NAU DOS LOKO

OLÊÊÊÊÊ, oLÁÁÁÁ... o chacrinha tá botando pra quebrar! 
Voltamos a programação normal.
Difícil, se não improvável, sair o mesmo depois que a gente se reencontra com o passado, que a gente atualiza tanta coisa, escuta outros pontos de vida e percebe que mudar é um processo constante. Caminhante não há caminho, ele se faz ao caminhar. 
Hoje cedim fui. Saí pela cidade natal, sem rumo, e ver onde o “pensar com os pés” ia me levar. Fui parar na porta do antigo Hospital ANCHIETA, aqui em Santos-SP. Lugar onde uma onda DEMOCRÁTICA estourou nos mares da saúde desse país.
La STULTIFERA NAVIS ( nau dos loucos)  disfarçada de cuidado, que por tantos anos encalhou por aqui, que desumanizou tanta gente em seu interior, que foi desmontada por uma trupe-pirata-louca-corajosa quebrando grilhões e preconceitos, abrindo a força as portas da cidade pro convívio pleno com a diferença e sua loucura, dando voz aos sobreviventes dessa tragédia pelas ondas radiofônicas TAMTAM, co-criando uma nova cidade reabilitável ... 30 anos depois, tendo progredido através da infiltração de tantas práticas e ideias desse cuidado Brasil afora... ao mesmo tempo assiste uma estagnação (e por vezes recuos) na forma.
Mas se você olhar bem, vai ver que não tem como apagar isso do processo de vida da cidade. Virou cultura, é reconhecível na alma da cidade de plástico (Santos mudou, e ao mesmo tempo nem tanto assim- tá mais glamourizada, o porto e seus trabalhadores mais silenciados, porém vc vê a cara do povo, o jeito mais solto de se vestir e se portar, e agora temos ciclovias e bikes atravessando a cidade... aquele vespeiro de corpos e bicicletas saindo da balsa é algo indescritível... uma beleza só, é gente em estado puro de força, gente ocupada em se mover. Vá até o ferry boat ver a chegada de uma balsa no começo ou final dos dias. Depois me conta!)
Eu fico abrindo esses parênteses na escrita e me empolgo! Tava aqui pensando se esse espaço aberto no texto seriam RUÍDOS, INTERFERENCIAS OU ESPAÇOS POTENCIAIS... vou deixar registrado pra pensar depois com calma, quando esse projeto terminar. Faltam 8 dias, tamo mais pra lá que pra cá...
Voltando, ao “pensar com os pés”, na realidade é uma espécie de integração que dá ao corpo a possibilidade “de se fazer” durante a atividade, sabe? como perceber o passo, a cadência, o sentido pra onde as pernas estão levando, as dores e sensações que se apresentam no instante da caminhada, uma práxis auto-poiética, consciência corporal ao se inventar no instante da ação. COISAS DE T.O. 
E minhas pernas, chegando perto do canal 2, deram um toque pro meu olho-pensamento. Hálux perguntou a Íris: _ como será que tá o terreno onde o Anchieta foi construído? Ainda tá lá? Já foi derrubado dando ares novos à cidade de plástico, pra ela se apossar e construir mais uma big tower? Ou terá sido derrubado sobrando um espaço a ser ocupado por outramentos arquitetônicos duvidosos? O prédio terá sido transformado... mas que transformação seria possível a um lugar que era chamado de “ CASA DOS HORRORES”? Fico viajando se o Dino Menezes, um cineasta daqui: ALMA SANTISTA tb... conhece alguma história de terror sobre aquele lugar. 
Meus pés, então, me levaram até a esquina onde o prédio do hospital se encontrava. A construção-prédio ainda está lá. Caindo aos pedaços. Um tanto de tapumes pintados de verde cobrindo parte da fachada. Mas a porta central, a porta central estava aberta, escancarada. Foi ocupada por algum grupo de pessoas, parece um prédio residencial popular, ou lembra algum serviço meio escondido. Não tive vontade de entrar. A foto da porta me bastou como símbolo.
Na volta eu fiquei refletindo se a existência desses lugares nas cidades é algo importante. Desses prédios que parecem a caverna de Platão, onde projetamos sombras pensando ser o real. É como se a gente reencontrasse temidos faaantaaaasmaaaaas, ao invés de espíritos de luz! 
Olha que doidera, não sei por que (agora escrevendo até sei- tem a ver com o peso da INSTITUCIONALIDADE), mas na hora pensei no Carandiru em São Paulo... 111 presos, indefesos... implodido, abrindo um super espaço na forma de um parque ecológico, que talvez as gerações mais novas não acessem como aquelas que viram os prédios ali, que ao passarem pela estação CARANDIRU do metrô ainda visualizem na memória ... tantas janelas com grade, roupas penduradas, braços e pernas de presos para fora, vida pulsando em confinamento. 
Não tem mais O ANCHIETA, ainda bem! Mas ainda temos “lógicas anchiéticas de cuidado” espalhadas no interior de tantos serviços substitutivos, no corpo-ideia de tantos profissionais e principalmente nas visões de vida que insuflam o fascismo como o melhor dos mundos. Nessa hora namasCRAZY, bom a gente lembrar sempre de um mantra Ianizado (Iana Profeta 💖 ) nos corações e mentes desse povo batalhador:
 NENHUM PASSO ATRÁS, MANICÔMIO NUNCA MAIS!!!
até amanhã.

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