A obra faz parte de uma coletânea da artista que retrata suas memórias autobiográficas de quando era criança. Ela já conseguia ir sozinha à escola, mas só saia de casa ao receber o beijo de despedida da mãe e esse beijo ia ressoando caminho adiante. O que pode um beijo de mãe? Para escrever esse texto, me dou conta de que não apenas a imagem, mas a sensação instalada como uma poiesis ressoa aqui em mim também; em mim, e também na obra e na perspectiva apontada pela artista. Um beijo pode nos fazer sair de casa sentindo que há alguém no mundo que nos dá sustentação. Carregar o beijo numa lembrança de trajeto, seguir com ele podendo nos fazer mudar (ou permanecer) no rumo de uma caminhada. Uma bússola no mapa de intensidades do percorrer instalada através do ato do beijar, instalada no corpo sensível bochecha-memória da criança.
Volto a olhar para a imagem como quem quer brincar com ela. Essa me fez interromper parte de minha rotina, tal qual a primeira vez que a vi e fiquei siderado nela por um bom tempo. Uma atividade aparentemente banal, essa de olhar imagens na internet, e mesmo assim me permitiu produzir uma alteração que não estava prevista em meu contato inicial. Sinto estar nesse momento em que escrevo formando forças... sigo aqui ativando outros modos e meios de me relacionar não apenas com a imagem, mas contigo também, visitante.
Imprimo ela em tamanho A4, transponho a matéria do virtual para um outro suporte concreto, tenho agora um exemplar pixelado (pela qualidade baixa do arquivo encontrado) em papel, quero ter ela por perto, segurar nas mãos, aproximar ao campo dos olhos e fazer uma varredura mais demorada. Deixar o olhar passear por entre os traços e composições. Instalar um território-força, entre aquilo que pode ser medido e aquilo que apenas pode ser percebido pelos seus efeitos. O trabalho de Minjeong An, produz uma espécie de curto-circuito maquínico em mim.
A artista toma uma experiência bastante simples de quando criança e a transforma através de seus grafismos, signos, símbolos, diagramas, etcteteras. Em vez de tratar essa experiência apenas como lembrança afetiva, ela a aproxima de nossa já conhecida fórmula da física. F=ma, a segunda lei de Newton. Força que movimenta os corpos que passam a serem percebidos, também, como um jogo de forças invisíveis, beijo em devir. Ou como a própria artista sub titula o chamado da fórmula tradutora do poder do beijo de LOVES LAWS OF MOTION (algo como As leis de movimento do amor, as leis físicas do amor).
A operação é simples, simples e poderosa. Na obra, a fórmula criada para descrever relações entre força, massa (mothers lips= lábios da mãe) e aceleração (mothers fight= mães luta) é deslocada para outro território. O beijo em si ainda não existe, está em devir, não é representado, amplia-se para além de apenas um gesto de afeto, passa a funcionar, a expor outras coisas, operando como mais uma força compositiva de toda trama que se passa através do meio imagético. Os afetos não podem ser literalmente calculados, no ato (da imagem, da lembrança, do gesto do beijar) há linguagens se produzindo, e muito além de explicar determinados fenômenos, olhar para isso pode nos colocar em contato com aquilo que normalmente escapa à tantas medida.
Coloco essa coisa de olhar para a imagem em ressonância com pensar a maquinoativação, que tem também na F=m@ uma inspiração. Quando vi o trabalho de Minjeong An com toda essa inscrição de forças atravessando a relação entre corpos, projetando campos gráficos no instante do gesto-ação do beijar, carregando poéticas e sentimentos no acontecimento, isso tudo me fez perguntar se havia alguma aproximação com o trabalho aqui da Maquinoativação.
A Maquinoativação parte das atividades e caminha para as ativações, um modo de criar possibilidades outras de construir uma espécie de campo de análise das mesmas. E sendo análise, não é possível tomar as atividades como algo encerrado em sua finalidade. Afinal, uma atividade pode ser uma entrada, ou uma saída, para uma rede de relações. Nela estão os materiais, os gestos, os objetos, as ideias, os desejos, os afetos, os hábitos, as histórias, os outros, os agenciamentos e também muito daquilo que ainda não sabemos nomear. Uma atividade, nesse sentido, não é somente aquilo que fazemos, é também aquilo que acontece enquanto fazemos.
Um gráfico pode ser um gráfico, mas pode ser também memória, matéria, hábito, cuidado, objeto de apreciação, elemento de uma paisagem, instrumento de uma conversa, quem sabe até suporte para um cafezinho. Caminhar pode ser deslocamento, mas pode também ser pensamento, encontro, repetição, fuga, descoberta, trajeto, mapeamento. Arrumar uma pessoa afetivamente para ir até a escola pode ser organização, mas pode também ser uma forma de construir uma relação com o espaço, com o tempo, com os movimentos que pendem de dentro para fora/de fora para dentro do consigo mesmo.
A Maquinoativação procura justamente criar condições para que essas relações apareçam. Se tornem cognoscíveis, visíveis, acontecentes. Por isso, algo me diz que seja possível pensar a máquina não como aquilo que produz uma resposta, mas como aquilo que produz relações, relações e perguntas.
Em O poder de um beijo, de Minjeong An, penso que ela faz algo semelhante, ao construir uma passagem entre campos que normalmente não estariam juntos. Ali, física é afeto, fórmula é memória, força é beijo, movimento é cuidado, grafismo é sobreposições orbitando num jogo de acontecimentos; compondo uma trama imagética que passa a operar como uma espécie de dispositivo poético.
Volta-me à memória da época em que trabalhei nos projetos de arte-saúde desenvolvidos no MAC-USP em parceria com o pessoal do PACTO-USP. Lá aprendi uma metodologia de ensino denominada : Metodologia Triangular do Ensino da Arte. Lembro que na pós graduação desdobrei os trabalhos de Volpi, Waldemar Cordeiro e Hélio Oiticica como experiências compositivas a serem praticadas na interface arte-saúde.
A Abordagem Triangular do ensino da arte, sistematizada por Ana Mae Barbosa, propõe uma articulação entre leitura das obras, contextualização histórica e fazer artístico. A partir desse triângulo queria um dia me aproximar de O poder do beijo, de Minjeong An e propor uma triangulação dessa. Por enquanto, vou ficando apenas com esses escritos aqui que penso serem uma já aproximação.
Na leitura imagética, encontramos uma obra que utiliza diagramas, linhas, símbolos e a conhecida fórmula F=ma para dar forma a uma experiência aparentemente simples: a força do beijo de despedida da mãe. Os corpos são esquemáticos, traçados por finas linhas, como um boneco de palito ampliado. É no rosto, na face, que a grande visibilidade aparece. Tanto no da mãe, cuja área da boca tem todos seus músculos da área bucal desenhados/mapeados detalhadamente, quanto no da criança onde a região da bochecha contém um símbolo alvo de recepção da força amorosa vinda da mãe. Ao redor da cena principal vemos gráficos medindo intensidades presentes no ato, vemos também um mapa do trajeto da casa para escola percorrido pela criança.
Na contextualização, percebemos o deslocamento produzido pela artista ao aproximar linguagens presentes no campo do design gráfico a vivências que transcorrem em seu corpo-memória. Coisas que passariam normalmente separadas (ciência e afeto, cálculo e memória, fórmula e experiência cotidiana) ganham em seu modo de fazer importante relevância. Minjeong estudou design gráfico por influência de suas irmãs artistas, como também passou pela experiência de ser mãe.
No fazer, embora eu pouco tenha trabalhado com corel draw na época em que fazia camisetas, essa operação se torna uma provocação. Como poderíamos criar outras formas, diagramas ou relações capazes de tornar perceptíveis as forças invisíveis presentes em nossas próprias atividades?
Achei melhor produzir esses escritos aqui, e então a obra se encontrou com a Maquinoativação. Na escrita, percebo que a atividade de olhar para a obra deixou de ser apenas algo a ser observado ou representado, passou a funcionar como ponto de entrada para uma rede outra, dialógica (quem sabe).
Assim, ao lado de ler e de contextualizar, penso que o fazer aqui proposto é o de Maquinoativar o acontecimento, introduzir perguntas que possam disparar outros olhares. Começo levando em consideração a questão, o que podemos ativar a partir desse encontro? Aqui, a obra deixa então de ser apenas objeto de apreciação e torna-se parte de uma máquina relacional, um ponto a partir do qual outras imagens, experiências, conceitos, afetos e atividades podem começar a se conectar.
Imaginar a Maquinoativação como uma espécie de fórmula que coloca elementos em relação para que alguma coisa aconteça entre eles, e aqui entram em campo os expoentes Phorma, Poiesis, Pathos e Práxis, é como tentar criar linhas de associação, composição e fuga para aspectos que por muito ficam invisíveis e indizíveis em nossos modos de olhar para aquilo que fazemos.
A Phorma pergunta pelas materialidades: de que é feita a situação? Quais objetos, espaços, corpos, texturas e formas estão presentes?
A Poiesis pergunta pelo que pode ser criado, inventado, imaginado: que outras possibilidades aparecem quando esses elementos são colocados em relação?
O Pathos introduz aquilo que nos atravessa: desejos, afetos, incômodos, lembranças, necessidades, estranhamentos.
A Práxis devolve tudo isso ao fazer: o que se modifica? Que ação pode nascer daí? O que fazemos com aquilo que apareceu?
Não se trata de quatro gavetas onde uma atividade possa ser guardada. São maneiras diferentes de fazer uma mesma situação começar a se mover.
Quando percebo, me dou conta que a Maquinoativação tem mais afinidade com uma máquina poética do que com uma ferramenta de classificação. Ela não pretende dizer definitivamente o que uma atividade é. Pretende produzir condições para que uma atividade possa ser vista de outro modo. Nesse sentido, a obra de Minjeong An oferece uma imagem particularmente bonita para pensar o que uma máquina de ativação pode fazer. Há forças invisíveis atravessando nossas atividades. Há forças nas coisas, nos encontros, nos hábitos, nas palavras, nos espaços que habitamos, nas experiências que nos passam.
O beijo de Minjeong An movimenta uma criança em direção à escola. A Maquinoativação procura movimentar o pensamento em direção àquilo que acontece enquanto vivemos. A aproximação mais interessante entre os dois trabalhos é que ambos nos lembram que uma coisa pode carregar uma força que não está visível em sua aparência. E que, às vezes, para perceber essa força, é preciso apenas mudar a forma de olhar. Ou, talvez, construir uma pequena máquina para que ela apareça.

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