OCUPAÇÃO X ANÁLISE X ATIVIDADE X AÇÃO


Pois é visitante, coloquei esse título meio como uma provocação. Porque quem não lida com essas questões diariamente, acha que tudo é igual. atividade, ação, ocupação. E até muitas vezes, os próprios terapeutas ocupacionais não distiguem uma coisa da outra. Eu fico pensando se há necessidade para isso nesse território de esgarçamento da clínica. Porque, quanto a nós, visitantes, se ainda não entendeste, partimos de uma experiência de construção de conhecimento “quase-clínica”, visto que estamos apreendendo e cuidando de nossa formação e jeito de agir na e com a vida além da clínica, dessa clínica diluída, mas não é só isso.
cruzar as fronteiras é uma questão de confiança. Confiar em si, confiar no cuidado exercido pelo outro com aquilo que se pensa e se produz, é como se fosse “clínica” de T.O. É “quase” porque o discurso referente as atividades e ações cabe tanto para a clínica, como para o processo de aprendizagem/ensino/produção de saberes, e assim como para o movimento de geração de novos conhecimentos e produção de vida. Pode então, visitante, você se perguntar: Mas, afinal, isso se refere a pacientes, terapeutas, alunos, viventes, a quem?
No discurso clínico utilizado pelos terapeutas o termo que refere aqueles a quem assistimos é paciente (conforme o dicionário Aurélio: 5. pessoa que padece, doente). Em nosso caso, enquanto terapeutas e “construtores de saberes” também somos pacientes, no sentido trazido pelo mesmo dicionário Aurélio como: 3. Aquele que persevera na continuação de uma tarefa lenta e difícil.
Sejamos pois, pacientes com o feitio de nossas ações, entre elas a discursiva. As palavras definidoras do “novo” termo ANÁLISE DE ATIVIDADES, na terapia ocupacional, ressoam não só nessa tarefa cotidiana exercida pelo lugar do T.O- no- mundo das profissões (tarefa que somos imbuídos de fazer), mas se pudermos perceber, elas ganham inscrições em outros tempos e lugares. Numa espécie de ritornelo existencial, ou seja, uma repetitividade em outros territórios existenciais, o discurso também se faz presente.
Comigo, por exemplo, aconteceu de passar mais de uma dezena de vezes, as leituras feitas do texto firmado pelo Coffito, e que se encontra muito bem explanado no site aqui linkado ( http://www.adrianato.com.br/?area=atribuicoes-terapia-ocupacional) sobre análise e uso de atividades. Era como se as palavras tivessem um sentido maior do que a lei configurava, eram palavras para novos modos de fazer na vida. Como se as letras ganhassem uma espécie de intenção de interagir com ambientes diferentes. Não numa espécie de garantia e conforto, mas numa tarefa de se desbobrar e ocupar tamanha responsabilidade. Isso nos gerou inquietação. Porque a princípio pensávamos ter facilidade em construir uma concepção de análise-atividade-ação, a partir de um discurso já formado. Mas nos deparamos com uma relação de “ensino/extensão de pesquisa” muitas vezes desconectadas de uma relação de “ensino/extensão de sentido” . Compreendes? Mais uma vez a disjunção entre teoria e prática se dava. Foi daqui, desse lugar de inquietação, que quatro dúvidas-questões surgiram:


  • porque temos que entrar em contato com isso?

  • pra que serve essa convivência entre os dois “discursos de ensino e extensão” ?

  • Se são “dois discursos” como fazemos, e como fazer-mos) pra interagir com eles?

  • o que fazer com esse material?


Talvez algo se faça, talvez seja uma resposta. TALVEZ... Talvez, visitante, é quase! É vez de FORÇA-TAREFA.


Talvez: Do latim quase, ‘como se’ 1. Perto, aproximadamente.


Sei que o que escrevi não ficou muito claro, porque é assim mesmo, é idéia em formação. Peço licença pra poder prosseguir...Minhas pesquisas pessoais em T.O vinham sendo feitas no sentido de pensar a questão do OCUPAR enquanto uma questão relativa ao espaço. Ocupacional = Invenção de espaços.
Nesses cruzamentos que a vida proporciona me deparei com a obra de Miltom Santos, um geógrafo que assim dizia: “...o sistema de ação não se dá sem o sistema de objetos” . Quando eu li isso me dei conta de que a atividade (ação) era, TALVEZ, um objeto da terapia ocupacional. Não era o espaço que deveria ser ocupado, mas as ações e junto com elas os objetos-coisas.
Pois bem, anotei isso em meu diário de bordo, que hoje retomei pra tentar falar sobre essa idéia de quase clínica.
Eis que o tempo inscreveu em minhas mãos um livro de Saramago no qual há um texto sobre o sumiço de partes de objetos no mundo. Paredes de prédios, bules, xícaras, etc simplesmente se rebelavam contra os homens e deixavam de existir, desintegravam-se. E as pessoas passaram a se mostrar mais, a ter que se ver de outra maneira que não separadas pelos objetos. O nome do livro era objeto-quase. Quando eu li, aquele pensamento que eu tinha iniciado com o Miltom Santos ganhou mais força. Agora entre o objeto-coisa e o objeto-ação havia o objeto-quase. As atividades estavam baseadas em três objetos:



  1. atividade: objeto-coisa
    materialidades
    quimio-fisicalidade
    corporeidade
    concretude

  2. atividade: objeto-quase
    representatividade
    sentido
    uso
    destino
    função
    relação

  3. atividade :objeto-ação
    ações a serem desenvolvidas
    verbalidade
    ato
    terceira lei da física


Cada um com particularidades. Existe um artigo bem bacana, infelizmente indisponível ao livre acesso, de MIADAIRA, E. S. Prescrevendo atividades. Revista de Terapia Ocupacional - USP, São Paulo, v. 2, n. 2/3, p. 105-111, Jun/Set 1991, que me mostrou que esses “objetos” também estão inscritos na materialidade, nas relações e real-ações, no tempo, no espaço, na função, nossa função, é uma delas é a de criar inscrições no cronos. Minha dúvida é saber se a atividade tem esse quarto objeto (atividade : objeto-cronos), ou se esse é da ordem do objeto quase...
Talvez...
Tal vez é quase!
...
Força Tarefa a hora é de rever as estratégias de A T A Q U E.
É hora de ganharmos o mundo real. E ocuparmos nosso espaço. "A imaginação é mais importante que a inteligência. " A. Eistein


"Esquecemos que a empiria, ao ser tratada com o rigor pode transformar-se em ato de criação. Criação de novos conceitos, criação de novos entendimentos sobre clínica. O que pretendemos é acentuar a necessidade de nos afastarmos dos sentimentos e das atitudes de sujeitos/profissionais faltosos, quando nossas práticas não se ‘enquadram’ numa determinada teoria ou metodologia de um paradigma científico: ousar lançarmo-nos à produção do novo, sem que com isso percamos o rigor da análise dos nossos fazeres é necessário. É preciso deixar claro que a esquizo-ocupação não se refere a um relativismo. Ao contrário: coloca-nos diante do compromisso de acompanhar com crítica permanente aquilo que produzimos com os nossos múltiplos fazeres em terapia ocupacional." Marcus Vinícius Almeida, no artigo: Esquizo-ocupação: uma ferramenta de análise da Terapia Ocupacional" In: Rev. Ter. Ocup. Univ. São Paulo, v. 15, n. 1, p. 11-6, jan./abr., 2004.


acesse:
http://www.crefito3.com.br/revista/usp/a2004v15n01/pdf/p11-16.pdf


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