Ninho de nós de Isadora Cardinalli, editora Hucitec



 

Querida, Isa.

Acabo de ler pela primeira vez seu Ninho de Nós. E queria, antes de começar essa carta, te elogiar pela beleza de obra entregue aos leitores, e também te agradecer por ter transformado esses seus escritos, resultado de sua tese que deve ter ganhado reconhecimento máximo pela banca, em livro. No sumário, gostei das palavras pássaros, mas em especial dos verbos utilizados para cartografar seu processo. Embora não esteja presente, há um verbo que “bordeja” nas entrelinhas do texto, e nas desse leitor que aqui escreve. Essa palavra verbo habita, e faz querer de quem lê, aquilo que possa estreitar uma ligação entre os saberes experimentados ao longo dessa varredura visual, atividade que ganha força durante o ato-experimental da leitura. Estou falando de:

Resenhar

Do latim resigno, desvendar.  Referir minuciosamente.

E, tomei a liberdade de te escrever em formato público pra contar alguns motivos e diálogos que fiz durante minha leitura. Começo pela própria capa e contracapa, elas suscitam questões pertinentes ao mundo dos trabalhos manuais e ao mundo das artes. Uma coisa que ficou se passando aqui em mim foi: Estaria Isa revelando um emaranhado de linhas dispostas a adentrarem e atravessarem o fino tecido que compõe a malha trama aberta em corte sustentada por um bastidor redondo de madeira, ou estaria disposta a desvelar o avesso da artesania onde por vezes aquilo que está escondido atrás ainda não ganhou conformidade suficiente para ser nomeado como acabamento perfeito? O dilema está posto assim, de cara, escancarando uma multiplicidade de sentidos possíveis a quem se aventure a abrir suas páginas e obrar-se, dobrar-se e desdobrar-se nas bordadas palavras por palavras que compõem seu pensamento.

Há muitas linhas expostas em seu modo de alinhavar as formas dos conteúdos apresentados. A primeira que me chamou especial atenção, e já mencionei lá em cima na carta, foi a escolha singular de puxar verbos, tão importantes e ancestrais na terapia ocupacional Brasileira, para encabeçar cada um dos capítulos.

Verbos como base-pensamento, há coisa mais T.O que isso?  Tenho pra mim que seu livro será referência na formação de futuras e atuais gerações de terapeutas ocupacionais, porque encara uma questão importante da profissão, algo que orbita entre ser bolacha ou ser biscoito kkk , mas que aparece numa pergunta bonita de se acompanhar.  Como é que os terapeutas ocupacionais se referem, ou melhor, nomeiam para si, aquilo que é um dos objetos centrais da profissão? Atividade ou Ocupação? A disputa travada nos discursos veiculados no mercado profissional e nas produções acadêmicas revela uma certa corrida, como aqueles cavalinhos em parques de diversão, mas o mais bacana é ver como você conseguiu costurar essa fenda e fazer disso um grande ato criativo, ou diria melhor, uma grande brincadeira.

Toda vez que fechava o livro, aquela imagem do ninho encabeçada pelo título me fazia lembrar um capítulo de um outro livro fenomenal. Vou aqui tecer algumas considerações e espero que essas conversem com algo aí.

No capítulo IV de A poética do espaço, Gaston Bachelard nos convida a pensar o ninho não como simples construção animal, mas como imagem primordial do habitar. O ninho, diz ele, é a primeira morada-espaço onde os ovos do futuro serão depositados, para ser feito precisa ser moldado a partir do corpo vivo. O pássaro arredonda a forma do abrigo com o movimento de seu próprio corpo, e é nesse gesto que Bachelard encontra o vínculo entre ser e forma, entre carne e mundo. A morada nasce, assim, da intimidade do corpo com a matéria; o espaço habitado é uma extensão sensível de quem o habita. Em outro trecho, vai nos dizer citando Thoreau, que a árvore inteira é, para o pássaro, o vestíbulo do ninho.

Essa construção corpórea do mundo ecoa na própria linguagem de Bachelard, mas vejo isso também em seu texto: suas palavras se aninham umas nas outras, arredondando ideias, criando abrigo para imagens e fazeres. Há, em seu estilo de escrita, um ritmo que faz do texto um ninho de palavras, onde o pensamento repousa e se expande. O filósofo e você parecem construir seus conceitos com a mesma delicadeza com que o pássaro entrelaça galhos , e esse sentido surge mais forte ainda durante a textura poética ao dizer sobre a tal: ATIVIDADE HUMANA.

Essa construção, presente em Ninho de nós, de Isadora Cardinalli, é refletida numa imagem que se desdobra, o “ninho” deixa de ser apenas abrigo e passa a ser atividade de enraizamento humano, uma ação que nos reúne em torno da criação de sentido. Ao contrapor “atividade humana” a “ocupação”, Cardinalli resgata a dimensão poética e relacional do fazer, aquilo que nos liga à experiência do mundo, e não apenas à sua funcionalidade. Nesse ponto, pra mim, seu pensamento encontra-se com o de Bachelard, ambos veem o ato de criar, seja um ninho, um bordado, uma palavra ou uma ideia; como gesto de cuidado e de inscrição no espaço-tempo-vida.

Assim, entre Bachelard e Cardinalli, o ninho torna-se metáfora do pensamento habitado. Uma forma que nasce do corpo, do fazer e da linguagem. Esse lugar onde o humano encontra abrigo em sua própria capacidade de imaginar e construir mundos.

Quero terminar essa carta te dizendo que em muitos momentos, ao ler seu texto, eu encontrava sentidos para aquilo que escrevi na desocupação. Muito bom encontrar ressonância em suas palavras. Muito, muito obrigado.

Axé

André.


Link para compra do livro

https://lojahucitec.com.br/produto/ninho-de-nos-sentidos-da-atividade-humana-em-terapia-ocupacional-isadora-cardinalli/



 

Comentários

Querido amigo André,
Suas palavras têm a intensidade de um abraço caloroso! Você que, há tanto, tem sido grande referência para mim... seu ser, fazer, contar, pensar, rir... ter você por perto anima a minha caminhada!
Que bom que, de tanto me inspirar, saber que eu também posso tramar com você! Essa trama, desejo, diversão na terapia ocupacional e na vida!
Te admiro e te agradeço! Pois não foi fácil assumir muitas das coisas que estão nessa pesquisa/livro, mas foi possível graças à arte, à poesia e à reflexividade, que tenho orgulho de compartilhar com você nesse ninho - que não é programado para ser funcional, mas revela a tessitura e o processo de enraizamento da vida! Amei!!!
Obrigada por esse presente que foi manter o texto vivo, conversando com ele e comigo!