As masculinidades na T.O. COMPOSTEIRA-1


 Sim, sim.
vamos começar. Veja só, acabei de reler uns textos antigos aqui do blog. tanto assunto literato, coisa escrita com ranço criativo e liberdade... na busca por antigos links pra reativar a máquina, me revi, já tô em outra vibe. Vou fazer desse uma composteira de idéias. nada nada finalizadas, mas em franco processo de decomposição... só pra agregar valor de troca. Enfim reservo o lixo, descarto o chorume, cultivo adubos... verde, reciclado e belíssimo.

Vivemos numa sociedade plural num jogo de forças representativas, mas que em seu bojo carrega com mais peso um discurso machista, patriarcal, heteronormativo, producionista, neo-liberal, self-made-man ou algo que lhes valha como lugar de sobressaída. As questões de gênero atravessam-nos muitas vezes sem que percebamos, ou paradoxalmente, as percebemos na flor da pele cotidianamente a todo momento. É que talvez sejamos ignorantes em saber lê-las com as devidas lentes. 

Essas questões aparecem tanto nas falas/discursos/comunicações verbais, quanto nos atos/ações/atividades/ocupações/comunicações não verbais. Sejam através de comportamentos, hábitos, rotinas, jeitos e modos de existir e se expressar, opiniões, desejos, e toda uma gama de universos referenciais pois no frigir dos ovos são desdobramentos da cultura em nossas naturezas e vice-versa, mais vice do que versa. 

eu de fato espero estar sendo compreendido, uso palavras abstratas por demais, cheias de conceitos e ideias por detrás. sei disso, as vezes me pergunto se é por escolha, não sei... ou se porque fui sendo orientado ao longo da vida profissional a tratar desses temas complexos desse jeito. eu queria mesmo é que fosse mais fácil conversar sobre isso, mas só encontrei essa forma por enquanto. e minha ironia está nisso de 

Voltando ao malabarismo... a questão do que é ser homem na contemporaneidade tem ecoado em muitas esferas de conhecimento, nos meios de comunicação, nos movimentos de desconstrução, no feminismo, nos movimentos sociais, nas lógicas de consumo de produtos e ideologias. Por detrás, a meu ver, há um grande mercado desse ideário, onde se consomem modelos de performance masculinas a depender do que a relação massa/nichos x mercado estiver negociando nas atualidades (dentre essas a das subjetividades com grande ênfase).

Tem gosto pra tudo. Mas afinal de contas, que raios tem a ver juntar a terapia ocupacional com isso?

Que atendemos homens, mulheres e trans é uma realidade inegável. E ao analisarmos as atividades dos sujeitos e os sujeitos das atividades levamos muito em consideração essas questões de gênero. Mas não é esse o tema a que venho propor pra explanação. Me interessa sobretudo pensar sobre o que faz um homem escolher e permanecer em uma profissão majoritariamente feminina? Que relações de poder são estabelecidas a partir desse lugar de minoria dentro da profissão ao mesmo tempo em que a sociedade estabelece-se numa "lógica majoritária masculina"? Isso  se equivale (ou não) nos campo dos estudos, nas esferas de trabalho/produção de conhecimento e representatividade de classe?

eu me lembro do meu primeiro dia de aula na universidade. Éramos em 25 alunos. Na lista de chamada éramos em 3 homens. Sérgio (que só ia ás aulas de anatomia e logo desistiu da faculdade),eu e meu amigo Sancler (que foi-se embora pros States faz um tempo). Lembro do meu discurso de apresentação, de que achei estranho haver tão poucos homens na sala. Umas falas machistas e homofóbicas de minha parte que logo foram problematizadas por algumas colegas de turma, mas também acolhidas pela professora que nos dava a aula inaugural. Desde 1994 venho tentando desconstruir e entender isso, 27 anos de experimentação/observação/vivências. 

A questão das identidades sempre foi algo que me despertou interesse. De estarmos imersos num grande caldo cultural/existencial que nos lança para o contato com outros e dessa aproximação acabamos por experimentar e até criar essa sensação/sentimento de ser igual e diferente. Quando estudei as questões das práxis artísticas, acabei por compreender que a aproximação entre T.O e Arte criava um campo fronteiriço onde uma identidade híbrida se formava porque habitávamos uma fronteira. Dali fui entendendo que a T.O era uma profissão de fronteiras. O resultado dessa investigação você encontra aqui abaixo no link:

http://www.maquinomovel.com/2007/07/hbridos-compostos-onde-o-entre-se-faz.html

Passado o tempo, ao me aproximar do movimento associativo de terapeutas ocupacionais do estado de São Paulo, e compreendendo melhor as dinâmicas de funcionamento do conselho regional de Fisio e T.O fui entendendo que originalmente a profissão foi gestada numa lógica híbrida de representatividade profissional. Na Fisio a quantidade de homens é bem maior que na T.O e isso sempre refletia nos cargos assumidos como presidência e vice-presidência. Atualmente lutamos pela separação dos conselhos... uma luta de gerações.

mas isso são outros 500. que um dia até posso voltar a falar. mas vamos ao menos tentar finalizar esse texto,com uma questão mais evidente, né André?!

Conheci alguns outros homens nessa profissão. Com pouquíssimos consegui conversar sobre essa questão, que aqui finaliza a composteira 1: COMO É PRA VOCÊ, SER HOMEM NA T.O?

Bora conversar sobre isso? deixe mensagem, pergunta, opinião (ela ficará anônima até ser moderada e publicada, ou não, vai depender de vc, só se vc quiser) ou me procure no instagram: @maquinomovel


Comentários

Lucas Apis disse…
Ser homem na T.O sempre me pareceu algo comum, afinal sendo um homem gay me é conveniente estar rodeado de mulheres, é acolhedor justamente pelos padrões de gênero e preconceitos. Ser homem na T.O é sinônimo de ser eu.

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