Winnicott, que trem é esse? Considerações a cerca das passagens do trem, de brinquedo à setting terapêutico, na obra "The Piggle" de D.W. Winnicott.
Winnicott, que trem é esse?
Considerações a cerca das passagens do trem, de brinquedo à setting terapêutico, na obra "The Piggle" de D.W. Winnicott.
Terapeuta Ocupacional,
Acompanhante Terapêutico,
Psicanalista
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Resumo
Este trabalho tem como objetivo mapear as passagens da obra The Piggle – Relato do Tratamento Psicanalítico de uma Menina, de D.W. Winnicott, com foco no tema do trem, que inicialmente surge como um brinquedo no consultório e, ao longo do processo terapêutico, transforma-se em um setting terapêutico. A análise concentra-se nos trechos em que a palavra "trem" e termos correlatos (vagão, locomotiva, etc.) aparecem no contexto das consultas, cartas e ambientes compartilhados entre Winnicott e Gabrielle, bem como nas experiências vividas pela menina e seu pai durante as viagens de trem. O estudo busca compreender como o tema do trem, inicialmente associado ao brincar, evolui para um meio de transporte que consolida um setting terapêutico importante.
O trabalho também explora os conceitos winnicottianos de brincar, criatividade, manejo, setting e assistência residencial, destacando a importância dos ambientes facilitadores e dos manejos terapêuticos no processo de cura. Através de pesquisa bibliográfica e análise da obra de Winnicott, o estudo apresenta um panorama do texto, mostrando como a elaboração dos temas ganhou espaço potencial de comunicação entre os envolvidos no cuidado. Conclui-se que o trem, como setting intermediário, permitiu a Gabrielle vivenciar processos de integração e amadurecimento emocional, consolidando-se como um espaço de transição e criatividade.
Palavras-chave: Winnicott; Psicanálise Infantil; Setting Terapêutico; Brincar; Trem; Ambiente Facilitador.
Abstract
This work aims to map the passages of the book The Piggle – Account of the Psychoanalytic Treatment of a Little Girl, by D.W. Winnicott, focusing on the theme of the train, which initially appears as a toy in the consulting room and, throughout the therapeutic process, transforms into a therapeutic setting. The analysis focuses on the excerpts where the word "train" and related terms (wagon, locomotive, etc.) appear in the context of consultations, letters, and environments shared between Winnicott and Gabrielle, as well as in the experiences lived by the girl and her father during train trips. The study seeks to understand how the theme of the train, initially associated with play, evolves into a means of transportation that consolidates an important therapeutic setting.
The work also explores Winnicottian concepts of play, creativity, management, setting, and residential care, highlighting the importance of facilitating environments and therapeutic management in the healing process. Through bibliographic research and analysis of Winnicott's work, the study presents an overview of the text, showing how the elaboration of themes gained potential space for communication among those involved in care. It is concluded that the train, as an intermediate setting, allowed Gabrielle to experience processes of integration and emotional maturation, consolidating itself as a space of transition and creativity.
Keywords: Winnicott; Child Psychoanalysis; Therapeutic Setting; Play; Train; Facilitating Environment.
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Introdução
O presente trabalho traz como ideia
central mapear as passagens da obra The Piggle – Relato do Tratamento
Psicanalítico de uma menina, desenvolvida por D.W. Winnicott. O trem é
apresentado no início enquanto um brinquedo presente no consultório e com o
passar do processo torna-se um setting terapêutico. Foram levantados os trechos
onde a palavra trem, ou ainda outras análogas a essa (como por exemplo vagão,
locomotiva, etc.) aparecem no contexto
das consultas, cartas e ambientes (setting) compartilhados entre Winnicott e Gabrielle; como também quando
referenciadas nas experiências vividas pela menina e seu pai durante as viagens
realizadas. O trem foi usado por ambos como meio de transporte, visto que a
família residia em uma cidade distante alguns quilômetros de Londres, onde
Winnicott trabalhava. Por se tratar de um processo de acompanhamento do tipo
psicanálise sobre demanda, e
também compartilhada, as viagens foram realizadas espaçadamente durante
2 anos e 8 meses de tratamento.
Aqui, algo no processo geral do
cuidado, que também movimentou essa escrita, se reflete através da
questão: Como foi se operando a passagem
do tema envolvendo o brincar com os trens (brinquedos), até a chegada do veículo usado como meio de transporte,
que também abrigou e consolidou um setting terapêutico importante na
conjuntura?
Entre os objetivos gerais deste
trabalho tem-se a possibilidade de aproximar os conhecimentos que Winnicott
desenvolveu, principalmente os ligados às noções do brincar enquanto
constituinte da criatividade e compartilhamento de realidades, assim como aspectos
ligados às noções de manejo, setting e assistência residencial enquanto prática
psicanalítica compartilhada e modificada.
Com relação ao objetivo específico
deste trabalho, será apresentado um panorama do texto a fim de mostrar como a
elaboração dos temas foi ganhando espaço potencial de comunicação entre os
envolvidos nos cuidados. Na obra de Winnicott, a importância dada aos ambientes
facilitadores e manejos mais uma vez fica evidente. Contudo, nesse caso em
específico, é possível acompanhar como a entrada do tema relacionado
diretamente aos sintomas da criança se opera. Para tanto, foram realizadas
pesquisas bibliográficas e leituras de referência na extensa obra de Winnicott,
além de textos e obras que lançassem luz sobre o assunto na perspectiva
Winnicottiana.
Desenvolvimento
” Coisas que a gente se esquece de dizer
Frases que o vento vem às vezes me lembrar
Coisas que ficaram muito tempo por dizer
Na canção do vento não se cansam de voar
Você pega o trem azul, o Sol na cabeça
O Sol pega o trem azul, você na cabeça
O Sol na cabeça.”
Lô Borges, O trem azul (1972)
Piggle, apelido carinhosamente dado
pelos pais à filha Gabrielle, chega até Winnicott através de 2 feitos. Em
janeiro de 1964, sua mãe escreveu ao médico solicitando ajuda. Num primeiro
momento da carta relata fatos do caso que remetem a apontamentos clínicos
descritivos da doença que acomete sua filha. Num segundo momento da escrita, a
mãe discorre sobre componentes presentes nas fantasias da criança, sendo os
mais emblemáticos a serem enfrentados (e tão logo possíveis de serem
comunicados pessoalmente pela
própria paciente) os que envolviam a presença de 2 elementos nomeados de “mamãe
preta” e “bebe-car”.
O segundo momento como Gabrielle
chega até Winnicott, é através da primeira consulta realizada um mês após a
leitura da carta enviada pela mãe. Nesta, a criança vem acompanhada pelos pais
e apesar de uma inicial timidez ou dificuldade de comunicação, entra no consultório médico e passa a
interessar-se pelos brinquedos dispostos.
Numa visão geral da obra, desperta
atenção a presença constante de determinados brinquedos nas sessões realizadas.
Trens, vagões, locomotivas, eixos, rodas, estradas e trilhos são peças que
aparecem ao longo de todo tempo de acompanhamento, ou seja, nos dezesseis
encontros presenciais realizados entre Winnicott e Gabrielle.
Antes de iniciar os apontamentos relativos ao
trem, que conduzirão em parte essa escrita, é interessante mencionar algo que a
Sra. Clare Winnicott cita, ainda no prefácio do livro. Ela se refere a uma
opinião, entre parênteses, escrita por Winnicott durante a 13ª. consulta.
“... não é possível a uma criança
dessa idade extrair significado de um jogo, a menos que, antes de tudo, haja
brinquedo e diversão”. (WINNICOTT, 1977/1987, p.9) E continua referindo que é
através do divertimento, que a ansiedade é dominada e contida dentro da
experiência total.
Ou seja, a garota que se encontrava
com presença e aberta à relação, encara a atividade de brincar no ambiente do
consultório como um trabalho sério. Neste setting, em todas as sessões
realizadas, fazia uso dos brinquedos para efetuar suas comunicações ao
terapeuta a respeito de importantes adventos que remetiam à problemas
existenciais vividos por ela.
Como já mencionado, desde o início
do acompanhamento os pais de Gabrielle enviavam cartas à Winnicott; nessas
comunicavam dúvidas, mudanças e pedidos de ajuda demandados pela criança que com o
tempo e o crescente sentimento de confiança na figura do médico passa a enviar
no mesmo envelope desenhos e cartas ditadas à mãe, anunciando criações próprias
e transformações nas relações. Nesse sentido, é válido mencionar que o cuidado
realizado pelos pais nos entretempos das consultas presenciais dá sinais claros
de manejos presentes na clínica Winnicottiana. Trata-se do compartilhamento do
cuidado (psicanálise partagé- compartilhada),
realizado nos moldes de
assistência na residência familiar como um setting ampliado, levando-se em conta que a comunicação
estabelecida entre esses e o médico pressupõe também a confiabilidade de que
eles conseguirão sustentar esses enquadres.
O setting é composto por um conjunto
de características que englobam os planos e formas de cuidado advindos de uma
posição ética na perspectiva do cuidar, o terapeuta/cuidador oferece ao
paciente a provisão ambiental que esse necessita. Compõem, assim, perspectivas e posicionamentos
éticos (no sentido de ethos) na clínica winnicottiana. “Faço análise porque é
do que o paciente necessita. Se o paciente não necessita análise então faço
alguma outra coisa... se não, então somos analistas praticando outra coisa que
acreditamos ser apropriada para a ocasião. E porque não haveria de ser assim?”
(WINNICOTT 1962/2008 p. 152-155).
Mas, engatando os assuntos, o que tais comunicações
dialogam com a presença do trem? Ainda
na entrevista inicial realizada ao término da 1ª. consulta, 03.02.1964, onde a criança já
havia manuseado e interagido com os trenzinhos, a mãe anuncia que a filha sofre
de terríveis pesadelos a noite envolvendo o bebe-car ou o trem. Sendo esse um
aspecto importante que levou Piggle a procurar Winnicott, pois necessitava
conversar com alguém que soubesse cuidar desse assunto que a afligia. (WINNICOTT, 1977/1987, p.28)
Na consulta inicial, dos brinquedos
que a criança se interessa espontaneamente fazem parte trenzinhos e vagões. De
algum modo usa tais objetos no ambiente da primeira e demais sessões para
brincar, criar espaços e dinâmicas de comunicação de seus problemas, elaborar
aspectos dolorosos que compunham seu sofrimento. Nesse sentido, é plausível
compreender que Piggle, ao eleger tais peças e brinquedos, ia sutilmente comunicando a Winnicott sobre o
que gostaria de abordar. Sempre iniciava
as sessões questionando: “o que é isso?” enquanto segurava ou explorava um
trem. Era como se nessa repetição, ao início da sessão, assegurasse a abertura
do espaço relacional com o terapeuta de quem buscava apoio, suporte e cuidado,
para então passar a tratar dos temas que tanto a desnorteavam e faziam sofrer.
No total, o objeto e o contexto do
trem aparecem 143 vezes no
texto, dando a entender que se tratava de um componente do ambiente que
acolheu expectativas e projeções, acompanhou desencadeamentos de fatos e
permaneceu em transformação de uso durante as diferentes etapas; como também foi utilizado
nos processos de transição elaborados na relação entre o terapeuta e a criança,
na relação do médico com os pais, e por extensão na
relação da criança com sua família. Ao atentar-se, para um detalhe histórico
com relação aos caminhos percorridos pelas cartas numa Inglaterra de 1964, é
bem possível que essas também tenham sido transportadas pelos correios em
malotes nos trens que ligavam as cidades.
A entrada dos ambientes como
contextos de cuidado reforça a noção dada por Winnicott que leva em conta a
compreensão de que a criança é no ambiente. Não se trata apenas de uma questão
relacionada ao tratamento de um aparelho psíquico em si, mas sobretudo da
existência de uma pessoa encarnada em um campo relacional, um corpo em busca de
integração consigo e com o meio. Como pontua Loparic (1995), “O lactente não
está ‘no’ espaço potencial no sentido em que se diz que uma árvore está no
jardim, ele é esse espaço.” (LOPARIC, 1995, p. 57)
Nesse sentido, é plausível elencar os
principais espaços onde se deram a construção dos processos de cuidado. A
psicanálise compartilhada e sobre demanda, realizada junto a Gabrielle, contava
com 3 settings: casa, consultório e trem. Nestes, os procedimentos realizados
no transcurso do processo circunscreveram-se através de manejos e por vezes
interpretações, cada qual em seus respectivos ambientes.
Ao
integrar o cuidado em diferentes contextos, Winnicott também reforça sua
compreensão de que a relação indivíduo-ambiente pode
ser constitutiva de aspectos saudáveis do ser.
Mesmo que a princípio não tenha havido uma provisão ambiental boa e adaptável,
resultando no surgimento de distúrbios maturacionais,
ao apoiar-se nas teorias do amadurecimento emocional e do contato
indivíduo-ambiente como abordagens para situar um diagnóstico individual e até social, é possível abrir
áreas orientadoras do cuidado, com as devidas adaptações da técnica, dos
enquadramentos/settings, ou mesmo de perspectivas prognósticas dessas relações.
Quanto
ao aspecto patológico presente, onde Gabrielle deixou de seguir a linha de continuidade do ser,
metaforicamente onde o trem da vida descarrilou,
foi exigido dela uma certa paralisação dessa
continuidade, resultando num sofrimento existencial.
O processo de recuperação se deu como se esse “trem da vida” pudesse dar
marcha ré e regressasse a momentos iniciais
para que, a partir dessa regressão, conquistasse algo que deixou de viver e
voltasse a se movimentar dando a ela condições para prosseguir criando e se
expondo.
Essa possibilidade de retornar a linha da continuidade de
ser, o processo maturacional, entre outras questões, está atrelada a tarefa de
integração no tempo/espaço, a integração psique-soma, assim como a aspectos
derivados da ilusão de onipotência, ou melhor, da consolidação de um espaço potencial e da chegada a uma 3a
área de experiência. Sendo estes últimos ligados à tarefa da realização.
No caso, a criança não
conseguia juntar
passado-presente e futuro,
havendo aí uma distância incalculável. Para que essa junção fosse realizada
em sua integralidade era necessária certa
dependência da figura/função da mãe, que falhou ambientalmente numa determinada etapa onde o processo estava se
encaminhando para uma consolidação.
Nesse sentido, Piggle
não sofreu um processo de aniquilamento (ou seja,
não se tornou psicótica). Ela atingiu certa
construção egóica, ainda imatura, sendo que a
falha vivida nessa junção dos fenômenos na área da onipotência a lançaram para um viver
condicionado a certa desautorização em seu existir; certo distanciamento da mãe
e cujas dificuldades apareciam na comunicação
disso como ausência de um lugar de reconhecimento tanto na relação dela com a mãe e consequentemente na relação de
Gabrielle com sua irmã Susan.
Sonhar com o trem (ou
mesmo o bebe car) é uma experiência que se afirma próxima ao mundo subjetivo. Brincar com os brinquedos
presentes no setting do consultório é por outro lado se haver com
objetos externos e intermediários. Contudo, uma outra experiência vivível
foi pegar o trem (meio de transporte) de fato, junto
ao pai.
É válido pontuar que na 2a.
consulta, de 11.03.1964, Gabrielle já havia brincado com o pai transferindo ao
mesmo um papel no jogo. Após contar a Winnicott que havia vindo de trem, como
resposta à pergunta feita por ela mesma (“O que é isso?”) enquanto manuseava os
trenzinhos, a criança autoriza a entrada do pai no interior do setting do
consultório. O trem como meio de chegada ao setting do consultório, anunciado
pela própria criança, traz à tona aspectos interligados no processo relacional.
Ainda nesta consulta, após sentar-se
no colo do pai, transferiu a esse a função/papel materno, passando a descer de
cabeça por entre as pernas do mesmo vivenciando uma espécie de renascimento. A
brincadeira séria de nascer novamente, fazer-se bebê, estava sendo realizada,
aproximando confiavelmente a figura materna ao terreno da comunicação sobre o
bebe-car.
Durante as viagens seguintes, viveu e experimentou um
aspecto da integração do tempo/espaço ao perceber que havia uma distância a ser
percorrida entre sua casa e o consultório de Winnicott. Não eram vizinhos, por isso mesmo o deslocamento
entre os settings transformar-se-ia com a criação de um entre-settings. O trem
passa a ser tido como uma passagem entre ambientes de cuidado, ou ainda um
“objeto-ambiente”.
Embarcar, ser transportada e
embalada pela viagem em seus múltiplos contextos passou a ser um acontecimento
na vida da criança. No interior do trem,
em plena viagem de 26.05.1964 (4a. consulta), Piggle relacionou-se com o pai de
modo bastante significativo. Durante o trajeto chupa o polegar dele enquanto
este a segura em seu colo. (WINNICOTT, 1977/1987, p.59)
A experiência inscrita enquanto acontecimento,
não é apenas uma representação, podendo ser considerado um avanço não só na
relação somática, como também de abertura para novos sentidos de integração
entre as figuras da mãe-objeto e da mãe ambiente; consolidando as tarefas
maturacionais pendentes. A cena não é dita, acontece, é vivida. O pai maneja a
situação no interior do trem que serve como enquadre para que nesse ser e fazer
junto com a criança possam ser vividos como algo necessário durante o trajeto de
sua casa para o consultório de Winnicott.
Ou seja, no
interior do trem, acompanhada de seu pai, passa a vivenciar de maneira
diferente o enfrentamento das distâncias. Essa
questão da distância no interior do trem é de
suma importância para Gabrielle, pois conversa com aspectos ligados à
mamãe preta (mãe distante) assim como o bebê-car. Usa
o pai como mãe, que a segura e a acalenta (holding) enquanto assiste e apercebe o mundo externo passando através da janela aberta,
a criança retoma a criação da experiência
vivida numa zona intermediária assentada sobre a criatividade.
Parafraseando Loparic (1995), num
texto onde ele se refere ao brincar como um dos modos paradigmáticos do fazer
originário e explana sobre a formação do espaço potencial, diria: “Viajar de
onde para onde? Não de um ambiente a
um outro ambiente, mas de um sentido
de realidade ao outro.” (LOPARIC, 1995, p. 57). Ou seja, onde a realidade
compartilhada do brincar se assente sobre um espaço-tempo, um sentido. (na escrita original do autor se lê “objeto”
ao invés de “ambiente”.)
Seria então o trem um setting
instalado na fronteira entre mundos. O pai sendo mãe, Piggle sendo bebê, o
vagão sendo um grande bebe-car que transporta a criança ao mundo dessa vez de
modo confiável. O lá e cá, entre a casa e o consultório, sendo transposto de
modo que a incomunicabilidade vivida em um espaço/ambiente encontra rumos até a
chegada num outro espaço/ambiente onde é possível estabelecer alguns encaixes e
compreensões necessárias para que a continuidade do processo de amadurecimento
emocional se reinstale na vida da criança, assim como na de seus familiares.
Por vezes, durante o brincar com os
trenzinhos no consultório, enquanto Gabrielle encaixava vagões e locomotivas, a
mesma emitia balbucios e conversas incompreensíveis, como se estivesse
experimentando modos próprios de dizer, criando seus próprios léxicos que
operariam no processo de comunicação. Esse diálogo consigo, feito de modo em
que o médico podia escutar alguns sons, mas que não eram inteligíveis, marcavam
a presença desse universo intermediário entre mundos no interior do
consultório. Por vezes a criança imitava ruídos de trem. Passava a poder
brincar com esses conteúdos. (WINNICOTT,
1977/1987, p.113, p. 124, p.133)
Outras vezes a existência de algumas
situações durante as viagens eram expressas pela criança. Quando o trem em que
vieram teve de dar marcha ré na 11a. consulta (16.06.1965). (WINNICOTT,
1977/1987, p.126)
Ou como a demora na chegada ao
consultório ocorrida na 12a. consulta (08.10.1965) onde o trem parou por
diversas vezes, e andou devagar; foram acontecimentos que puderam ser
percebidos como integrantes da vida. (WINNICOTT, 1977/1987, p.133)
Por fim, viajar de trem tornou-se, para além
de uma espécie de brincar, um espaço e lugar para acontecer na realidade e na
subjetividade de Piggle. Um brincar-acontecer que incentivava a confiabilidade
e a criatividade, pois na interação com o ambiente era permitido que ela
criasse e se transformasse, colocando algo de seu no mundo compartilhado. Aproximando-se
da experiência de entrada e fruição na 3a área da experiência cultural, dando
formas e sendo desdobrada a partir daquilo que Winnicott nomeava como espaço
potencial.
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Conclusão
Dentre as 16 sessões ocorridas ao
longo dos anos, e ainda nas 32 viagens de trem com destino casa-Londres-casa,
tanto Winnicott quanto o pai (nos papéis de terapeuta/cuidador) ultrapassaram a
função resumida, muitas vezes destinada aos adultos, de cuidar do espaço
físico, dos brinquedos e da segurança da criança. O fato é que ambos não se
retiraram das brincadeiras em muitos momentos importantes, pelo contrário,
perceberam a preciosidade da oportunidade de brincar juntos, e deram margem e
abertura à provisão de um ambiente que pudesse acolher, sustentar e ampliar
aspectos integradores da criança.
Os brinquedos dispostos no
consultório não eram objetos soltos, mas compunham o setting, permitindo a
criança elaborar através do brincar formas de lidar com parte de seus anseios,
seus modos e meios de formatação de comunicações, abrindo espaços potenciais de
experimentação e criação das realidades internas-externas e principalmente
compartilhadas. O manuseio dos mesmos conferiu qualidades de ação corporal
inscrevendo limites e contornos importantes do que vinha a ser um eu e um não
eu, por exemplo.
Outra potencialidade explorada, na
entrada do trem como setting e meio de transporte, conta da criação de um lugar
intermediário entre os ambientes vividos. Brincar nesse intermeio nutriu a
criança com multiplicidades de sentidos e rumos existentes, fazendo com que ela
se apercebesse acerca dos estados internos como das apresentações possíveis do
externo. À mesma foi permitido passar por vivências acolhedoras e sustentadas
junto ao pai no vagão que transportava todos.
A temática aqui exposta tentou se
aproximar de algo muito precioso que compõe o modo como Winnicott concebe a
ampliação da clínica. Através da criação de um setting, feita de modo
espontâneo, foi possível se atentar para diálogos fundamentais em sua concepção
de cuidado. A dependência da provisão ambiental, adaptabilidade, construção de
modos de sustentar a continuidade de ser (e também do estar-no-mundo), a função
do brincar enquanto operante no relacionar-se com as realidades, são alguns
exemplos do que foi possível trilhar nessa escrita.
Por fim, a imersão neste estudo proporcionou um novo olhar sobre o pensamento de Winnicott, despertando o interesse em aprofundar e expandir as reflexões sobre o tema. A possibilidade de continuar essa investigação, talvez em um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), representa uma oportunidade valiosa para explorar ainda mais as contribuições dessa abordagem para a psicanálise e para o cuidado emocional de crianças.
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