O que você deixou para trás?

Eu vou te avisar, que essa é uma postagem bonita, sincera e verdadeira sobre o atual momento em que vivo. E ainda te digo, ela está linkada a um site que me enviaram via um grupo de discussão. Quando o acessei, a pergunta me pegou em cheio, e me identifiquei por completo a ele. O site : http://www.whathaveyouleftbehind.com/ merece ser visitado por você.

Quando comecei a escrever essas coisas que aqui se encontram no maquinomovel, era tudo um meio e uma terceira tentativa de pôr um blog movente para funcionar através das escritas que guardava em minhas gavetas e que de alguma maneira ficavam resumidas ao desconforto de pensar que eu estava sozinho no mundo por fazer assim. Aos poucos fui tomando pé disso na medida que o blog era acessado, assim como ia encontrando escritos de outros terapeutas ocupacionais que "autorizavam" isso.
Quando a escrita emplacou, eu me vi absurdamente criando algo que sentia me contagiar por completo. Algo que ressoava em mim uma certeza que bem não tinha antes. A de que abandonava uma forma de tomar ciência oficial e de produzí-la, e passava pra um território incerto do comentário e da opinião enquanto escrita.
Eu deixava para trás, alguém que estaria na academia e criava uma outra forma de "máquina de guerra". Nesse sentido, nada mais verdadeiro e nômade do que essa maneira de produzir imagens e palavras.
Postei o pensamento da maquinoativação em seus desenhos originais, em seu germe, e aqui ia aos poucos confeccionando seus modos de fazer e se articular na prática. Nesse sentido, deixei para traz o modo de fazer acadêmico que não mostra a quem acessa os informes e infomações, o modo como a mesma foi efetivamente realizada. Não mostra a parte mais viva do processo.
Para quem já leu uma tese, sabe bem que há uma parte da mesma que assegura isso num depois. Dá-se através do denominador : METODOLOGIA. Hoje, quando te escrevo isso, deixo para trás essa maneira de assegurar a informação. Sei de seus préstimos a humanidade, sei parte de seus desdobramentos históricos simplesmente ao pesquisar ilustrações. Isso mesmo, aqueles desenhos que orbitam nas bordas dos textos. E tudo isso que nos assegura hoje, é fruto do Iluminismo, das enciclopédias, da forma como o conhecimento foi sendo categorizado, deixando as imagens que ocupavam um grande papel e que foram aos poucos sendo diminuidas e asseguradas pelas letras através de legendas que as mantinham engessadas ao mesmo tempo que lhes diminuia os valores projetando ás mesmas apenas interesses pedagógicos/educacionais. Não foi assim que você aprendeu a ler e escrever?
Pode ser que na medida que eu te escreva isso, as coisas que te comunico não fiquem muito claras (nem pra você nem para mim), mas isso não faz com que elas deixem de ser autênticas. E uma vez escrevi que nós, terapeutas ocupacionais, fazemos ilustração. Sabe o porquê? Porque, daquilo que vejo em muitas obras publicadas ( e isso não é só da T.O, mas que estamos nesse barco quando assim fazemos, estamos) a imagem tem uma valorização secundária em detrimento de se assegurar o discurso feito. O que rendeu até uma indisposição minha com algumas pessoas ligadas a academia. Não que eu pense isso da ilustração que elas pretendiam fazer de seus discursos através de imagens produzidas por outros, pois vejo que a imagem e o texto são linguagens distintas que tentam "conversar entre si", mas mesmo assim, são diferentes. E nós, que nos ocupamos da análise das atividades humanas, acabamos por "eleger" (através de uma escolha hierarquicamente constituída pelo discurso) as palavras como mais "importantes" que as imagens produzidas. Continuamos dando as imagens um espacinho nas bordas dos ditos, e olhe lá.
É como se a gente pegasse a produção artística das pessoas, e recortasse a mesma pelo crivo da análise e do discurso terapêutico, e depois disso, quisesse a mesma ainda inteira, para assegurar na colagem e edição do recorte a integridade da arte. Ai de nós, porque esse salto é deveras perigoso, causando na extensão do produtor dessa imagem uma morte dos possíveis horizontes através da bitola das palavras.


Há poucos dias que voltei de uma viagem. E uma viagem é sempre aquele movimento que te retira do lugar por um tempo, te suspende as referências, e quando você volta, as coisas não são mais a mesma. Eu fiquei admirado com a quantidade de obras humanas que retratam a questão do fazer. Tudo aquilo que vimos nos livros de história, de inscrições egípcias, de desenhos e utensílios pré-históricos, de coisas parecidas acontecendo a homens de diferentes civilizações, de como a pintura foi se elaborando, do rompimento impressinante da mesma ao surgir a fotografia... tudo era tão verdadeiro, tudo estava ali na minha frente, e provava que as pessoas foram mesmo se edificando através de suas faberdiversidades. Tudo isso está afirmado na cultura do ser humano, o modo como agimos, muito mais do que as línguas e palavras, penso eu.
As imagens e obras são mais do que representações e expressões, são objetos com os quais o ser de cada um, ao se relacionar, acabam por desembocar em zonas de espaços e tempos vividos na existência. De certo modo asseguram e perpetuam as linguagens, mas ultrapassam isso gerando encontros e efeitos intransponíveis a mim nesse momento enquanto um saber linguístico-verbal.

Pra não me alongar demais por hoje, quero te dizer que os pardais em Paris, se aproximam das pessoas.
abç
andré


Comentários

Marcia Misawa disse…
André, eu me senti sentada na calçada do Odilon conversando com você ao ler este texto. :-)
O lance das viagens, a alusão à ilustração e... até dos pardais. Pois aqui na minha cidadezinha ao lado de Madri os pardais sentam-se na sua mesa da lanchonete para roubar seu sanduíche e outro dia até entrou um na minha sala, estava todo tranquilo olhando os DVDs da estante.

abraço!

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