NOTAS DO SUBSOLO


Notas do Subsolo
Dostoiévski
editora L&PM

Para quem já leu, ou tem vontade de ler um clássico literário, essa é uma boa pedida. Lembro que pra chegar ao fim de Crime e Castigo, do mesmo autor, eu precisei começar e recomeçar umas 3 vezes. Sempre chegava num ponto em que parava tamanho peso que a leitura ia se tornando. Eu ia ficando enfadado com a história.
Mas nesse livro, Notas do subsolo, isso não ocorreu. Dividido em duas partes, narra as filosofias e episódios da vida de um ex funcionário público, que aos 40 anos de idade, encontra-se doente de todo tipo de raiva que cultivou até então nas relações com os poucos próximos a ele.
Na primeira parte: O subsolo, numa espécie de monólogo auto flagelante, ele vai preparando o leitor com sua filosofia sobre assuntos tocantes para a época ( bastante contemporâneos por sinal). Critica de forma contundente a civilização humana em seus subjetivismos, materialismos e modos como a mesma adensa-se na construção de conformismos que sustentam suas insconstâncias.
De certo modo parece estar "desculpando-se", não é bem essa palavra mas enfim, do que então põe-se na escrita de suas notas e do que apresentará na segunda parte.
Fica refugiado em seu modo de narrar, numa espécie de esconderijo de si, ao mesmo tempo que mostra camufladamente todo um humor mordaz e uma crueldade para consigo e com o próximo. Desde o início já evidencia sua maneira doentia de viver, mas não aparenta muito bem isso, ficando para a segunda parte a revelação (ainda assim meio escondida), quando deveras narra episódios da vida cotidiana que evidenciam seu modo orgulhoso e vaidoso de ser.
Na segunda parte do livro, o leitor encontra um narrador perdido em seu modo mesquinho e arrogante de lidar com os outros, e surpreende-se tamanha cegueira e escuridão de consciência com que esse viveu a mocidade, tempos onde ia construíndo o subsolo que lhe abarca no início do livro. Foram 20 anos de "clausura subjetiva" para que o mesmo se desse conta das formas como se relacionava, ou não.
Um verdadeiro jogo psicológico, onde o leitor se reconhecerá enquanto alguém que já passou ou passa por conflitos muito próximos aos conteúdos apresentados. Muito antes de Freud estampar seu legado á humanidade através de seus casos literários e "achados psíquicos", Dostoiévski já nos mostrava subrepticiamente diversas qualidades presentes nas subjetividades humanas inconscientes.
Como escreveu o autor " Nós nem sabemos onde vive essa coisa viva, o que ela é, como chamá-la! Deixem-nos sós, sem livros, e imediatamente ficaremos confusos, perdidos - não saberemos a quem nos unir, o que devemos apoiar; o que amar e o que odiar; o que respeitar e o que desprezar. Até mesmo nos é difícil ser gente - gente com seu próprio e verdadeiro corpo e sangue; sentimos vergonha disso, achamos que é um demérito e nos esforçamos para ser uma espécie inexistente de homens em geral..." quem sabe o super-homem de Nietzche não tenha influências daí???
O subsolo lhe aguarda!
abç
andré

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