APARIÇÃO

(fotografia: andré nunes, Barcelona, 2007)


Era dia, quando ela chegou e semi-desconcertada sentou-se no meio fio da rua. Ficou ali, silenciosa, estática, entravando-se a cada átimo de instante novo.


Aconteceu então de pessoas distantes virem até ela e demonstrar preocupação com seu estado no mundo próprio. E como uma instantaneidade num torpedo midiático, num elétron desencadeador de uma fisão nuclear, ela levantou-se numa explosão dos "eus" que reinavam naquele subir.


Levantou-se. E dizia coisas desconcertantes, que acabavam por trancar a posibilidade de idéias novas num calabouço coberto de ódio.


A entidade que estava incorporada em cor porada, dizia coisas descabíveis, que no fundo acabavam por achar um lugar sentido na experiência do viver de todas , e assim cada rajada de coisa mal dita ia se aglutinando no espectro vital de quem assistia.


Havia ex-pectadores de todos os tipos, aqueles que desacreditavam no devir outro daquela, os que blasfemavam injúrias como pró-texto de fé, aqueles que apenas observavam a espetacularização do vivido, os que não necessitavam de explicações e havia por fim aqueles que compadeciam da situação tentando descobrir meios e brechas em campo adversário.


A cena estava posta. Faltava apenas a tua ação ocorrer. Silêncio. Um círculo se forma. Berrante os blasfemadores e os blasfemantes. A mulher ao centro coloca suas mãos sob a cabeça. Há quem peça calma. Há quem peça arreio. Logo um outro diálogo surge: " de onde você é?"


Repirações fortes da mulher ao centro. " Tudo treva."


Tentava entender um pouco o caos daquele instante, mas ainda era criança e temia. E a mulher, absurdamente contorcida, cio-torcida e enrugada, disparou uma tormenta de movimentos por sobre os olhos encobertos de brancura turva chamada: indiferença.


O impestuoso, o invisível, o absorto agora, no instante- ali.


" sou o que tranca. Sou o que trava. Vou para onde quiser. Ninguém me escapa...."


Sentia que o tripe sombrio ali se armava.


O ódio carregado de dor,


a dor carregada de medo


e o medo carregado de si odiar.


Deu duas da manhã, lá no fim da rua um galo canta achando ver o sol.


Comentários

Anônimo disse…
hahaha.,.. rachei da foto!!

http://zehmarmita.blogspot.com/

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