DA DIVISÃO




“...Deleuze, na sua Lógica do Sentido, nos diz que "o motivo da teoria das Idéias deve ser buscado do lado de uma vontade de selecionar, de filtrar." Bem, o projeto platônico se ancora no método da divisão. Quando se pensa em tal método logo se cogita no processo de "divisão do gênero em espécies contrárias para subsumir a coisa buscada sob a espécie adequada..." (Deleuze, 1974, p.259). Mas isso é o que Deleuze chama de "o aspecto irônico" da divisão. Na verdade, o objetivo profundo da divisão é selecionar linhagens. "A dialética platônica não é uma dialética da contradição nem da contrariedade, mas uma dialética da rivalidade (amphisbetesis), uma dialética dos rivais ou dos pretendentes" (Deleuze, 1974, p.260).
No entanto, quando a divisão chega no ponto em que se pode promover a seleção, Platão parece renunciar em cumpri-la, substituindo-a por um mito. Para Deleuze, essa é a segunda ironia da divisão, "esta escapada, esta aparência de escapada ou de renúncia". Mas por que tal procedimento constituiria uma ironia, em que ela eleva o próprio método da divisão? "É próprio da divisão ultrapassar a dualidade entre o mito e a dialética e reunir em si a potência dialética e a potência mítica" (Deleuze, 1974, p.260).
É muito claro quando se pensa que o mito, com sua estrutura circular, é narrativa de uma fundação. Essa peculiaridade permite que, através do mito, se erija um modelo segundo o qual os diferentes pretendentes poderão ser julgados. O pretendente faz apelo a um fundamento e em relação a este, sua pretensão se acha bem fundada, mal fundada, não fundada. São três os grandes textos de Platão sobre o método da divisão: o Fedro, o Político e o Sofista. Nos dois primeiros aparecem o mito fundador, enquanto no último, ele está ausente. Deleuze se pergunta por quê. "É que, no Sofista, o método da divisão é paradoxalmente empregado não para avaliar os justos pretendentes, mas, ao contrário, para encurralar o falso pretendente como tal, para definir o ser (ou antes o não ser) do simulacro". Deleuze qualifica o fim do Sofista como "a mais extraordinária aventura do platonismo". Ao se debruçar sobre o abismo do simulacro, Platão percebe "no clarão de um instante" que não se trata de uma falsa cópia simplesmente. O simulacro "põe em questão as próprias noções de cópia... e de modelo" (Deleuze, 1974, p.261)...”ABREU,O. O procedimento da imanência em Deleuze
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