Noções de Contorno e Limite na Perspectiva Winnicottiana
Terapeuta Ocupacional,
Acompanhante Terapêutico,
Psicanalista
Resumo
O texto aborda as noções de contorno e limite na
teoria de Donald Winnicott, destacando sua relevância para o desenvolvimento
emocional e a estruturação psíquica do indivíduo. O contorno refere-se
à sensação de integridade e coesão do self, construído a partir do holding (sustentação)
proporcionado pela mãe, que oferece um ambiente suficientemente bom para o bebê
desenvolver segurança e continuidade. Já o limite está relacionado à
capacidade de diferenciar o eu do não-eu, emergindo da experiência de frustração
suportável, que permite ao bebê perceber que o mundo externo nem sempre
corresponde às suas expectativas. O texto explora como esses conceitos se
desenvolvem ao longo do processo maturacional, desde a fase de dependência
absoluta até a dependência relativa (percepção
da mãe como pessoa separada). A transicionalidade é apresentada como uma ponte entre o mundo interno e externo,
auxiliando na construção de limites flexíveis e dinâmicos. Por fim, é enfatizada a importância de diferenciar contorno e limite na prática clínica,
especialmente em casos de psicose, onde falhas no desenvolvimento primário
podem levar à fragmentação do self. A reflexão proposta convida o leitor a
pensar sobre como essas noções podem ser aplicadas para promover um cuidado
mais sensível e eficaz, ajudando os pacientes a se perceberem como indivíduos
únicos e coesos, capazes de se relacionar de forma saudável com o mundo
externo.
Palavras-chave: Contorno; Limite; Winnicott; Holding;
Transicionalidade.
Abstract
The text addresses the notions of contour and limit in
Donald Winnicott's theory, highlighting their relevance to emotional
development and the psychic structuring of the individual. The contour refers
to the sense of integrity and cohesion of the self, built through holding (sustaining)
provided by the mother, who offers a good enough environment for the baby to
develop security and continuity. On the other hand, the limit is
related to the ability to differentiate the self from the non-self, emerging
from the experience of tolerable frustration, which allows the baby to
perceive that the external world does not always meet their expectations. The
text explores how these concepts develop throughout the maturational process,
from the phase of absolute dependence (undifferentiation) to relative
dependence (perception of the mother as a separate person). Transitionality,
symbolized by the transitional object, is presented as a bridge between the
internal and external world, aiding in the construction of flexible and dynamic
limits. Finally, the author emphasizes the importance of distinguishing contour
and limit in clinical practice, especially in cases of psychosis, where
failures in early development can lead to fragmentation of the self. The
proposed reflection invites the reader to consider how these notions can be
applied to promote more sensitive and effective care, helping patients perceive
themselves as unique and cohesive individuals, capable of relating healthily to
the external world.
Keywords: Contour; Limit; Winnicott; Holding; Transitionality.
___________________________________________________________________________________A questão que trago hoje vem diretamente da experiência
clínica, e é daquelas que te fazem parar, pensar e mergulhar em um buraco de
coelho teórico. Imagine uma situação onde a peculiaridade necessária para
diferenciar um tema de outro era tão gritante que parecia saltar aos olhos. O
cuidado oferecido ali naquela situação operava numa zona mais do que ambígua, e isso, claro, impactava
diretamente a possibilidade do trabalho. Foi aí que senti aquela coceirinha na
mente, aquela necessidade de pesquisar, de entender mais. Afinal, como dizia
Winnicott (1948, p. 234): “Para fazer pesquisa é preciso ter ideias: há
um ponto de partida subjetivo em todo processo de pesquisa.” E cá
estou eu, com minhas ideias e inquietações.
Havia uma certa indignação no ar. Não apenas nas palavras,
mas principalmente na forma como o cuidado era oferecido. Era como se a
confusão, em vez de facilitar o ambiente, promovesse um distanciamento
crescente nas relações. Lembro de uma fala que ecoou: “Tudo que ele faz
as pessoas acham bonito, e a vida não é assim. Ele precisa de limites.” Saí
dali pensando: será que o problema era realmente sobre limites? Ou será que o
que faltava ali era algo mais básico, mais primordial? Algo como... contorno.
Daí veio a pergunta que não queria calar: será que ela sabia a diferença entre
contorno e limite, especialmente para alguém que enfrenta a psicose?
Bom, sentei, respirei fundo e comecei a arregimentar ideias,
esboçar argumentos. E pensei: por que não compartilhar isso? Talvez essas
reflexões possam ser úteis para mais alguém. Afinal, a psicanálise
winnicottiana, com sua visão profunda e singular sobre o desenvolvimento
emocional, tem muito a nos ensinar. Winnicott nos convida a olhar com carinho
para as relações primárias entre a mãe (ou cuidador) e o bebê, e isso é
fundamental para pensarmos em estratégias de cuidado, especialmente em casos
onde há falhas no desenvolvimento mais primário.
E é aí que entram as noções de contorno e limite. Esses dois conceitos são como pilares para entender como o indivíduo se estrutura psiquicamente e como se relaciona com o mundo externo. Mas, calma, não são a mesma coisa! E é justamente essa diferença que pode fazer toda a diferença na clínica. Vamos explorar juntos esses conceitos, suas origens, semelhanças, diferenças e como eles se relacionam com outras ideias winnicottianas, como manejo e holding. Além disso, vamos situá-los no processo maturacional, porque, afinal, nada surge do nada.
Então, se você está curioso para entender por que contorno
não é limite, por que segurar um bebê vai muito além do físico e como tudo isso
se conecta ao desenvolvimento emocional, vem comigo. Prometo que, no final,
você vai sair com mais perguntas do que respostas – e isso, no mundo da
psicanálise, é sempre um bom sinal. Vamos lá?
Contorno
O contorno, de modo geral, refere-se à ideia de uma
delimitação que permite a organização e a estruturação do self. Ele está
relacionado à capacidade do indivíduo de se perceber como um ser separado do
outro, mas ainda em conexão com o ambiente. Essa noção de contorno é
fundamental para a construção de uma identidade coesa e para a sensação de
integridade psíquica.
No plano físico, a membrana da pele pode ser vista
como um dos principais contornos existentes em nossa configuração como seres
viventes. A pele funciona como uma fronteira que separa o interno do externo, o
eu do não-eu, mas também como um ponto de contato e interação com o mundo. Winnicott,
no entanto, vai além da dimensão física e explora o contorno como uma estrutura
psíquica que se desenvolve a partir das primeiras experiências
relacionais.
No início da vida, o bebê não tem clareza sobre onde ele
termina e onde o mundo externo começa. Ele vive em um estado de indiferenciação,
no qual a mãe (ou cuidador principal) é percebida como uma extensão de si
mesmo. Essa fase é marcada pela onipotência primária, em que o bebê
experimenta a ilusão de que o mundo existe para satisfazer suas necessidades. A
mãe, ao fornecer um ambiente suficientemente bom, desempenha um papel
crucial nesse processo. Ela atua como um "espaço potencial" que
contém e sustenta o bebê, ajudando-o a desenvolver gradualmente a noção de
contorno.
O ambiente suficientemente bom é aquele que se
adapta às necessidades do bebê de maneira sensível e responsiva, mas não
perfeita. A mãe, ao segurar, embalar, acariciar e cuidar do bebê, oferece
experiências que ajudam a construir essa sensação de contorno. Por exemplo,
quando a mãe segura o bebê de forma firme e amorosa, ela transmite a sensação
de que ele é "um todo", uma unidade coesa e integrada. Esse ato
de segurar (holding) não é apenas físico, mas também emocional, pois envolve a
capacidade da mãe de conter as angústias e ansiedades do bebê,
proporcionando-lhe um sentimento de segurança e continuidade.
O contorno está, portanto, associado à ideia de integridade
do self, ou seja, a sensação de ser um indivíduo único, coeso e autêntico. Essa
integridade é construída a partir das experiências de continuidade do ser,
que são proporcionadas pelo ambiente suficientemente bom. Quando o bebê sente
que suas necessidades são atendidas de forma consistente e previsível, ele
começa a desenvolver uma sensação de confiança básica no mundo e em
si mesmo.
No entanto, o contorno não é algo rígido ou estático. Ele é
dinâmico e flexível, podendo se expandir ou contrair de acordo com as
experiências do indivíduo. Por exemplo, em situações de estresse ou trauma, o
contorno pode se fragilizar, levando a uma sensação de desintegração ou
fragmentação do self. Por outro lado, em ambientes de apoio e contenção, o
contorno pode se fortalecer, permitindo que o indivíduo se sinta mais seguro e
integrado.
O ato de segurar e embalar são exemplos concretos
de como o contorno é apresentado e construído na relação mãe-bebê. Essas ações
não apenas fornecem conforto físico, mas também transmitem uma sensação
de limite e contenção que ajuda o bebê a se organizar psiquicamente.
Quando a mãe embala o bebê, ela cria um ritmo e uma cadência que ajudam a
regular suas emoções e sensações corporais. Esse movimento rítmico e repetitivo
contribui para a construção de uma membrana psíquica que delimita o
self e o protege de estímulos externos excessivos.
Em resumo, o contorno na perspectiva winnicottiana é uma
estrutura psíquica essencial para o desenvolvimento do self. Ele é construído a
partir das primeiras experiências relacionais, especialmente por meio do holding e
da adaptação sensível da mãe às necessidades do bebê. O contorno permite que o
indivíduo se perceba como um ser único e coeso, ao mesmo tempo em que mantém
uma conexão saudável com o ambiente. Sem essa noção de contorno, o self corre o
risco de se fragmentar, levando a dificuldades emocionais e relacionais ao
longo da vida.
Limite
O limite, por sua vez, refere-se à capacidade de
diferenciar o eu do não-eu, o interno do externo.
Ele é como uma fronteira invisível, mas essencial, que nos ajuda a entender
onde terminamos e onde o mundo começa. Enquanto o contorno está mais
ligado à sensação de integridade e coesão interna, o limite é um passo além:
ele nos permite navegar no mundo externo sem nos perdermos nele. E aqui está o
pulo do gato: o limite não surge do nada. Ele é fruto de um processo de
amadurecimento emocional que começa lá atrás, na relação entre o bebê e seu
ambiente.
Esse processo está intimamente ligado à fase da dependência
relativa, aquela em que o bebê já deu alguns passos importantes em direção à
independência, mas ainda precisa de um suporte firme e confiável. É nessa fase
que a transicionalidade começa a ganhar forma. Você já deve ter
ouvido falar do objeto transicional, aquele cobertor ou bichinho de
pelúcia que o bebê carrega para todo lado, não é? Pois é, esse objeto é um
símbolo poderoso dessa fase. Ele representa a ponte entre o mundo interno (a
fantasia, a onipotência) e o mundo externo (a realidade, os limites). É como se
o bebê dissesse: “Ok, eu sei que o mundo não gira ao meu redor, mas
ainda preciso de algo que me lembre de que estou seguro.”
Nesse momento, o bebê começa a perceber que a mãe (ou
cuidador) não é uma extensão dele mesmo. Ela é uma pessoa separada, com
vontades e necessidades próprias. E é aí que entra a frustração. Sim,
aquela palavrinha que ninguém gosta, mas que é absolutamente necessária.
Winnicott nos lembra que os limites não são muros rígidos e intransponíveis;
eles são mais como cercas flexíveis, que se movem conforme a necessidade. E é
justamente a experiência da frustração – aquela sensação de “não foi
bem assim que eu queria” – que ajuda o bebê a construir esses limites.
Quando a mãe falha de forma suportável (ou seja, sem traumatizar o bebê), ela
está, na verdade, ajudando-o a entender que o mundo externo nem sempre vai
corresponder às suas expectativas. E isso é um aprendizado e tanto!
A noção de limite, portanto, está intimamente ligada à
capacidade de tolerar a frustração e de lidar com a realidade
externa. É como se o bebê dissesse: “Tudo bem, eu não consegui o que
queria agora, mas ainda estou seguro.” Essa capacidade de lidar com a
frustração é fundamental para a formação da subjetividade, ou seja, para a
construção de um self autêntico e criativo. Sem limites, ficamos à deriva, sem
saber onde terminamos e onde o outro começa. E isso pode levar a uma confusão
entre o interno e o externo, entre o que é meu e o que é do outro.
Mas aqui está o detalhe mais interessante: os limites, para
Winnicott, não são algo que se impõe de fora para dentro. Eles são construídos
a partir das experiências de satisfação e frustração que o
bebê vive no dia a dia. Quando a mãe acerta – ou seja, quando ela atende às
necessidades do bebê de forma sensível e responsiva –, ela está ajudando a
construir uma base segura. Mas quando ela falha – de forma suportável – ela está ajudando o bebê a entender que o mundo externo tem suas próprias
regras. E é nesse vai e vem entre satisfação e frustração que os limites vão se
delineando.
Em resumo, o limite é como uma bússola emocional. Ele nos
ajuda a navegar no mundo externo sem perdermos de vista quem somos. E, ao
contrário do que muitos pensam, ele não é algo rígido ou opressivo. Pelo
contrário, ele é dinâmico, flexível e, acima de tudo, necessário. Sem limites,
ficamos perdidos, sem saber onde terminamos e onde o outro começa. E é por isso
que, na clínica, entender a diferença entre contorno e limite pode
fazer toda a diferença. Afinal, como dizia Winnicott, “é no espaço
entre o eu e o outro que a vida acontece.” E é nesse espaço que os
limites – quando bem construídos – nos ajudam a viver de forma mais plena e
autêntica.
___________________________________________________________________________________
Referências Bibliográficas:
DIAS,
E.O (2017) A Teoria do Amadurecimento. 4ª.
ed., São Paulo: DWW Editorial.
D.W WINNICOTT, D.W (1948) Pediatria e Psiquiatria. In. D.W. Winnicott Textos selecionados: Da pediatria à psicanálise (pp 300-326) 1ª. Ed. São Paulo: Ubu Editora (2021)
______________________ (1960) Segurança, In: A familia e o desenvolvimento Individual, 1ª. Ed. São Paulo: Ubu Editora (2023)
.png)
Comentários