As masculinidades na T.O- Composteira 6





Rebecca Horn, 1970, Unicórnio. performance...

[Tive uma visão] desta mulher, outra estudante. Ela era muito alta e tinha um jeito lindo de andar. Eu a vi em minha mente, caminhando com este bastão alto e branco em sua cabeça que acentuava seu andar gracioso. Eu era muito tímida, mas comecei a conversar com ela e propus que a medisse para construir essa construção corporal que ela teria de usar nua e que terminaria em um grande chifre de unicórnio em sua cabeça. Para minha surpresa ela concordou ... Convidei algumas pessoas e saímos para esta floresta às quatro da manhã. Ela caminhou o dia todo pelos campos ... ela era como uma aparição.(Citado em Solomon R. Guggenheim Museum 1993, p.16.)




Quando a gente se aventura na escrita, mas principalmente no diálogo sobre pontos de vista com os outros (entre-vista) a gente quase sempre se surpeende. A escrita te lança abruptamente para um lugar de devaneio, ao mesmo tempo solitário, onde sua voz interna tenta encontrar palavras que ajudem na integração das idéias. Eu antes de digitar qualquer uma dessas aqui que você lê agora, falo em baixo som, como quem murmura cada uma delas até que ganhem corpo através das pontas dos dedos no teclado. O teclado me aparece como uma prótese daquilo que digo segundos depois de pensar. Há uma certa magia nisso. E gostaria de antes de te mostrar nosso próximo terapeuta ocupacional do estrangeiro, falar sobre os unicórnios. 
Ligado a questão do encontro entre o Masculino e o Feminino, o mito do Unicórnio atravessou séculos pela Humanidade. Sua lenda vem desde a antiguidade onde um animal pré-histórico (Elasmoterio) habitava as regiões da Sibéria. Contudo os registros de imagens existentes remontam  ao século XII em tapeçarias e pergaminhos.  No Mito, ele só poderia ser capturado caso ao mesmo fosse oferecido uma virgem. Símbolo de pureza na idade média também foi associado a virgem Maria. A captura tinha por conta a extração de seu chifre, lágrimas ou sangue. O corno tido como objeto mágico de propriedades curativas, dissolveria venenos, purificando poções e produzindo antídotos, entre outros. Em suma, está ligado às práticas curativas.
Durante um curso com Odilon Moraes (um baita Ilustrador), lá pelos idos de 2008, ele me conta durante as aulas que na idade média, um pouco antes da invenção  da impressão , encontrar/visualizar imagens de unicórnios era sinal de sorte. Por serem raras, despertavam naqueles que as viam uma certa aura de sortilégio. Nos dias atuais, o mercado pipocou tais imagens e milhares de produtos ganharam espaço tendo os unicórnios como um personagem fofo. A "unicornização" começou a popularizar-se em 2011 com o advento da plataforma Tumblr (uma espécie de blog porém de com divulgação mais ampla- é como se fosse um primo do Twitter) com o crescimento do movimento SEAPUNK (espécie de subcultura cyberpunk, surgida na internet durante os 2010, onde temáticas dos anos 90 da cultura pop, associada a  estéticas de moda que mesclavam roupas com elementos marinhos e mitológicos. 
Na Cultura LGBTQIPA+ se refere ao indivíduo do gênero não-binário, ou seja, que não se identifica como homem, mulher ou transexual.  Ou seja, quando não quer se identificar como parte de um gênero específico, costuma dizer que é um unicórnio. 
Vamos lá: 

4. 

 Yes we are few men in USA also!! Its like we are unicorns. I always loved being different so I take awnership of differences. It´s not so bad bro. We actually do more work if anything LOL. How is it like for you? Oh, yeah. We do play a big role as we are bring a male figure with treatment. 

(Sim, somos poucos nos Estados Unidos também!!! É como se fossemos unicórnios. Sempre adorei ser diferente, então levo em consideração as diferenças. Não é tão ruim, Mano. Na verdade fazemos mais trabalho de alguma coisa LOL. Como é isso pra você? Sim. Nós desempenhamos um grande papel ao trazer a figura masculina para o tratamento.) 


O que achei belo nesse "depoimento" é que ele ressalva a diferença enquanto um aspecto presente na constituição da questão identitária. Por tempos pensamos que identidade seria algo referente ao encontro de iguais, aquilo que carrega consigo a idéia de idem. Na contemporaneidade, cada vez mais essa forma de pensar tem se desconstruído, e frente a ela a idéia de ipseidade tem ganhado forças nesses tempos onde pensar o si mesmo reforça as possibilidades de alteridades nas relações.  

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