Uma grande parte das profissões da saúde tem em seu corpo profissional a presença majoritária de mulheres. Esse contexto tem haver com muitos fatores, seja porque as formações históricas das profissões estiveram ligadas a um período entre guerras (onde as mulheres foram incluídas com maior força no mercado de trabalho), seja porque são desdobramentos de outra profissões tidas como femininas. São exemplos a Enfermagem, Nutrição, Fonoaudiologia, Psicologia, Terapia Ocupacional. A medicina na atualidade, não sei a quantas anda, mas observamos um grande número de mulheres atuando. O lance é que esse assunto também sempre envolve aquele discurso que nas esferas do cuidado as mulheres tem uma predisposição tradicional maior. Esse tema abordarei num próximo texto. Mas hoje, vou me restringir a falar um pouco mais da T.O aqui no Brasil, onde a presença de homens é pequena. Lembro do tempo que estudei na faculdade, na segunda década de 90 e éramos em 5 alunos ao longo dos anos, havendo turmas com apenas 1 homem, no máximo 2.
Entre 2015-2017, fui dar aulas como professor convidado
pela professora Marta Almeida, numa disciplina do 1º ano de um curso de T.O. Nas turmas de 25
alunos a mesma realidade se repetia, não passavam de 2 homens por turma. Ou seja, a equação era basicamente a
mesma, nem 10% do total de alunos era do sexo masculino.
Você que me lê agora,
sendo homem ou mulher, que estuda ou já se formou como T.O, sabe do que estou
falando. É um assunto conversado sem muita profundidade, mesmo que na contemporaneidade seja algo emergente na sociedade com as discussões atuais sobre sexo e identidades de gênero, papel de gênero, performance de gênero, etc . Ao mesmo
tempo que nos puséssemos a falar numa tentativa de tornarmos algo familiar, ainda assim ronda um certo estranhamento.
Bem isso, uma situação
estranha, de estranhamento. Sermos tão poucos na profissão. Cruzarmos a linha de uma certa "tradição da profissão". No começo é bem
mais difícil, porque esse sentimento de ser “infamiliar” (como nomeia Freud) aparece em muitos
momentos. Seja durante as aulas, nos intervalos, nas festas, nos congressos, em suma na convivência mais aproximada com as mulheres da profissão. Depois tem um tempo que isso passa,
meio que se naturaliza. Não é bem esse palavra, nesse sentido, mas algo que
torna possível a transposição desse hiato entre os gêneros. É pra se formar/graduar que acabamos por esconder “o problema”, o objetivo é que venha à tona a questão do trabalho.
Afinal de contas, o que se almeja nesse processo é a entrada no
mercado de trabalho de uma profissão.
Sobre esse estranhamento,
tenho uma história engraçada. Estávamos de férias em 1996. Quase início do 3º ano de
faculdade. Eu em Santos, Sancler me liga dizendo que um repórter da folha
entrevistou ele pra uma matéria do jornal. Foram até sua casa e o fotografaram
segurando uma cueca onde havia bordado um galo em 1994, para uma disciplina
de atividades e recursos terapêuticos onde as materialidades estudadas eram
fios e tecidos. A gente teve que bordar mesmo nunca tendo feito. Hoje em dia, nos tempos de Rodrigo Hilbert, acho que o pessoal tira de letra essa história. Mas na década de 90, mesmo com a MTV no ar que ajudou a desconstruir muita coisa, o negócio ainda era tenso. Ele escolheu um galo e bordou na cueca kkkk, eu escolhi uma
boca mostrando os dentes e fiz uma necessaire pra minha irmã que estudava
Fonoaudiologia. A reportagem saiu, e quando ele me mostrou, era tão estranho ler
aquilo. Em resumo, a gente era chamado de infiltrado, estranho no ninho, exceção, etc.
aqui abaixo vc confere ambas as reportagens:
https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1996/2/06/cotidiano/35.html
https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1996/2/06/cotidiano/28.html
FIGUEIREDO et al (2018) faz um balanço bibliográfico a respeito das produções históricas que abordam a profissão como feminina. Na finalização de seu artigo pontua que na década de 80 apenas 5% dos profissionais da área eram homens e que a maior parte trabalhava nas áreas das disfunções físicas, que de certo modo exigiam maior força. Outra característica era que a publicação de artigos, postos de liderança e direção de associações contavam com a participação de mais homens. Hoje em dia, essa questão da presença dos homens nas associações é uma realidade. Sendo que a ABRATO (Associação Brasileira de Terapeutas Ocupacionais) conta em seu corpo diretivo direto com a presença de 3 homens em cargos importantes como presidência e secretariado, e no colegiado (formado pelas estaduais) a presença de mais homens também é observada.
”Não foram encontrados estudos que discutissem o lugar do homem na terapia ocupacional na atualidade. Nesse sentido, se faz necessária a realização de estudos que estimem a presença masculina na profissão e avaliem em quais áreas e contextos estão inseridos. Sabe-se que a terapia ocupacional não é uma profissão só para as mulheres e presume-se que, para haver o maior número de homens na profissão, seja necessário mudar o status e o reconhecimento estabelecido por ela, melhorar as condições salariais e aumentar as perspectivas de progresso e segurança.” Pg 124 (FIGUEIREDO et all, 2018) link do artigo vc encontra aqui abaixo.
https://www.scielo.br/pdf/hcsm/v25n1/0104-5970-hcsm-25-01-0115.pdf
Fechando a composteira da semana, te digo que quando trago essa história pra cá, acho que é uma tentativa de conversar com vocês sobre isso. Então te refaço o convite. Deixe sua opinião, pergunta, questão e contato. eu vou ler e te procurar. não vou publicar caso vc não queira, mas se quiser participar estarei por aqui. Ou ainda no instagram @maquinomovel

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