Cursor


Um salve a você, visitante, que vem aqui me ler!

Digo assim, de passagem: já era quase noite quando saí da Morada. A cada passo em direção ao metrô, sentia uma alegria afirmativa, meio byte afirmação confiante, de que, enfim, tinha conseguido compartilhar. É. Acabara de falar sobre parte dessas coisas, guardadas em silêncio embora expostas na rede. E como quem se mistura ao produto durante o processo, a exposição do criado era outro modo possível para isso tudo voltar a ganhar vida.

Parece que a máquina voltou a funcionar.  Sempre esteve aqui, disponível para acesso e, de vez em quando, recebia alguma manutenção da minha parte. Um texto esporádico aqui, outro ali, mas eu não a colocava para trabalhar como antes, já fazia um bom tempo.

Vou aprontar um de repente, tipo... eis que surge um convite feito... novamente pela Quarentei para um evento da Abrato-SP, em julho de 2026, e conversamos sobre. Ela me contou que foi chamada para falar sobre Terapia Ocupacional como Produção de Vida (TOPV), e mais uma vez com sua sempre generosidade marcante, estendeu o convite a mim: “Queria que você falasse também. Pode ser um caso para discutirmos com os participantes. Mas queria mesmo que você considerasse falar sobre a Maquinoativação.”.

Num primeiro momento, confesso que tremi na base. Sabe como é o coração de um ansioso-inseguro. Enquanto faz TUM-TUM provê perguntas duvidosas. Será que consigo falar sobre isso tudo de modo a transmitir o recado? Como que afrouxo a autocrítica que por vezes recai aqui, vinda desse censorzinho fajuto que me apequena, dizendo que isso, em parte, é uma viagem maluca e própria? O que será que será disso, que até então ironicamente nomeava de “uma loucura aquilo lá”?

Respirei fundo; um ar de “é de verdade”, me invadiu a fuça. Precisava fazer essa passagem, e se me fecham a porta hão de abrir uma janela, ou qualquer outra passagem para que uma saída aconteça; fiz isso a vida toda, principalmente com meus pacientes. Porque não haveria de fazer por mim também? Era isso, trazer à tona aquilo que levei anos pra construir como ideia e dar uma formatividade possível de compartilhamento.

Mergulhei nos arquivos. Não só nos do blog onde atualmente tenho selecionado parte dos escritos (mas essa parte eu te conto logo mais). Fui à pasta T.O>aulas> slides m@. O trajeto que havia construído para o curso “ACIEPE: Ocupado pode entrar”, promovido pelo AHTO-UFSCar em parceria com outras universidades, no meio da pandemia em 2021. 

Te importam esses detalhes? Parecem meio descabidos no contexto. Qual é o problema? Que pergunta bacana essa. Aprendi dias atrás que a vida real é cheia deles, de detalhes, e que, quando esquecidos no silêncio, deixam de contribuir em algum nível para o suporte-força da experiência e da escrita, também.  E agora, que remexo essa matéria palavra-escrita-grafia-imagem, enquanto seleciono textos e arquivos de anos, vou me dando conta de um volume de coisas não publicadas. Percebo também materiais que tomaram rumos menores em outras plataformas e redes sociais, além de conteúdos que poderiam muito bem caber em novos lugares. Por fim, encontro coisas que criei pela metade porque o tempo do trabalho-sobrevivência era mais urgente que este daqui.  

Sei que ao rever o material percebi que algo estruturado sobre o tema já tinha ganhado forma e prumo. E agora, que essa coragem de expor novamente ganha passagem, vejo que talvez o censorzinho me tenha invalidado mais do que eu precisava. Ao mesmo tempo, fico feliz por ter dado margem às minhas sandices criativas. No fundo, ele não é tão poderoso assim.  

Cheguei de manhã ao evento, ocorrido na Morada das Percepções, no Butantã, São Paulo. Devia ter umas 30 pessoas na sala. Gelei. Primeira vez que apresentaria pessoalmente, para quem não me conhecia (embora poucos já tivessem ouvido falar), essa maquinarama inventada.

Mari falou de manhã e percebi quão conectados eram os temas trazidos por ela ao que eu haveria de mostrar depois. Foi muito bom assistir ela expondo questões que também levaram anos para serem articuladas por meio de palavras-gestos-presença. Posso afirmar: é impossível escutá-la e não se sentir movido-movente sobre a vida. Suas aulas jogam luz sobre os pensamentos-afetos-percepções-presenças de quem ali está. Comigo, nunca foi diferente.

À tarde, após um almoço caprichado preparado pela trupe da Morada, Mari aprofundou alguns conceitos e passou a palavra a Marcela Nardo, que apresentou um caso clínico sob a perspectiva TOPV: criança-território existencial-brincar-crescer.  

Chegou, então, a hora deste escriba falar. Conectei o notebook na TV e comecei contando como que a ideia surgiu nos encontros do Coletivo de Estudos Terapia Ocupacional como Produção de Vida, focando na forma libertária com que nos dispúnhamos a ativar nosso querer estudar coletivamente.

Passei pela perspectiva caleidoscópica, pela esquizo-ocupação- bricolagem- força- campo de forças- máquina- maquinoativação- fenômeno do fazer- dividendos e divisores- rede relacional-potências- ex.poentes, phorma-poiesis-pathos-práxis... a medida que ia explanando e planando o voo da máquina, trazia exemplos pessoais, costurava com o caso que Marcela recém havia apresentado, foi ali maquinando o acontecimento. Era eu mostrando, pessoalmente, o pensamento em ação.

Mas quero registrar aqui algo que aconteceu comigo durante a exposição. À medida que explicava como as peças da máquina se articulavam, do que cada uma tratava, como operavam em conjunto, tudo ao mesmo tempo agora, uma coisa de cada vez, via a reação das pessoas. O olhar de curiosidade crescendo, algumas pareciam que o rosto se iluminava, outras sorriam um riso sereno de aprovação, outras levantavam as sobrancelhas como um sinal-questão, eu via que as pessoas estavam compreendendo do que se tratava, a coisa parecia mais fácil que antes, a coisa era visível para mim. Senti uma emoção intensa, forte. Eu estava sendo aceito pelos meus pares novamente. Foi muito bom encontrar um lugar no mundo para trocar. E aquilo me encheu de uma confiança tamanha, que, nos passos dados até o metrô, falava a mim mesmo em pensamento-emoção: Eu sei um caminho.  E é tão bom não se sentir perdido na profissão e se sentir possível na vida. É tão bom ser aceito como se é, quando pensamento e prática são verdadeiramente irmanados. É tão bom quando a vida produzida nos bons encontros nos enche de mais vida.

Eu sempre zoo dizendo que esta é minha tese de doutorado nunca defendida. Contudo, algo que a Gabriela disse me fez refletir: ela perguntou onde aquilo estava publicadoe sugeriu que eu deveria publicar. Eu sempre achei que o blog bastava; tudo já está aqui há anos. Mas entendi o recado. Talvez eu precise rever minhas estratégias de produção. E já que tinha começado a mexer nos arquivos, talvez tudo isso merecesse ser transformado em outra coisa. 18 anos se passaram desde que essa máquina começou a rodar. E como falei lá no evento, não é uma relação tranquila, porque quando essa escrita ganha ativação, a coisa parece meio infernal. Me toma de um jeito genioso, e dura um tempo grande-estendido aqui por dentro, pede um espaço maior para acontecer. Volto a ter vontade de estudar coisas novas e de escrever para o futuro.

É, talvez seja esse o momento. Acho que o curso abriu uma porta, uma comporta, e não só uma janela. Percebo que a morada, ao pedir entrada, ofertou novas saídas.

Gd abç

André miolo

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