RUÍDO


Sobre a mesa, contas vencidas de telefonia celular, que encontravam-se espalhadas. A soma de todas era considerada um valor exorbitante para ele. O que as pessoas tanto falam ao celular? Já não era sem tempo que não arranjava emprego. E vivia de fazer bicos para desconhecidos. Deslocava-se de um lugar a outro da cidade entregando folhetos de uma cartomante, de nome Nena que atendia sem horário marcado em uma dependência sub-locada nos pés do Morro do Pacheco.
Outras vezes vestia-se com cartazes de imobiliária que anunciavam um projeto-construção de apartamentos luxuosos por andar. E ele andava nesse anuncio, misto de Parangolé e Capitalismo.
Não era feia a cara do rapaz, talvez isso o que lhe valesse a simpatia que os outros conferiam ao serem abordados em tentativas de publicidade “téte-a téte” em que ele sempre se via a fazer.
Teve vezes também que trabalhou como vendedor de passes clandestinos de coletivos, o que lhe valia um certo lucro comparado as atividades laborativas que se metia nos bicos empregados.
De sobressalto acordei hoje como quem leva um susto tremendo ao constatar que meus sonhos sempre são comandados por mim mesmo. E que mesmo sabendo disso dispunha a continuar a vê-los até onde esses me levariam. Mesmo que fossem pesadelos medonhos.
Uma forte taquicardia ecoou dentro de seu corpo que até então lhe parecia vazio por estar anestesiado em quase vigília. Acordou suado pensando estar no comando da situação. Foi nesse instante que nasceu em sua existência um zumbido de fino trato que apitou para sempre todo o rumo de sua história.
Essa interferência, advinha do ruído, mudou completamente o desenrolar dos dias que vieram pela frente. Já era segunda, 2:34 da madrugada, pôs-se insistentemente a procurar a coisa-causa do defeito que ali então se apresentava. Três dias de sonambulismo constante era quase aberração, para quem não trocava uma noite de sono e descanso de corpo cansado por nada.
O homem ruído, se assim o podemos chamar, atreveu-se em tudo que pode para livrar-se daquilo. Chás-televisão, música-psiquiatrias, esforço físico-meditação, caminhadas-benzodiazepínicos. Tal derrocada durou um mês, e nada. Nada obteve maior resultado.
Não sabia, o que sabia demais. Tudo igualmente diferente. O que via era o que pensava. E o que pensava lhe era visível. O que ouvia havia ali. E o que havia convinha ouvir. Mas o que realmente ouvia, e não deixava de ouvir, era o ruído que não mais o desconcertava. Mas que então o constituía.
Por lógica batalha que pregou com seus traquejos de idéias chegou a uma conclusão, se o ruído não era zumbido, não era ele mais humano então. Negação e negação se anulam e positivamente operam.
Fez disso um novo som, amplificado na máxima potência. E assim ficou sua configuração:
homem – ruído, ruído, não mais.

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