OCUPADO PODE ENTRAR 2 ... – Uma Reflexão sobre o Cuidado como Tecido da Existência (Versão editada e ampliada, incorporando noções de cuidado e multiculturalidade)
OCUPADO PODE ENTRAR 2 ... – Uma Reflexão sobre o Cuidado
como Tecido da Existência
(Versão editada e ampliada, incorporando noções de cuidado e
multiculturalidade)
Terapeuta Ocupacional,
Acompanhante Terapêutico,
Psicanalista
Caro visitante, retomo essa escrita feita em 06-07-2007, nesse
ano de 2025 o maquinomóvel faz 18 anos de existência. A pergunta que originou toda essa
maquinação vinha de uma curiosidade: o que é de seu interesse nessa
busca?
Parto sempre daquilo que aprendo em fragmentos do mundo, e
nem sempre tenho nas mãos aquilo que vens buscar. Mas talvez possamos, juntos,
tecer algo novo a partir do que aqui se apresenta. Se o que te trouxe até então
for de minha competência compartilhar, teremos estabelecido não um limite, mas
um território de cuidado, um espaço onde a escuta e a troca
se tornam gestos políticos.
Percebes? A própria ideia de "competência" já é um
ato de cuidado: reconhecer o que posso ou não oferecer, honrando teu tempo e
tua história. Afinal, o cuidado não é apenas uma tarefa, mas um campo
multicultural, uma prática que nos atravessa desde os rituais ancestrais de
cura até os gestos cotidianos de quem varre uma calçada ou segura a porta do
elevador para um estranho.
Passo a notar que, de dentro de minha razão, há
nichos de maior maturidade e outros ainda em germe. O tempo, esse mestre
invisível, ensina que a tristeza pode ser um convite ao egoísmo, mas também uma
semente de compaixão. Escolho o mundo, sim, mas não como fuga: escolho-o como
quem escolhe cuidar do chão que pisa. Entre o conflito infantil
"eu x mundo", descubro um terceiro caminho: "eu com o
mundo".
E você, visitante? O que te move nesse agora?
Será a busca por respostas ou a coragem de formular novas perguntas?
OCUPAÇÃO É UM ATO DE CUIDADO
Ando pelos dias e noites da cidade em coletivos, e eles me
atravessam com seus paradoxos. Outro dia, um aviso banal num trinco de hotel —
"OCUPADO PODE ENTRAR..." — transformou-se em metáfora. Aquela frase,
gravada num ponto de interrogação, ecoou em mim: quantas vezes trancamos portas
por hábito, sem questionar quem realmente merece (ou precisa) adentrar nosso
espaço?
Ocupar não é apenas preencher tempo ou espaço; é habitar
com intenção. É cuidar do instante como um artesão cuida do barro:
moldando, mas também respeitando sua natureza. Nas culturas indígenas, por
exemplo, ocupar a terra é sinônimo de parentesco, cuidar dela
como se cuida de um irmão. Já nas metrópoles, ocupar um banco de praça pode ser
um ato de resistência ou de solidão.
O QUE VOU DEIXAR PARA ESSA RAÇA DE HUMANOS?
Acordo entre as viagens do Expresso Brasileiro (esse trem
alegórico que todos pegamos) e me pergunto: qual é a herança invisível que
carregamos? Não falo de monumentos ou obras, mas dos rastros de cuidado que
deixamos ou deixamos de deixar.
- O cuidado como memória: o modo como uma avó envolve o café da manhã em pano de prato para mantê-lo quente. A palavra límpida que explode na boca de alguém que frente ao Alzheimer sofre por não conseguir mais expressar-se com precisão.
- O
cuidado como conflito: o debate sobre quem tem direito a
ocupar as ruas, os corpos, as narrativas.
- O
cuidado como silêncio: a pausa para ouvir o rio antes de
responder. Contemplar.
Você já se ocupou dessa pergunta? Ela é pré-ocupante, sim,
mas também urgentemente coletiva. Nas palavras do poeta Manoel de
Barros: "O futuro é uma cerâmica inventada agora".
MEU CORPO É DE PASSAGEM. E quando digo corpo,
falo da carne, dos pensamentos, das pegadas que deixamos no ar. O cuidado é a
única moeda que não envelhece. Ele se traduz em dialetos diversos:
- Para
o enfermeiro, é assepsia e toque.
- Para
o cozinheiro, é tempero e paciência.
- Para
o artista, é deixar a porta entreaberta para o inesperado.
E assim, entre circulares noturnos e interrogações penduradas
em portas, descubro que "OCUPADO PODE ENTRAR..." é,
no fundo, um convite: entre, traga seu cuidado, faça morada.
P.S.: A vida é uma ocupação temporária. Que
possamos, pelo menos, suavizar as bordas do lugar onde outros hão de se sentar.
(Texto original revisitado em 2025, com inserções que
dialogam com conceitos de cuidado em Joan Tronto, Djamila Ribeiro, e tradições
como o Ubuntu e o Bem Viver.)
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