CARNAL


(dia 1, ilustração, andré nunes, 2009)

Sigo, como quem adentra um mote de estar na berlinda exposta. Parto dessa trincheira, onde enfrento os medos e receios de ter na carne e nos sonhos os únicos territórios possíveis de vida. É que um passo dado rumo ao indevido, rumo ao inesperado, traz no bojo do ato percorrido uma definição. Aventuro-me. Como se eu fosse um lento traquejo, um inseto metafórico, um sorriso animalesco frente a presa a ser destroçada. Nesse instante todos os pensamentos que povoam o ser incerto somente averiguam aquilo que tanto temo em mim. A carne pensante que assenta sentidos é de uma inteireza deveras impenetrável. Apenas sinto seu seguir diário. Entre as fomes e os fossos de coisas mal digeridas, de lados compactados, de forças por vezes bestiais. Dou a isso tudo um basta, como se um invólucro de letras freiassem a matéria que pulsa em mim. Meço esse destempero numa tentativa estranha de fazer com que tal parte se aquiete, como se entre tantos eu ainda tivesse que ser obrigado a me desculpar porque não temo ser. A sua constância, a sua exigência se transformam em algo de bizarro som. Desordeno o em mim feito. Se por ordem ainda cativa lugar, é que na carne que sustenta meu verbo, sou eu o mandante. Por essa sigo, como quem adentra um mote de estar na berlinda exposta.

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