O ÓDIO

(fotografia, andré nunes, barcelona, 2007)
" o orgulho, a arrogância e a glória enchem a imaginação de domínios.
São demônios os que destroem o poder bravio da humanidade"
(Chico Science)

O ÓDIO

escrito por:
Sonia R. Lyra
Crp 08/0745

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A inflação sendo um estado de extrema vaidade faz com que se suba “demasiadamente alto”. Isto pode provocar tonturas ou uma tendência a cair nas escadas, torcer o pé e tropeçar em degraus e cadeiras, etc. Fica-se “no ar”, sem chão, sem suporte, sem saída. É o oposto do ser humilde que significa simplesmente: ver o REAL. A inflação conduz à experiência do ódio, disfarçado ou não, provocado pelo sentimento de inferioridade. Há um outro, um alguém, maior ou melhor do que “eu” e isto não aceito. Justificamos nosso ódio da vida, de nós mesmos, da violência, com mil artimanhas provocadas pela razão. Justificativas e explicações nas quais nós mesmos precisamos acreditar e convencer os outros. A “razão”, sem dúvida é o diabo, um estranho filho do caos.
As profundezas obscuras do inconsciente não devem ser negadas por um sofisma ou pela ignorância provenientes de um medo comum mal disfarçado e também não devem ser explicadas apressadamente por racionalizações pseudocientíficas. P. 101 e 102 vol. XII O diabo vive em nós. Ë o “espírito de gravidade” aquele que puxa para baixo, pesa, escurece, causa mau cheiro, empobrece a alma e faz dela uma mendiga miserável de qualquer migalha de afeto e aprovação. Nos induz a fazer troça do outro, a menosprezá-lo, atordoá-lo com alaridos barulhentos de uma falação mal contida e depois a picá-lo com a ferroada de nossa falta de dignidade. Sufoca nossa nobreza, esta é a função principal do diabo. Rouba nossa solidão e faz com que enchamos nosso silêncio com um alarido qualquer, só para nos tirar do silêncio sagrado e da paz do coração. Nos transforma em moscas venenosas, pois Belzebu quer dizer “senhor das moscas”. Nada para nós tem verdadeiro VALOR, sequer nós mesmos. Nos transforma em comediantes de uma comédia em que queremos dos outros uma coisa: que acreditem em nós. É o “eu” que está sempre em jogo.
Há um desejo contínuo de VINGANÇA.A vingança gira em torno da REVOLTA e do RESSENTIMENTO. Consciente ou inconsciente ela está sempre ali. Como vou derrubar o outro? Como vou persuadir os demais de que o outro não presta, não tem valor? Que tramas estará o diabo tecendo para nos manter aprisionados em suas redes?
Sim. Redes. Nos sentimos aprisionados, queremos nos LIBERTAR. Quando parece que tudo está mais claro ou mais calmo, então ainda há o perigo dos momentos em que nos pensamos amáveis e gentis e não passarmos de aduladores. Quando estamos sendo nós mesmos? Há quem nos implore inclusive uma mentira para se sentirem adulados, porque não suportam qualquer crítica. Fracos. Moles por dentro, duros por fora, e manipuláveis pelo diabo, o “espírito de gravidade” .Qual é o nosso rumo, qual é o nosso anseio? Para que ou para quem SERVIMOS? Sempre o alvo está em nós mesmos...?
Fundamentados na hipótese de que os conteúdos psíquicos são existências, precisamos estar alertas de que uma parcela inconsciente da personalidade, dotada de uma consciência superior, ultrapassa o humano comum.... Tal problema, que o leigo pode considerar um sofisma, se reveste de um enorme significado na prática. Uma atribuição incorreta pode provocar inflações perigosas, que o leigo só considera sem importância por desconhecer os desastres anímicos e exteriores que podem ser causados por tais inflações.
Sobre a fundamentação histórico bíblica, temos muitas passagens, entre elas, a parábola do joio e do trigo; as tentações de Jesus no deserto; etc.
Jesus, os fariseus e todo o povo daquele tempo estavam convencidos de que haviam hierarquias tanto para o bem quanto para o mal e que Satã presidia estes últimos. Também é chamado de diabolos ou diabo, ou ainda de “inimigo”. Ou ainda, Belzebu que significa “senhor das moscas”. Também encontramos referências como “príncipe deste mundo”.
SATÃ é um termo de origem hebraica que significa, um ser que obstrui um movimento livre, de avanço tornando-se assim um adversário ou acusador. Diabolos em grego significa aquilo que joga, atravessa, ou seja, alguma coisa que atravessa nosso caminho para interferir em nosso progresso. Nos evangelhos Satã é tido como responsável por uma infinidade de doenças humanas. Ele envia agonias físicas e aflições à humanidade que sofre. Também é tido por aquele que causa aflições mentais e para assisti-lo nesta tarefa Satã possuía um bando de demônios. Satã está interessado em induzir o homem a se rebelar contra os propósitos de Deus, assim como afligi-lo com o sofrimento.
Considerando o papel proeminente do diabo nos evangelhos, nota-se quão pouca atenção lhe é dada hoje, principalmente quanto à sua origem ou destino. Jesus certamente sabe a respeito do diabo. No começo de sua atividade, depois de seu batismo e do recebimento do Espírito Santo, conta-se que Jesus foi ao deserto para ser tentado por Satã. Somente depois de ter encontrado o diabo, e as tentações do mal que ele despejou no caminho de Jesus para persuadi-lo a empregar mal seu poder divino, Jesus assumiu sua missão.
Quanto à psicologia analítica, contribui informando-nos da necessidade ou do instinto que habita toda criatura viva, isto é, a totalização do Si-mesmo. Para que isso aconteça, cada parte de nós deve fazer sua função extra, e a função apropriada do ego inclui tornar-se consciente, isto é, psicologicamente iluminado, desperto. Consciente da presença e intervenção contínua do diabo em nossa vida. É a CONSCIÊNCIA a única possibilidade de ‘DESPOTENCIALIZAR”, desfazer a armadilha, sair da rede, transformar o ódio.
Mas o ego é como um urso sonolento que prefere hibernar. Poucas pessoas tornam-se conscientes por querer tornar-se conscientes, só o fazem em geral pressionadas por uma necessidade, e ai entra o papel do mal. A dor, a perda do sentido da vida, o desespero, a doença, o conflito nas relações, ou a sensação de que alguma coisa parece ameaçá-las e vai destruí-las, quando se sentem jogadas na fogueira, é só então que correm pedindo auxílio. É quando a parte fraca de suas personalidades é submetida à purificação, o que só acontece no contexto de sofrimentos e lutas, onde surge a possibilidade da consciência. Mas aqui surge um outro fator, que nos levará incontinenti, a uma nova tentação: o DINHEIRO. O dinheiro é o deus venerado de hoje em dia. Não nos importamos de usá-lo para adquirir tijolos, mas se for para os “tijolos do corpo” ou “da alma” é muito para se “jogar fora”. Aqui Satã faz ninho e deita filhotes por todo lado.
É o mal que faz as coisas acontecerem. Pode existir liberdade humana verdadeira num mundo em que as pessoas não sejam tentadas pelo poder maléfico para se afastarem de Deus? Pode Deus trazer seus filhos para junto de si se não há nenhum adversário tentando afastá-los? Porém, o mal é mal e nem sempre garante a individuação e o desenvolvimento da vida.
Os encontros com a realidade frustram as expectativas infladas do ego e provocam um estranhamento entre o ego e o Si-mesmo.
A incapacidade de experimentar aceitação ou vínculos é sentida como algo idêntico à perda de aceitação por parte do Si-mesmo. De algum modo houve um dano na relação ego – Si-mesmo, o que provocou uma alienação, a parte separou-se do todo. Um sintoma deste dano causado na infância é o sentimento de falta de auto-aceitação, o indivíduo sente que não merece viver ou ser o que é.
No estado de alienação o ego não só perde a identificação com o Si-mesmo o que é desejável, mas se desvincula dele o que é indesejável. A conexão entre o ego e o Si-mesmo tem importância vital para a saúde psíquica. Proporciona fundamento, estrutura e segurança ao ego, além de fornecer a este último energia, interesse, significado e propósito. Quando a conexão se quebra o resultado é o vazio, o desespero, a falta de sentido, e em casos extremos a psicose ou o suicídio.
Sempre que experimentamos uma insuportável alienação e desespero, vem a violência, o ódio.
A violência pode tomar tanto uma forma interna quanto uma forma externa. Em suas formas externas pode converter-se em suicídio ou assassinato. O ponto crucial de todas as formas de violência, reside na alienação, uma rejeição difícil de suportar. Há um profundo sentimento de amargura , frustração e inutilidade.
Do ponto de vista interno, há apenas uma pequena diferença entre assassinato e suicídio. Muda a direção da energia destrutiva. O alvo então é o próprio indivíduo.
O mal, o ódio, a violência, porém, são um prelúdio da possibilidade de redenção. Conclamam o indivíduo às alturas e profundezas de uma consciência maior. O Si-mesmo em seus esforços para a auto-realização é mais claro e mais escuro que o ego e, por esta razão, confronta-o com problemas que ele gostaria de evitar. Por essa razão a experiência do Si-mesmo, é sempre uma derrota para o ego.
O símbolo clássico da alienação é a imagem do deserto. pois o limite do homem é a oportunidade de Deus. As experiências religiosas descritas, apresentam estados de depressão, culpa, pecado e falta de valor, assim como o sentimento de total ausência de apoio ou fundamento transpessoal. “Os israelitas são alimentados pelo maná que cai dos céus” (Êxodo 16,4) O limite ocorre quando o ego conscientiza-se de que por si mesmo é incapaz e que necessita de ajuda, de auxílio, e isto busca com todas as suas forças. Assim, na base de toda neurose que se desenvolve na vida adulta estão as questões:
Qual será o resultado daquilo que faço hoje? Que farei amanhã? Qual será o resultado de toda a minha vida? Por que devo viver? Por que fazer alguma coisa? Haverá na vida algum propósito que a morte inevitável que me aguarda não desfaça e destrua? São questões de fundo em ataques agudos de alienação.
Aqui, o senso de humor é barrado. Está-se continuamente julgando ou culpando os outros.
E agora, o que fazer com tudo isto?
Primeiro, olhar de frente, conhecer o “adversário”. O diabo. Conhecer todos os seus movimentos dentro e fora de nós. Jung disse que apenas duas coisas poderiam deter uma pessoa de cair em poder do mal: se a alma da pessoa for preenchida com um poder maior que o poder do mal, ou se a pessoa pertencer a uma calorosa e receptiva comunidade humana.
Segundo, perceber que outro dos nomes do diabo é Lúcifer. Portador da luz. Sob o ponto de vista psicológico, a estória descreve um arquétipo, ou seja, uma típica e inevitável parte da psique humana e o modo como ela funciona. Considerada deste ponto de vista, há uma ruptura fatal da psique humana, que sendo originalmente inteira tornou-se dividida contra si mesma. A esta cisão pode-se denominar também, neurose. A lenda da queda de Lúcifer também nos relata qual é o âmago do arquétipo do mal: A BUSCA DO PODER. A nível psicológico esse poder destrutivo pode ser visto como uma qualidade arquetípica do ego humano que quer se impor ao Si-mesmo. Em nosso mundo moderno, como não reconhecemos mais o diabo ele é visto como o “defeito” dos outros, ou seja, como a projeção em espelho de nossos conteúdos inconscientes. Neste caso, o diabo, tão temido, nos causa medo e pânico, uma vez que representa aspectos reprimidos de nós mesmos. Como tudo que é reprimido e negado, tenta reemergir, ele constantemente perturba nossas mentes e deixa a consciência confusa.
Terceiro, desse modo, a redenção do diabo é uma importante tarefa psicológica a ser realizada, pois não podemos ser íntegros se não recuperarmos as partes perdidas de nós mesmos.
“Se não vistes o diabo, olha teu próprio eu” – Rumi.
Sonia R. Lyra
Crp 08/0745
Junho de 2005

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