O corpo

(ilustração, andré nunes, 2009)


O corpo estava assim estado bruto. Presente como forma contornada, sem mover-se, sem descanso, com sentido. Combinava-se a outros ali depostos, mesmo que no antes nunca houvessem se encontrado. Firmava-se na presença repetida, de tantos mesmos iguais que lhe assemelhavam. Ele entre os outros era um, mesmo que a morte lhes igualassem, trazia nas medidas seus deparos, com tudo que a vida ordenou-lhe. Mas sabia e sabiam que a matéria, era rica substância conjugada, era espécie de mostragem do vivido, e era disso, dessa simples combinança, que toda diferença se fazia.
Deu-lhes o trunfo do instante maior de todos, aquele que nos move da experiência integrada, nos tirando a casca mórfica putrefável, desunindo os pedaços que nos sobram. Ela, mor verdade te contada, que o tempo em desigual revestimento concede a quem esteve em presença, a transformação mimetizável.
Te ceifa, como quem quer mais que nada. Te busca no basal instante igualitário, todos que com ela formam pacto, de um dia ter vingado na vivência. Ela, que une a todos em destino alvo, teve ali no corpo e corpos outra paragem. Escancaram-lhe a boca, deixando a mesma sem contorno. E das sobras removidas dos buracos, fizeram configuração do diferente. Jaz a morte desse corpo um dia inteiro, que agora repartido em vários se apresenta. Para quem um dia se aventurar em procura, depositam-se abaixo, nas paredes das catacumbas dissolventes.

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