AS COISAS


 

Preciso te contar algo hoje, que talvez venha confuso ainda. E precisamos combinar que tudo bem, se assim vier. Porque de fato é algo muito mais fácil de falar e te demonstrar pessoalmente do que utilizando um texto. Tentarei ser o mais coerente possível, mas não garanto que possa haver ( ou não) uma certa incoerência nas palavras. Mesmo porque te digo isso de memória, as tantas ideias que sustentam isso, todas vindas de outros pensadores, estão espalhadas em muitos cadernos de anotações.

Te aviso pois quando retomar esse escrito, num futuro não muito longe (assim espero) possa ser que isso se transforme. Que essa ideia ganhe um corpo maior, encorpe substancialmente.

Só pra situar de onde estamos saindo, e para onde estamos indo. Antes quero te dizer algo, que talvez possa diminuir esse estranhamento que essas siglas no corpo do texto carregam. Nos idos entre os 2007 e os 2013, compus o Coletivo de Terapia Ocupacional como produção de vida, coordenado por Mariângela Quarentei (por quem tenho enorme gratidão na Terapia Ocupacional). Durante uma época estudamos: Espinosa, lemos um livro de Luiz Gonzaga Leal ( T.O e guardados na gaveta), também um livro de Marcus Vinícius Almeida ( Corpo, Arte e Terapia Ocupacional) assim como recebemos a visita dele no Coletivo com quem tivemos uma aula sobre sua tese de doutorado ( acho que é A selvagem Dança... vou tentar deixar o link no final do texto). Fora esses dois livros, estudamos alguns textos de Deleuze e Guattarri (D&G).

Lembro que ao ler os livros CAOSMOSE e CRITICA E CLÍNICA (D&G) eu tive uma ideia. Uma ideia que me ajudava a conversar com um modo de escrever sobre uma possível estrutura presente na ANÁLISE DA ATIVIDADE. Na verdade, estava mais para uma síntese da atividade.  Na análise a operação realizada é de esmiuçar e detalhar os tantos componentes da atividade. Na síntese uma estrutura é posta e por sobre ela é possível compor um caminho ou “mapa” daquilo que se busca. Á essa minha síntese dei o nome de maquino@tivação, cuja representação é dada numa fórmula, composta de símbolos.... Isso mesmo, uma espécie de forma abstrata de ler os acontecimentos desencadeados nos processos das atividades humanas, ou como prefiro chamar no fenômeno do fazer humano.  

Cada fazer carrega 4 grandes potências (pode ser que tenham mais, mas eu até hoje só desenhei essas 4). São elas: a potência da forma (p1), da poiesis (p2), do pathos (p3) e da práxis (p4).

 Cada potência opera através de um tipo de objeto. Esses por sua vez abrem caminhos para interrelacionarem-se criando um verdadeiro jogo de fluxos e trocas relacionais. Hoje quero dizer um pouco sobre a p1- forma e seus objetos relacionais: OS OBJETOS-COISAS.

(Ph) p1- fenômeno do fazer (ph) elevado a potência da forma (p1) e os objetos-coisas (oc).

Como te contei dias atrás, eu maquinoativei minha experiência de feitura dos desenhos de meu projeto: CADERNO DA FALÊNCIA, que venho desenvolvendo a uns 4 anos. Espero que a medida que for contando sobre isso, eu também possa ir te mostrando os pontos de primas e vistas que essa ideia carrega consigo. Mas daí estaremos nos aproximando da potencia da poiesis (p2), papo pra outro texto como vc verá a pouco.

Antes da gente continuar, eu vou te pedir para você parar por 2 minutos. Parar de olhar pra essa máquina que está a sua frente. Seja seu celular que possivelmente você esteja segurando, seja o computador/tablet que está aí... sim, a maquinoativação tem o mundo máquina como suporte. Ou seja, são as formas máquinas e seus objetos coisas quem dão cabimento. (quem sabe um dia a gente esteja num livro- eu ia gostar muito)... Parou? Então, olhe para todas as coisas que estão ao seu redor. Quase tudo que está ao seu redor teve a mão humana em alguma etapa de produção. Isso não é fantástico!?

Pois é, é sobre as materialidades que se trata essa ideia dos objetos-coisas. Terapeutas Ocupacionais, e suas sacolas/armários/quartos de materiais sabem muito bem do que estou falando. Usamos esses materiais como RECURSOS terapêuticos. Parece simples, né, você pensar: NOSSA MAS ELE TROUXE UMA LARANJA E UMA FACA ADAPTADA pro atendimento... pois é, a gente sabe que para o fazer das pessoas acontecer a gente “inscreve” elas num sistema onde as ações e as coisas “conversam”. CONVERSAM INTIMAMENTE.

Para eu fazer os desenhos do CADERNO DA FALÊNCIA e publicar no instagram as fotos do processo, eu utilizo os objetos-coisas: Caderno de papel sem linhas, conjunto de lápis de cor com 30 unidades, apontador, celular, chip, eletricidade, internet, conta no instagram. Basicamente são esses os materiais que utilizo.

Se a gente for esmiuçar cada um deles, vai descobrir a necessidade de muitos sistemas de ações para que cada um esteja comigo hoje... mas não vou entrar nessa pilha!Ufa!!!

Só queria que a gente observasse a beleza das coisas, sua funcionalidade e valor de uso, suas  tantas qualidades. Como diria o poeta Arnaldo Antunes ( esse vai nos levar para a potencia2= poiesis- mas não hoje, ainda!!!). As coisas têm peso, massa, volume, tamanho, tempo, forma, cor, posição, textura, duração, densidade, cheiro, valor, consistência, profundidade, contorno, temperatura, função, aparência, preço, destino, idade, sentido... As coisas não têm paz”.

Por hoje é só, um grande abraço em você e todas as suas coisas...

André (miolo) Nunes

 

Comentários