A ABERTURA

 Salve, salve! 

INICIO a escrita de hoje, misturando coisas que pensei/conversei com outras pessoas pessoalmente com coisas que andei pensando durante os últimos quase dois anos em que esse processo do COVID, que assola a humanidade, se instalou em nossas vidas.

Numa reunião realizada presencialmente, após mais de ano sem podermos nos reunir desse jeito por conta da pandemia, foi abordada a questão de como a rede de atenção a saúde mental vinha se comportando com relação aos processos de matriciamento dos casos compartilhados entre a atenção básica e a atenção especializada.

Na hora da discussão, falei algo que me passava naquele momento,,, mas que tem sido uma questão que por vezes me venho fazendo de uns tempos pra cá. Penso que uma das grandes questões que a covid nos fez perceber é de nossa relação com a ABERTURA. Seja abertura para o VIVO, para o NOVO, para o que de fato escancara o devir depois de um grande corte operado em nossa realidade. Depois de tanto tempo isolados, e nós profissionais da saúde que acabamos por  não parar e nos desdobramos para dar uma intensa e extra continuidade ao fluxo vital hoje colhemos o desgaste e esgotamento das forças após grande esforço por nós realizado, passamos a acompanhar formas de retomada dos processos de abertura e circulação da população. (Lembra muito o esforço do cuidador, mas isso te conto outro dia!)
Lembro de ir trabalhar e andar por uma cidade outra. Uma outra São Paulo com trânsito fluindo livre pelas marginais, muito menos pessoas circulando, fila? era algo que não se via. Mas num outro ponto acompanhava o isolamento de perto dos familiares e daqueles que hoje presto meus cuidados.
O serviço que coordeno não parou de funcionar, assim como os trabalhadores também continuaram na lida. Por sorte tive poucos casos da doença entre familiares, trabalhadores e moradores do serviço. E sei que essa não foi a realidade de tantos outros.
Nos primeiros 6 meses da pandemia, foram os moradores do Serviço Residencial Terapêutico que trabalho, quem de fato me ensinaram o que era viver isolado e mesmo assim permanecer com certo brio vital. Aquilo que era uma novidade para muitos de nós, eles tiraram de letra. Talvez por terem parte da vida constituída sobre a marca do isolamento. Convivo diariamente com pessoas que viveram mais de 40 anos trancafiadas em grandes instituições em "nome do cuidado". 
O tempo foi passando, e aquele brio todo foi perdendo seu elan. A qualidade da vida foi deixando sua potência maior despotencializada, e um empobrecimento do cotidiano pela impossibilidade de circular pelo território (entre outras coisas) também foi prejudicando um tanto seus quadros de saúde e relações com o vital. Por mais que esforços para prevenção dessa "queda energética" fossem feitos, não era  a mesma coisa que levar a vida naquela linha/plano anterior, que tinha uma forte carga de continuidade de ser e estar vivo. Foi como se essa linha/vida ficasse suspensa, foi como se a máquina do mundo tivesse nos avisando que estávamos aguardando um grande download de atualização do antivirus e travava alguns de seus programas.
Durante a fase hard-core da pandemia, transformei parte dos pensamentos com relação a alguns dos processos de montagem do pensamento da maquinoativação em figurinhas para o instagram. Abri um perfil (@maquinomovel) com fotinhos e escrevi alguns pequenos trechos de textos. Mas teve um que realizei que carrega um tanto de coisas que fui percebendo com relação ao processo que todos nós passávamos na época.
Talvez foi um jeito para também me situar e ao nomear/expressar produzir em mim uma nova poiesis frente a situação. Compartilhei a figura acima, que abre o texto de hoje, e gostaria de falar brevemente sobre essa, enquanto der o tempo de 1 hora que me propus a escrever diariamente... até quando sei lá eu...
Leva o título de DIMENSÕES DO OCUPACIONAL, por referir-se a questões amplas para a terapia ocupacional que tem no plano ativado pelo fazer algumas "conceitos-cordas" que lhe dão sustentação (tempo-espaço-relações). 
Essa doença, nova visitante para a humanidade, deu as caras como qualquer outra doença. Trazendo sua aparição na forma-corpo das pessoas um quadro de sintomas que aos poucos puderam ser reconhecidos.
Outro fato que se mostrou foi que ela produziu interrupções nas atividades humanas. Talvez o isolamento tenha sido a grande novidade para essa geração, e a ideia de ficar em casa ganhou outros contornos. A relação das pessoas com suas casas mudou muito. Contudo ideias primitivas de segurança, abrigamento, recolhimento, intimidade, entre outras puderam ser revisitadas por uma boa parte das pessoas. Encarar isso de frente não foi fácil, porque talvez tivéssemos um ideal, ou quem sabe uma certa alienação, do que isso de fato significava para cada um de nós. Nunca, pra essa geração, a ideia de OCUPAÇÃO foi tão pronunciada. Até na frase " FIQUE EM CASA" lá estava a questão da ocupação posta, tanto em seus aspectos relativos ao espaço CASA, quanto ao tempo conjugado no verbo FICAR, quanto no subtexto pretendido para as relações humanas: ISOLAMENTO. 
Dessa forma foram produzidas em nós implicações com lógicas de cuidado que tinham como contorno os cuidados com os espaços, os gestos (passe álcool-use máscara- não coce), com os fazeres (troque as roupas- lave as embalagens- evite sair) e sobretudo com as relações ( mantenha o isolamento- transporte-se para o virtual).
De certo modo o vírus, por ser invisível, contagiou toda nossa relação com o espaço e com o tempo. Foi como se um fragmento desconhecido da realidade tivesse sido lançado no ambiente e com isso provocado, em escala geral, um grande sentimento de paranoia coletiva. Essa paranoia nos levou a algo muito antigo em nossa espécie, um sentimento ancestral dado pelo medo primitivo do aniquilamento. Por sua vez, esse produziu também reflexos em nossa relação com a passagem do tempo, que por mais que sentissemos como um continuo, mostrou-nos  suas faces de descontinuidade.

São 23:24... o relógio aqui tocou... foi dada a marca de uma hora de escrita... corte no fluxo criacional...
Continuamos... até amanhã.
Abraço
André (miolo) Nunes

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