Winnicott, que trem é esse? Considerações a cerca das passagens do trem, de brinquedo à setting terapêutico, na obra "The Piggle" de D.W. Winnicott.


Winnicott, que trem é esse?

Considerações a cerca das passagens do trem, de brinquedo à setting terapêutico, na obra "The Piggle" de D.W. Winnicott.



 André Miolo Nunes

Terapeuta Ocupacional,

Acompanhante Terapêutico,

 Psicanalista

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Resumo

Este trabalho tem como objetivo mapear as passagens da obra The Piggle – Relato do Tratamento Psicanalítico de uma Menina, de D.W. Winnicott, com foco no tema do trem, que inicialmente surge como um brinquedo no consultório e, ao longo do processo terapêutico, transforma-se em um setting terapêutico. A análise concentra-se nos trechos em que a palavra "trem" e termos correlatos (vagão, locomotiva, etc.) aparecem no contexto das consultas, cartas e ambientes compartilhados entre Winnicott e Gabrielle, bem como nas experiências vividas pela menina e seu pai durante as viagens de trem. O estudo busca compreender como o tema do trem, inicialmente associado ao brincar, evolui para um meio de transporte que consolida um setting terapêutico importante.

O trabalho também explora os conceitos winnicottianos de brincar, criatividade, manejo, setting e assistência residencial, destacando a importância dos ambientes facilitadores e dos manejos terapêuticos no processo de cura. Através de pesquisa bibliográfica e análise da obra de Winnicott, o estudo apresenta um panorama do texto, mostrando como a elaboração dos temas ganhou espaço potencial de comunicação entre os envolvidos no cuidado. Conclui-se que o trem, como setting intermediário, permitiu a Gabrielle vivenciar processos de integração e amadurecimento emocional, consolidando-se como um espaço de transição e criatividade.

Palavras-chave: Winnicott; Psicanálise Infantil; Setting Terapêutico; Brincar; Trem; Ambiente Facilitador.


Abstract

This work aims to map the passages of the book The Piggle – Account of the Psychoanalytic Treatment of a Little Girl, by D.W. Winnicott, focusing on the theme of the train, which initially appears as a toy in the consulting room and, throughout the therapeutic process, transforms into a therapeutic setting. The analysis focuses on the excerpts where the word "train" and related terms (wagon, locomotive, etc.) appear in the context of consultations, letters, and environments shared between Winnicott and Gabrielle, as well as in the experiences lived by the girl and her father during train trips. The study seeks to understand how the theme of the train, initially associated with play, evolves into a means of transportation that consolidates an important therapeutic setting.

The work also explores Winnicottian concepts of play, creativity, management, setting, and residential care, highlighting the importance of facilitating environments and therapeutic management in the healing process. Through bibliographic research and analysis of Winnicott's work, the study presents an overview of the text, showing how the elaboration of themes gained potential space for communication among those involved in care. It is concluded that the train, as an intermediate setting, allowed Gabrielle to experience processes of integration and emotional maturation, consolidating itself as a space of transition and creativity.

Keywords: Winnicott; Child Psychoanalysis; Therapeutic Setting; Play; Train; Facilitating Environment.

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Introdução

O presente trabalho traz como ideia central mapear as passagens da obra The Piggle – Relato do Tratamento Psicanalítico de uma menina, desenvolvida por D.W. Winnicott. O trem é apresentado no início enquanto um brinquedo presente no consultório e com o passar do processo torna-se um setting terapêutico. Foram levantados os trechos onde a palavra trem, ou ainda outras análogas a essa (como por exemplo vagão, locomotiva, etc.)  aparecem no contexto das consultas, cartas e ambientes (setting) compartilhados entre Winnicott e Gabrielle; como também quando referenciadas nas experiências vividas pela menina e seu pai durante as viagens realizadas. O trem foi usado por ambos como meio de transporte, visto que a família residia em uma cidade distante alguns quilômetros de Londres, onde Winnicott trabalhava. Por se tratar de um processo de acompanhamento do tipo psicanálise sobre demanda, e também compartilhada, as viagens foram realizadas espaçadamente durante 2 anos e 8 meses de tratamento.

Aqui, algo no processo geral do cuidado, que também movimentou essa escrita, se reflete através da questão:  Como foi se operando a passagem do tema envolvendo o brincar com os trens (brinquedos), até a chegada do veículo usado como meio de transporte, que também abrigou e consolidou um setting terapêutico importante na conjuntura?

Entre os objetivos gerais deste trabalho tem-se a possibilidade de aproximar os conhecimentos que Winnicott desenvolveu, principalmente os ligados às noções do brincar enquanto constituinte da criatividade e compartilhamento de realidades, assim como aspectos ligados às noções de manejo, setting e assistência residencial enquanto prática psicanalítica compartilhada e modificada.

Com relação ao objetivo específico deste trabalho, será apresentado um panorama do texto a fim de mostrar como a elaboração dos temas foi ganhando espaço potencial de comunicação entre os envolvidos nos cuidados. Na obra de Winnicott, a importância dada aos ambientes facilitadores e manejos mais uma vez fica evidente. Contudo, nesse caso em específico, é possível acompanhar como a entrada do tema relacionado diretamente aos sintomas da criança se opera. Para tanto, foram realizadas pesquisas bibliográficas e leituras de referência na extensa obra de Winnicott, além de textos e obras que lançassem luz sobre o assunto na perspectiva Winnicottiana.

 

Desenvolvimento

” Coisas que a gente se esquece de dizer

Frases que o vento vem às vezes me lembrar

Coisas que ficaram muito tempo por dizer

Na canção do vento não se cansam de voar

Você pega o trem azul, o Sol na cabeça

O Sol pega o trem azul, você na cabeça

O Sol na cabeça.”

Lô Borges, O trem azul (1972)

 

Piggle, apelido carinhosamente dado pelos pais à filha Gabrielle, chega até Winnicott através de 2 feitos. Em janeiro de 1964, sua mãe escreveu ao médico solicitando ajuda. Num primeiro momento da carta relata fatos do caso que remetem a apontamentos clínicos descritivos da doença que acomete sua filha. Num segundo momento da escrita, a mãe discorre sobre componentes presentes nas fantasias da criança, sendo os mais emblemáticos a serem enfrentados (e tão logo possíveis de serem comunicados pessoalmente pela própria paciente) os que envolviam a presença de 2 elementos nomeados de “mamãe preta” e “bebe-car”.

O segundo momento como Gabrielle chega até Winnicott, é através da primeira consulta realizada um mês após a leitura da carta enviada pela mãe. Nesta, a criança vem acompanhada pelos pais e apesar de uma inicial timidez ou dificuldade de comunicação, entra no consultório médico e passa a interessar-se pelos brinquedos dispostos.

Numa visão geral da obra, desperta atenção a presença constante de determinados brinquedos nas sessões realizadas. Trens, vagões, locomotivas, eixos, rodas, estradas e trilhos são peças que aparecem ao longo de todo tempo de acompanhamento, ou seja, nos dezesseis encontros presenciais realizados entre Winnicott e Gabrielle.

 Antes de iniciar os apontamentos relativos ao trem, que conduzirão em parte essa escrita, é interessante mencionar algo que a Sra. Clare Winnicott cita, ainda no prefácio do livro. Ela se refere a uma opinião, entre parênteses, escrita por Winnicott durante a 13ª. consulta.

“... não é possível a uma criança dessa idade extrair significado de um jogo, a menos que, antes de tudo, haja brinquedo e diversão”. (WINNICOTT, 1977/1987, p.9) E continua referindo que é através do divertimento, que a ansiedade é dominada e contida dentro da experiência total.

Ou seja, a garota que se encontrava com presença e aberta à relação, encara a atividade de brincar no ambiente do consultório como um trabalho sério. Neste setting, em todas as sessões realizadas, fazia uso dos brinquedos para efetuar suas comunicações ao terapeuta a respeito de importantes adventos que remetiam à problemas existenciais vividos por ela.

Como já mencionado, desde o início do acompanhamento os pais de Gabrielle enviavam cartas à Winnicott; nessas comunicavam dúvidas, mudanças e pedidos de ajuda demandados pela criança que com o tempo e o crescente sentimento de confiança na figura do médico passa a enviar no mesmo envelope desenhos e cartas ditadas à mãe, anunciando criações próprias e transformações nas relações. Nesse sentido, é válido mencionar que o cuidado realizado pelos pais nos entretempos das consultas presenciais dá sinais claros de manejos presentes na clínica Winnicottiana. Trata-se do compartilhamento do cuidado (psicanálise partagé- compartilhada), realizado nos moldes de assistência na residência familiar como um setting ampliado, levando-se em conta que a comunicação estabelecida entre esses e o médico pressupõe também a confiabilidade de que eles conseguirão sustentar esses enquadres.

O setting é composto por um conjunto de características que englobam os planos e formas de cuidado advindos de uma posição ética na perspectiva do cuidar, o terapeuta/cuidador oferece ao paciente a provisão ambiental que esse necessita. Compõem, assim, perspectivas e posicionamentos éticos (no sentido de ethos) na clínica winnicottiana. “Faço análise porque é do que o paciente necessita. Se o paciente não necessita análise então faço alguma outra coisa... se não, então somos analistas praticando outra coisa que acreditamos ser apropriada para a ocasião. E porque não haveria de ser assim?” (WINNICOTT 1962/2008 p. 152-155).

Mas, engatando os assuntos, o que tais comunicações dialogam com a presença do trem?  Ainda na entrevista inicial realizada ao término da 1ª. consulta, 03.02.1964, onde a criança já havia manuseado e interagido com os trenzinhos, a mãe anuncia que a filha sofre de terríveis pesadelos a noite envolvendo o bebe-car ou o trem. Sendo esse um aspecto importante que levou Piggle a procurar Winnicott, pois necessitava conversar com alguém que soubesse cuidar desse assunto que a afligia.  (WINNICOTT, 1977/1987, p.28)

Na consulta inicial, dos brinquedos que a criança se interessa espontaneamente fazem parte trenzinhos e vagões. De algum modo usa tais objetos no ambiente da primeira e demais sessões para brincar, criar espaços e dinâmicas de comunicação de seus problemas, elaborar aspectos dolorosos que compunham seu sofrimento. Nesse sentido, é plausível compreender que Piggle, ao eleger tais peças e brinquedos, ia sutilmente comunicando a Winnicott sobre o que gostaria de abordar.  Sempre iniciava as sessões questionando: “o que é isso?” enquanto segurava ou explorava um trem. Era como se nessa repetição, ao início da sessão, assegurasse a abertura do espaço relacional com o terapeuta de quem buscava apoio, suporte e cuidado, para então passar a tratar dos temas que tanto a desnorteavam e faziam sofrer.

No total, o objeto e o contexto do trem aparecem 143 vezes no texto, dando a entender que se tratava de um componente do ambiente que acolheu expectativas e projeções, acompanhou desencadeamentos de fatos e permaneceu em transformação de uso durante as diferentes etapas; como também foi utilizado nos processos de transição elaborados na relação entre o terapeuta e a criança, na relação do médico com os pais, e por extensão na relação da criança com sua família. Ao atentar-se, para um detalhe histórico com relação aos caminhos percorridos pelas cartas numa Inglaterra de 1964, é bem possível que essas também tenham sido transportadas pelos correios em malotes nos trens que ligavam as cidades.

A entrada dos ambientes como contextos de cuidado reforça a noção dada por Winnicott que leva em conta a compreensão de que a criança é no ambiente. Não se trata apenas de uma questão relacionada ao tratamento de um aparelho psíquico em si, mas sobretudo da existência de uma pessoa encarnada em um campo relacional, um corpo em busca de integração consigo e com o meio. Como pontua Loparic (1995), “O lactente não está ‘no’ espaço potencial no sentido em que se diz que uma árvore está no jardim, ele é esse espaço.” (LOPARIC, 1995, p. 57)

 Nesse sentido, é plausível elencar os principais espaços onde se deram a construção dos processos de cuidado. A psicanálise compartilhada e sobre demanda, realizada junto a Gabrielle, contava com 3 settings: casa, consultório e trem. Nestes, os procedimentos realizados no transcurso do processo circunscreveram-se através de manejos e por vezes interpretações, cada qual em seus respectivos ambientes.

Ao integrar o cuidado em diferentes contextos, Winnicott também reforça sua compreensão de que a relação indivíduo-ambiente pode ser constitutiva de aspectos saudáveis do ser. Mesmo que a princípio não tenha havido uma provisão ambiental boa e adaptável, resultando no surgimento de distúrbios maturacionais, ao apoiar-se nas teorias do amadurecimento emocional e do contato indivíduo-ambiente como abordagens para situar um diagnóstico individual e até social, é possível abrir áreas orientadoras do cuidado, com as devidas adaptações da técnica, dos enquadramentos/settings, ou mesmo de perspectivas prognósticas dessas relações.

Quanto ao aspecto patológico presente, onde Gabrielle deixou de seguir a linha de continuidade do ser, metaforicamente onde o trem da vida descarrilou, foi exigido dela uma certa paralisação dessa continuidade, resultando num sofrimento existencial. O processo de recuperação se deu como se esse “trem da vida” pudesse dar marcha ré e regressasse a momentos iniciais para que, a partir dessa regressão, conquistasse algo que deixou de viver e voltasse a se movimentar dando a ela condições para prosseguir criando e se expondo.

Essa possibilidade de retornar a linha da continuidade de ser, o processo maturacional, entre outras questões, está atrelada a tarefa de integração no tempo/espaço, a integração psique-soma, assim como a aspectos derivados da ilusão de onipotência, ou melhor, da consolidação de um espaço potencial e da chegada a uma 3a área de experiência. Sendo estes últimos ligados à tarefa da realização.

No caso, a criança não conseguia juntar passado-presente e futuro, havendo aí uma distância incalculável. Para que essa junção fosse realizada em sua integralidade era necessária certa dependência da figura/função da mãe, que falhou ambientalmente numa determinada etapa onde o processo estava se encaminhando para uma consolidação.

Nesse sentido, Piggle não sofreu um processo de aniquilamento (ou seja, não se tornou psicótica). Ela atingiu certa construção egóica, ainda imatura, sendo que a falha vivida nessa junção dos fenômenos na área da onipotência a lançaram para um viver condicionado a certa desautorização em seu existir; certo distanciamento da mãe e cujas dificuldades apareciam na comunicação disso como ausência de um lugar de reconhecimento tanto na relação dela com a mãe e consequentemente na relação de Gabrielle com sua irmã Susan.

Sonhar com o trem (ou mesmo o bebe car) é uma experiência que se afirma próxima ao mundo subjetivo. Brincar com os brinquedos presentes no setting do consultório é por outro lado se haver com objetos externos e intermediários. Contudo, uma outra experiência vivível foi pegar o trem (meio de transporte) de fato, junto ao pai.

É válido pontuar que na 2a. consulta, de 11.03.1964, Gabrielle já havia brincado com o pai transferindo ao mesmo um papel no jogo. Após contar a Winnicott que havia vindo de trem, como resposta à pergunta feita por ela mesma (“O que é isso?”) enquanto manuseava os trenzinhos, a criança autoriza a entrada do pai no interior do setting do consultório. O trem como meio de chegada ao setting do consultório, anunciado pela própria criança, traz à tona aspectos interligados no processo relacional.

Ainda nesta consulta, após sentar-se no colo do pai, transferiu a esse a função/papel materno, passando a descer de cabeça por entre as pernas do mesmo vivenciando uma espécie de renascimento. A brincadeira séria de nascer novamente, fazer-se bebê, estava sendo realizada, aproximando confiavelmente a figura materna ao terreno da comunicação sobre o bebe-car.

Durante as viagens seguintes, viveu e experimentou um aspecto da integração do tempo/espaço ao perceber que havia uma distância a ser percorrida entre sua casa e o consultório de Winnicott. Não eram vizinhos, por isso mesmo o deslocamento entre os settings transformar-se-ia com a criação de um entre-settings. O trem passa a ser tido como uma passagem entre ambientes de cuidado, ou ainda um “objeto-ambiente”.

Embarcar, ser transportada e embalada pela viagem em seus múltiplos contextos passou a ser um acontecimento na vida da criança.  No interior do trem, em plena viagem de 26.05.1964 (4a. consulta), Piggle relacionou-se com o pai de modo bastante significativo. Durante o trajeto chupa o polegar dele enquanto este a segura em seu colo. (WINNICOTT, 1977/1987, p.59)

 A experiência inscrita enquanto acontecimento, não é apenas uma representação, podendo ser considerado um avanço não só na relação somática, como também de abertura para novos sentidos de integração entre as figuras da mãe-objeto e da mãe ambiente; consolidando as tarefas maturacionais pendentes. A cena não é dita, acontece, é vivida. O pai maneja a situação no interior do trem que serve como enquadre para que nesse ser e fazer junto com a criança possam ser vividos como algo necessário durante o trajeto de sua casa para o consultório de Winnicott.

Ou seja, no interior do trem, acompanhada de seu pai, passa a vivenciar de maneira diferente o enfrentamento das distâncias. Essa questão da distância no interior do trem é de suma importância para Gabrielle, pois conversa com aspectos ligados à mamãe preta (mãe distante) assim como o bebê-car. Usa o pai como mãe, que a segura e a acalenta (holding) enquanto assiste e apercebe o mundo externo passando através da janela aberta, a criança retoma a criação da experiência vivida numa zona intermediária assentada sobre a criatividade.

Parafraseando Loparic (1995), num texto onde ele se refere ao brincar como um dos modos paradigmáticos do fazer originário e explana sobre a formação do espaço potencial, diria: “Viajar de onde para onde? Não de um ambiente a um outro ambiente, mas de um sentido de realidade ao outro.” (LOPARIC, 1995, p. 57). Ou seja, onde a realidade compartilhada do brincar se assente sobre um espaço-tempo, um sentido. (na escrita original do autor se lê “objeto” ao invés de “ambiente”.)

Seria então o trem um setting instalado na fronteira entre mundos. O pai sendo mãe, Piggle sendo bebê, o vagão sendo um grande bebe-car que transporta a criança ao mundo dessa vez de modo confiável. O lá e cá, entre a casa e o consultório, sendo transposto de modo que a incomunicabilidade vivida em um espaço/ambiente encontra rumos até a chegada num outro espaço/ambiente onde é possível estabelecer alguns encaixes e compreensões necessárias para que a continuidade do processo de amadurecimento emocional se reinstale na vida da criança, assim como na de seus familiares.

Por vezes, durante o brincar com os trenzinhos no consultório, enquanto Gabrielle encaixava vagões e locomotivas, a mesma emitia balbucios e conversas incompreensíveis, como se estivesse experimentando modos próprios de dizer, criando seus próprios léxicos que operariam no processo de comunicação. Esse diálogo consigo, feito de modo em que o médico podia escutar alguns sons, mas que não eram inteligíveis, marcavam a presença desse universo intermediário entre mundos no interior do consultório. Por vezes a criança imitava ruídos de trem. Passava a poder brincar com esses conteúdos.  (WINNICOTT, 1977/1987, p.113, p. 124, p.133)

Outras vezes a existência de algumas situações durante as viagens eram expressas pela criança. Quando o trem em que vieram teve de dar marcha ré na 11a. consulta (16.06.1965). (WINNICOTT, 1977/1987, p.126)

Ou como a demora na chegada ao consultório ocorrida na 12a. consulta (08.10.1965) onde o trem parou por diversas vezes, e andou devagar; foram acontecimentos que puderam ser percebidos como integrantes da vida. (WINNICOTT, 1977/1987, p.133)

 Por fim, viajar de trem tornou-se, para além de uma espécie de brincar, um espaço e lugar para acontecer na realidade e na subjetividade de Piggle. Um brincar-acontecer que incentivava a confiabilidade e a criatividade, pois na interação com o ambiente era permitido que ela criasse e se transformasse, colocando algo de seu no mundo compartilhado. Aproximando-se da experiência de entrada e fruição na 3a área da experiência cultural, dando formas e sendo desdobrada a partir daquilo que Winnicott nomeava como espaço potencial.

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Conclusão

Dentre as 16 sessões ocorridas ao longo dos anos, e ainda nas 32 viagens de trem com destino casa-Londres-casa, tanto Winnicott quanto o pai (nos papéis de terapeuta/cuidador) ultrapassaram a função resumida, muitas vezes destinada aos adultos, de cuidar do espaço físico, dos brinquedos e da segurança da criança. O fato é que ambos não se retiraram das brincadeiras em muitos momentos importantes, pelo contrário, perceberam a preciosidade da oportunidade de brincar juntos, e deram margem e abertura à provisão de um ambiente que pudesse acolher, sustentar e ampliar aspectos integradores da criança.

Os brinquedos dispostos no consultório não eram objetos soltos, mas compunham o setting, permitindo a criança elaborar através do brincar formas de lidar com parte de seus anseios, seus modos e meios de formatação de comunicações, abrindo espaços potenciais de experimentação e criação das realidades internas-externas e principalmente compartilhadas. O manuseio dos mesmos conferiu qualidades de ação corporal inscrevendo limites e contornos importantes do que vinha a ser um eu e um não eu, por exemplo.

Outra potencialidade explorada, na entrada do trem como setting e meio de transporte, conta da criação de um lugar intermediário entre os ambientes vividos. Brincar nesse intermeio nutriu a criança com multiplicidades de sentidos e rumos existentes, fazendo com que ela se apercebesse acerca dos estados internos como das apresentações possíveis do externo. À mesma foi permitido passar por vivências acolhedoras e sustentadas junto ao pai no vagão que transportava todos.

A temática aqui exposta tentou se aproximar de algo muito precioso que compõe o modo como Winnicott concebe a ampliação da clínica. Através da criação de um setting, feita de modo espontâneo, foi possível se atentar para diálogos fundamentais em sua concepção de cuidado. A dependência da provisão ambiental, adaptabilidade, construção de modos de sustentar a continuidade de ser (e também do estar-no-mundo), a função do brincar enquanto operante no relacionar-se com as realidades, são alguns exemplos do que foi possível trilhar nessa escrita.

Por fim, a imersão neste estudo proporcionou um novo olhar sobre o pensamento de Winnicott, despertando o interesse em aprofundar e expandir as reflexões sobre o tema. A possibilidade de continuar essa investigação, talvez em um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), representa uma oportunidade valiosa para explorar ainda mais as contribuições dessa abordagem para a psicanálise e para o cuidado emocional de crianças.

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Referências Bibliográficas:

DIAS, E.O (2017) A Teoria do Amadurecimento. 4ª. ed., São Paulo: DWW Editorial.

JURDI, A.P.S.; AMIRALIAN, M.L.T.M. Ética do cuidado: a brinquedoteca como              espaço de atenção a crianças em situação de vulnerabilidade. Interface (Botucatu), v.17, n.45, p.275-85, abr./jun. 2013.

LOPARIC, Z. (1995). Winnicott e Heidegger: afinidades. Boletim de Novidades, (69),

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WINNICOTT, D.W (1977/1987) The Piggle, Relato do tratamento Psicanalítico de uma menina. 2ª. Ed. São Paulo: Editora Imago (1987)

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