As masculinidades na T.O- composteira 5


 Caipira picando fumo é uma pintura de Almeida Júnior
Sua data de criação é 1893 (ano em que Nova Zelândia
 torna-se o primeiro país do mundo a conceder 
o direito de voto a mulheres).


Ai,ai,ai, bora lá ... que a medida que avanço na escrita , vou percebendo tantos pontos importantes.

O primeiro de todos é que esta será uma jornada longa, talvez por dedicar-me a ela apenas nos finais de semana.  è que escrevo por curiosidade , e também como uma forma estranha de organizar aquilo que venho pensando, lendo, coletando e sobretudo (de)compondo. Acho graça em mostrar isso, pra que não fique só comigo, pra que eu possa repartir. Quem sabe tenha outro maluco que queira falar sobre essas coisas. Talvez por isso a impressão de que tudo que vem sendo postado parece ser uma novela cheia de ganchos e narrativas vá deixando esses fios, volteios, imperfeições e inacabamentos ficarem muito aparente .
Um pouco desse sentimento veio à tona após eu observar as visualizações no blog ( há dias em que as as escritas anteriores ganham visitações diferentes, cada dia da semana elas se movem no ranking, como se fossem capítulos de um seriado de televisão sendo vistos ou revistos). Mas também percebi isso quando meu amigo Sancler brincou comigo sobre os ares de suspense nessa trama atual.

Hei de me lembrar sempre de como tenho feito as coisas, apresentar os processos enquanto os vivo, enquanto os faço, enquanto não se tornam produtos (sendo que os cortes realizados no durante são semi produções- são apresentações - ou seriam representações do processo enquanto produto???)... enfim, isso aqui é um processo investigação , de curiosidade sobre uma questão que começou há mais de 20 anos atrás . Pensando bem acho que teve início bem antes disso , mas esse é outro assunto que não vou abordar aqui , pelo menos por enquanto... nunca se sabe.
Resolvi então trazer hoje mais um dos quatro depoimentos que ainda faltam daquela primeira etapa de preparação para o terreno. TERRENO- TERRANEO- TERRÁQUEO.  É isso mesmo , meus amigos e amigas , a metáfora da composteira, presente nas chamadas de texto, não é uma simples metáfora. É um outro modo de se pensar método. E me faz remeter a pensamentos daquilo que na ciência é denominado CAMPO. Quem sabe algo ECO-OCUPACIONAL?
Quando comecei a desenhar um modo de abordar esse assunto do gênero e terapia ocupacional me vi rodeado de várias outras questões que transitavam entre essa que agora apresento a vocês.
Queria muito falar sobre os homens presentes da profissão, sobre como foi difícil pra mim encontrar quem topasse falar sobre isso, mas ao mesmo tempo não havia como eu deixar de lado um certo pensamento sobre o feminismo. Tive aula com mulheres fantásticas que me formaram nessa profissão. Não é um incômodo me ver como um homem pro-feminismo . E de certa forma percebo que essa é uma posição Vital para a profissão, mas mais importante ainda para nossa sociedade . Outra questão que orbitava era a do movimento de desconstrução do machismo, desconstrução de uma ideia de homem que querendo ou não , consciente ou inconscientemente, temos enraizados em nós através de posturas e ideais que colocam esse jeito de ser homem numa posição central nas relações de poder e representatividade social . Mas que homem é esse ? As escritas aqui feitas tem por objetivo mostrar , ou melhor , apresentar uma parcela pequena desses que compõem a profissão.
Sei que nesse processo de escrita no blog corro riscos, mas antes de nomear esses quero dizer que isso demanda de mim uma boa dose de coragem. No mais essencial que a palavra coragem carrega em seu interior. Mas que ativa em mim um sentimento de "BOTA PRA JOGAR" crucial nos processos criativos. Corro risco de ser superficial , corro risco de não analisar a fundo o conteúdo que tive e estou tendo acesso , corro risco dessa aqui parecer uma criação amalucada, corro risco de minha escrita transformar-se num hobby de final de semana , corro risco de floppar , corro risco de ser mal interpretado mas quer saber a verdade? Eu corro risco de ser eu mesmo, isso para mim já é de grande valor . Como digo às pessoas em momentos onde algo inoportuno , ou ainda, onde algo de imediato nos espreita é : _Paciência!
Bora lá! Quando pensei em reativar o maquinomovel blog, porque já tinha ativado o @maquinomovel no instagram, vivi um retorno de algo que só não estava parado por completo por conta de pouquíssimas publicações, hoje vejo que eram tentativas de resgatar o meu processo de escrita. Você pode estar se perguntando: por quê vc não se dedica a um processo acadêmico? Como tem gente que sempre me pergunta isso. Quem sabe um dia?  Eu ainda tenho que correr atrás do ganha pão e tempo é uma coisa meio escassa... mas isso não quer dizer que eu não continue entendendo que só há avanço, não há futuro, sem a gente conseguir remover as coisas, sem se atualizar. E estudar ainda é um jeito de fazer isso.




Já te comentei que venho fazendo um curso sobre o pensamento de Winnicott,  e foi durante uma das aulas que essa questão do masculino me fez voltar nessa outra que venho aos poucos mostrando aqui. No trabalho de conclusão do semestre escolhi falar sobre esse tema, e ainda estou na etapa de leituras e armazenagem de textos. Essas avançam para uma etapa de semimaturação, que finalizarão num texto maturado/amadurecido. Quando me dei conta dessas etapas do processo de construção do apreendizado imediatamente associei ao processo de desenvolvimento presente no humano que vai da dependência absoluta, passa pela dependência relativa até desembocar na indepêndencia relativa. Mas em minha cabeça, isso conversava com algo mais presente na Cultura... 
Nessa série atual, denominada composteira, venho aqui pra mostrar outros diálogos possíveis. Diálogos poéticos com modos de produzir vida, ressignificar o eterno ciclo vivificador ...  a poesis presente nos escritos atuais levam muito em conta o processo de estimular a (de)composição dessa matéria orgânica que armazena energia e muitas vezes é gasta de modo atribulado. Na compostagem, apesar de haver uma técnica que acelera o tempo do processo de decomposição,  me ensina ou melhor, ela resulta pra mim num processo de  coleta e espera, num processo onde outros organismos entrarem em contato e provoquem reações em cadeia no corpo do texto/criação, reações que me ajudem na desconstrução daquilo que parecia ser um "todo fragmentado". O resultado do processo , se tudo correr bem , será algo substrato, rico e fértil: tal qual húmus. De onde deriva a palavra humano.

 

Compostagem é o conjunto de técnicas aplicadas para estimular a decomposição de materiais orgânicos por organismos heterótrofos aeróbios, com a finalidade de obter, no menor tempo possível, um material estável, rico em substâncias húmicas e nutrientes minerais formando assim um solo humífero.

Então vamos aos contatos feitos com outros T.Os mundo afora...

3.

Nosso próximo breve depoimento vem diretamente da Espanha. Assim a resposta " COMO É PRA VC SER HOMEM NA T.O?" chegou:  


Hola André!!

Es un placer hablar contigo y más si eres TO!! :)

Efectivamente, en España tenemos una realidad en la profession muy parecida... La mayor parte (quizás un 90%) son mujeres.

Alguna vez me he planteado a mí mismo tu pergunta jejejejeje.

La verdad es que nunca me he sentido discriminado por ser hombre. Cuando trabajava en una residencia, había residentes mujeres que se ponían problemas o se quejaban si yo supervisaba o intervenía en algunas ABVDs e preferían a una mujer... Pero vamos, salvo eso...

De hecho, en ocasiones buscan perfiles de hombres en determinados servicios.

Salud.

(Olá, André. É um prazer falar contigo e mais se vc é T.O!! Efetivamente, na Espanha temos uma realidade na profissão muito parecida... a maior parte (quiçá uns 90%) são mulheres. Alguma vez fiz a mim mesmo tua pergunta jejejejeje. A verdade é que nunca me senti discriminado por ser homem. Quando trabalhava em uma residencia, haviam residentes mulheres que se metiam em apuros ou reclamavam se eu supervisionava a intervenção em algumas AVDs e preferiam uma mulher... Mas vamos lá, salvo isso... Na verdade, as vezes buscam por homens em determinados serviços. Saúde.)

Eita que essa resposta em mim falou fundo. Porque de certo modo meu amigo virtual falava sobre coisas paradoxais. Um certo privilégio existente pelo fato de ser homem na sociedade, mas ao mesmo tempo dizia sobre uma certa discriminação para certas atividades presentes no coração da profissão. Essas dizem respeito as ATIVIDADES DA VIDA DIÁRIA (AVDs), de como a sociedade de um modo geral as encara como sendo referentes aos cuidados prestados pelas mulheres/ feminino. 

uma vez, em meu primeiro emprego, comecei uma atividade com uma paciente que envolvia fios e tecidos (olha lá eles de novo na pauta,kkk). Lembro que num primeiro momento ela estranhou quando propus a confecção de um tapete para sua casa, aos poucos ela se acostumou com o fato de eu saber tapeçaria, pontos diferentes e de conversar sobre a vida enquanto fazíamos algo juntos. Para minha surpresa, o incômodo maior não veio daí. Mas da fala pra equipe numa supervisão institucional, onde o supervisor falou sobre uma boa parte das atividades propostas pela instituição serem "coisas de mulher". Eu lembro da raiva que fiquei na hora e perguntei: E por acaso atividade tem gênero? Ele respondeu que Sim e que Não. Que havia um caminho para essa desconstrução que é totalmente social. Compreendi que ele falava de algo muito maior que se manifestava não só no setting terapêutico, mas sobretudo nas relações da equipe e que, de alguma forma, eu haveria de lidar com isso pro resto dos dias. Era isso Homens que ajudam/ensinam a dar banho, a trocar de roupa, a cozinhar, a costurar... homens que se aproximam do arquétipo materno em muitas vezes terão sua sexualidade interrogada como uma chancela de desaprovação pro terem migrado entre os esteriótipos daquilo que convenientemente a sociedade define como coisas de homem e coisas de mulher. 

Nas minhas buscas aqui, encontrei um texto de Sarmiento et al (2018) muito bacana que fala sobre as percepções da construção de gênero em estudantes de Terapia Ocupacional: uma abordagem ao gênero na vida cotidiana. Vale muito a pena a leitura. O link de acesso vc encontra abaixo:

http://www.cadernosdeterapiaocupacional.ufscar.br/index.php/cadernos/article/view/1902/0


Hoje fico por aqui, espero vcs numa próxima. Tá a fim de conversar sobre isso? Deixe aqui seu comentário, ele só será publicado caso vc concorde. Vc tb me encontra no instagram @maquinomovel 

Saudações! Inté!

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