Segue o FLUXO.



Andava pela rua, a caminho do trem.... o trem que hoje me leva ao centro, antes me levava a estação Estudantes. E cantarolava frases e trechos da música relembrada ontem... "prepare o seu coração...". De repente me vem à memória A ESTRADA E O VIOLEIRO, aqui em anexo pra você relembrar ou conhecer. Imediatamente na cabeça surgem momentos vividos com duas pessoas a quem sou muito grato, que um dia me presentearam com uma fita K7 na qual encontrava-se essa música.
Assim que me formei na faculdade de Terapia Ocupacional, Denise Benante e Sueli Benante me convidaram para trabalhar com elas no Ambulatório de Saúde Mental de Mogi das Cruzes-SP. Era esse meu primeiro trabalho registrado como terapeuta ocupacional.
Lá fui muito bem recebido, muito aprendi e tive aval para mostrar que, se havia tantas coisas que eu podia não saber no início da carreira, teria que descobrir em mim humildade suficiente para reconhecer isso. Gostava de ali trabalhar, na montagem meio instalada num jeito de funcionar aberto e intenso de um ambulatório de saúde mental. Assembléias, grupos e oficinas, idéias e projetos da formação de uma associação - " LOUCOS PELA VIDA" .
A equipe composta por pessoas muito amadas e atenciosas. Rita, que alegrava as pessoas por ser dona de uma risada inconfundível, daquelas gostosas de muito se ouvir. Teresa que desenvolvia a arte de saber contar histórias e estórias sufis, tal qual Sherazade, capturava-nos a todos em contos que nos faziam perder o sentido nas idas e vindas de carona à capital. Ângela, com quem construí um grupo chamado COMUNIQUE-SE, nesse abrangía-mos formas tantas disponíveis ou inventadas na tentativa de nos aproximar-mos daqueles sujeitos descritos em sintomas como: embotamento afetivo e isolamento social. Cláudia, dona de uma tranquilidade ímpar.
Denise Benante e Sueli Benante,parentes entre si, mas de mim, duas amigas de profissão. Duas terapeutas ocupacionais batalhadoras, dispostas a transformar pensamentos em ações, atividades, vivências e experimentações, planejamentos estratégicos para construção do que podia e pôde se tornar real, a criação de uma associação civil em saúde mental referenciada pela liberdade e cidadania. 
Metralhar o discurso Basagliano antimanicomial em alguns casos pode até fazer sentido, mas nada saber fazer além disso também é um impeditivo institucionalizador. E cá entre nós, a faculdade nos dá um poder de desconstruir os pensamentos e situações... mas depois... bem depois é que a gente (um tanto mais maduro) percebe, que pouco se vive ao destruir e criticar em vão... para quê? Pelo simples exercício crítico esvaziado de sentido aprendido no banco da escola, que de tanto acidificar as idéias dos estudantes, acaba gerando pessoas cuja arrogância do pensamento impede de ver um palmo a frente do que está a ocorrer?  Seguem sem visão suficiente e sem saber escutar fatos, demandas e desejos?
  
Possso dizer que tive sorte de ter trabalhado e aprendido a perceber essas coisas com as Benantes. Pessoas as quais tenho tamanha admiração e respeito. E se sigo nesse fluxo de busca, nesse fluxo de mergulhar em busco de algo autêntico tenho nelas uma lembrança marcada de autenticidade.
E por essas e outras, por saber que há amorosidade das pessoas naquilo que fazem por gosto e dedicação é que consigo apaziguar as forças de meu medo e meu terror. Dessa coragem em sobressair-se do que pode parecer adverso, e inventar outras tantas coisas, é que também afirmo-me. Outras ondas de tantas guerras  batalhadas cotidianamente em surdina e cujas  revoluções, microcósmicas, ao eclodirem transformam-se em universos referenciais de afeto, memórias e aconchego. Sentimentos aos quais palavras não conseguem traduzir.
E a máquina de guerra aqui, operada por meus Ares, pode contar com meus vividos, em tempos onde as descobertas do mundo se faziam ao aprender na prática do fazer.
abç
andré  
   

Comentários

eneida disse…
So' de ler eu consigo ouvir voce e a Denise discutindo ate' sair fai'sca...saudades

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