundamental para pensarmos em estratégias de cuidado, especialmente em casos onde há falhas no desenvolvimento mais primário.

E é aí que entram as noções de contorno e limite. Esses dois conceitos são como pilares para entender como o indivíduo se estrutura psiquicamente e como se relaciona com o mundo externo. Mas, calma, não são a mesma coisa! E é justamente essa diferença que pode fazer toda a diferença na clínica. Vamos explorar juntos esses conceitos, suas origens, semelhanças, diferenças e como eles se relacionam com outras ideias winnicottianas, como manejo e holding. Além disso, vamos situá-los no processo maturacional, porque, afinal, nada surge do nada.

Então, se você está curioso para entender por que contorno não é limite, por que segurar um bebê vai muito além do físico e como tudo isso se conecta ao desenvolvimento emocional, vem comigo. Prometo que, no final, você vai sair com mais perguntas do que respostas – e isso, no mundo da psicanálise, é sempre um bom sinal. Vamos lá?


Contorno

O contorno, de modo geral, refere-se à ideia de uma delimitação que permite a organização e a estruturação do self. Ele está relacionado à capacidade do indivíduo de se perceber como um ser separado do outro, mas ainda em conexão com o ambiente. Essa noção de contorno é fundamental para a construção de uma identidade coesa e para a sensação de integridade psíquica.

No plano físico, a membrana da pele pode ser vista como um dos principais contornos existentes em nossa configuração como seres viventes. A pele funciona como uma fronteira que separa o interno do externo, o eu do não-eu, mas também como um ponto de contato e interação com o mundo. Winnicott, no entanto, vai além da dimensão física e explora o contorno como uma estrutura psíquica que se desenvolve a partir das primeiras experiências relacionais.

No início da vida, o bebê não tem clareza sobre onde ele termina e onde o mundo externo começa. Ele vive em um estado de indiferenciação, no qual a mãe (ou cuidador principal) é percebida como uma extensão de si mesmo. Essa fase é marcada pela onipotência primária, em que o bebê experimenta a ilusão de que o mundo existe para satisfazer suas necessidades. A mãe, ao fornecer um ambiente suficientemente bom, desempenha um papel crucial nesse processo. Ela atua como um "espaço potencial" que contém e sustenta o bebê, ajudando-o a desenvolver gradualmente a noção de contorno.

O ambiente suficientemente bom é aquele que se adapta às necessidades do bebê de maneira sensível e responsiva, mas não perfeita. A mãe, ao segurar, embalar, acariciar e cuidar do bebê, oferece experiências que ajudam a construir essa sensação de contorno. Por exemplo, quando a mãe segura o bebê de forma firme e amorosa, ela transmite a sensação de que ele é "um todo", uma unidade coesa e integrada. Esse ato de segurar (holding) não é apenas físico, mas também emocional, pois envolve a capacidade da mãe de conter as angústias e ansiedades do bebê, proporcionando-lhe um sentimento de segurança e continuidade.

O contorno está, portanto, associado à ideia de integridade do self, ou seja, a sensação de ser um indivíduo único, coeso e autêntico. Essa integridade é construída a partir das experiências de continuidade do ser, que são proporcionadas pelo ambiente suficientemente bom. Quando o bebê sente que suas necessidades são atendidas de forma consistente e previsível, ele começa a desenvolver uma sensação de confiança básica no mundo e em si mesmo.

No entanto, o contorno não é algo rígido ou estático. Ele é dinâmico e flexível, podendo se expandir ou contrair de acordo com as experiências do indivíduo. Por exemplo, em situações de estresse ou trauma, o contorno pode se fragilizar, levando a uma sensação de desintegração ou fragmentação do self. Por outro lado, em ambientes de apoio e contenção, o contorno pode se fortalecer, permitindo que o indivíduo se sinta mais seguro e integrado.

O ato de segurar e embalar são exemplos concretos de como o contorno é apresentado e construído na relação mãe-bebê. Essas ações não apenas fornecem conforto físico, mas também transmitem uma sensação de limite e contenção que ajuda o bebê a se organizar psiquicamente. Quando a mãe embala o bebê, ela cria um ritmo e uma cadência que ajudam a regular suas emoções e sensações corporais. Esse movimento rítmico e repetitivo contribui para a construção de uma membrana psíquica que delimita o self e o protege de estímulos externos excessivos.

Em resumo, o contorno na perspectiva winnicottiana é uma estrutura psíquica essencial para o desenvolvimento do self. Ele é construído a partir das primeiras experiências relacionais, especialmente por meio do holding e da adaptação sensível da mãe às necessidades do bebê. O contorno permite que o indivíduo se perceba como um ser único e coeso, ao mesmo tempo em que mantém uma conexão saudável com o ambiente. Sem essa noção de contorno, o self corre o risco de se fragmentar, levando a dificuldades emocionais e relacionais ao longo da vida.


Limite

O limite, por sua vez, refere-se à capacidade de diferenciar o eu do não-eu, o interno do externo. Ele é como uma fronteira invisível, mas essencial, que nos ajuda a entender onde terminamos e onde o mundo começa. Enquanto o contorno está mais ligado à sensação de integridade e coesão interna, o limite é um passo além: ele nos permite navegar no mundo externo sem nos perdermos nele. E aqui está o pulo do gato: o limite não surge do nada. Ele é fruto de um processo de amadurecimento emocional que começa lá atrás, na relação entre o bebê e seu ambiente.

Esse processo está intimamente ligado à fase da dependência relativa, aquela em que o bebê já deu alguns passos importantes em direção à independência, mas ainda precisa de um suporte firme e confiável. É nessa fase que a transicionalidade começa a ganhar forma. Você já deve ter ouvido falar do objeto transicional, aquele cobertor ou bichinho de pelúcia que o bebê carrega para todo lado, não é? Pois é, esse objeto é um símbolo poderoso dessa fase. Ele representa a ponte entre o mundo interno (a fantasia, a onipotência) e o mundo externo (a realidade, os limites). É como se o bebê dissesse: “Ok, eu sei que o mundo não gira ao meu redor, mas ainda preciso de algo que me lembre de que estou seguro.”

Nesse momento, o bebê começa a perceber que a mãe (ou cuidador) não é uma extensão dele mesmo. Ela é uma pessoa separada, com vontades e necessidades próprias. E é aí que entra a frustração. Sim, aquela palavrinha que ninguém gosta, mas que é absolutamente necessária. Winnicott nos lembra que os limites não são muros rígidos e intransponíveis; eles são mais como cercas flexíveis, que se movem conforme a necessidade. E é justamente a experiência da frustração – aquela sensação de “não foi bem assim que eu queria” – que ajuda o bebê a construir esses limites. Quando a mãe falha de forma suportável (ou seja, sem traumatizar o bebê), ela está, na verdade, ajudando-o a entender que o mundo externo nem sempre vai corresponder às suas expectativas. E isso é um aprendizado e tanto!

A noção de limite, portanto, está intimamente ligada à capacidade de tolerar a frustração e de lidar com a realidade externa. É como se o bebê dissesse: “Tudo bem, eu não consegui o que queria agora, mas ainda estou seguro.” Essa capacidade de lidar com a frustração é fundamental para a formação da subjetividade, ou seja, para a construção de um self autêntico e criativo. Sem limites, ficamos à deriva, sem saber onde terminamos e onde o outro começa. E isso pode levar a uma confusão entre o interno e o externo, entre o que é meu e o que é do outro.

Mas aqui está o detalhe mais interessante: os limites, para Winnicott, não são algo que se impõe de fora para dentro. Eles são construídos a partir das experiências de satisfação e frustração que o bebê vive no dia a dia. Quando a mãe acerta – ou seja, quando ela atende às necessidades do bebê de forma sensível e responsiva –, ela está ajudando a construir uma base segura. Mas quando ela falha – de forma suportável – ela está ajudando o bebê a entender que o mundo externo tem suas próprias regras. E é nesse vai e vem entre satisfação e frustração que os limites vão se delineando.

Em resumo, o limite é como uma bússola emocional. Ele nos ajuda a navegar no mundo externo sem perdermos de vista quem somos. E, ao contrário do que muitos pensam, ele não é algo rígido ou opressivo. Pelo contrário, ele é dinâmico, flexível e, acima de tudo, necessário. Sem limites, ficamos perdidos, sem saber onde terminamos e onde o outro começa. E é por isso que, na clínica, entender a diferença entre contorno e limite pode fazer toda a diferença. Afinal, como dizia Winnicott, “é no espaço entre o eu e o outro que a vida acontece.” E é nesse espaço que os limites – quando bem construídos – nos ajudam a viver de forma mais plena e autêntica.

___________________________________________________________________________________

Referências Bibliográficas:

DIAS, E.O (2017) A Teoria do Amadurecimento. 4ª. ed., São Paulo: DWW Editorial.

D.W WINNICOTT, D.W (1948)  Pediatria e Psiquiatria. In. D.W. Winnicott Textos selecionados: Da pediatria à psicanálise (pp 300-326) 1ª. Ed. São Paulo: Ubu Editora (2021)

______________________ (1960) Segurança, In: A familia e o desenvolvimento Individual, 1ª. Ed. São Paulo: Ubu Editora (2023)


Comentários