con-fiar


 gosto de confiar que a terapia ocupacional, ao lidar com a questão da ativação do fazer humano, tem em sua trama estrutural três "grandes cordas" que sustentam sua viabilidade.  São elas as urdiduras do ESPAÇO, do TEMPO e das RELAÇÕES. por sobre e entre elas o movimento operante das atividades nos sujeitos/ das atividades dos sujeitos vão tramando entrelaçamentos complexos e cheios de linhas variadas. (linhas de cuidado, linhas de fuga, linhas de pesquisa, linhas de ônibus, linhas de crochê, linhas vitais...) E a licença poética aqui é totalmente permitida.

Deu para perceber que quando falo sobre essa possibilidade de olhar para aquilo que fazemos na clínica (ou em outros campos de ação profissional), estou usando a narrativa do fazer tecelagens como metáfora para aquilo que fazemos durante o processo de estruturação/construção do que algumas correntes irão denominar de setting.(configuração) 

Nesse momento agora que escrevo, encontro-me de férias (como te disse no texto de ontem) e habitando o quitinete onde toda essa aventura de escrita desse blog começou. Aqui não disponho dos livros que li, nem de anotações que fiz, nem de muitos objetos que fui colecionando ao longo dos quase 14 anos. Ou seja, a casa está praticamente vazia. Contudo, a sensação de pertencimento está impregnada nas paredes e poucos móveis que aqui deixei. O que está por vir nessa escrita de hoje, conversa muito com as lembranças e memórias do que vi/li/vivi aqui, como também com tudo que eu possa vir a imaginar durante a composição desse texto e que certamente preencherá as lacunas daquilo que não conseguir me lembrar tão bem assim. 

Faz um tempo que descobri que nossa memória é regada de imaginação, Mestres Bachelar, Nichan e Viviane Abreu, cada um a seu modo, me ensinaram isso durante meu percurso até aqui.

Voltando a questão da tecitura na T.O, imaginemos... Lembro que a primeira vez que falei sobre isso, já vinha pensando mas não tinha construído ainda modos de falar sobre a "tecitura do setting". pesquisava em separado coisas sobre o Espaço, e outras (bem menos) sobre o tempo. Recebi uma estudante de terapia ocupacional que para além da questão raiz dessa profissão: O QUE É TERAPIA OCUPACIONAL? me perguntou como eu compreendia a questão do setting terapêutico. na hora assim a respondi: _ Em terapia ocupacional a questão central do acompanhamento das pessoas está intimamente vinculada as atividades que essa possa realizar, ou seja, tornar real. porém o terapeuta deve se lembrar que para as ações ou movimentos virem a tona, aparecerem, três grandes dimensões deverão estar a postos em sua configuração: ESPAÇO, TEMPO E RELAÇÕES. 

Qualquer interferência em uma dessas três dimensões produzirá qualidades outras dentro da atividade. Ou seja, configurar questões envolvendo o espaço dará ao sujeito da/na atividade experimentações que conversam diretamente com essa dimensão. Assim como configurar questões que envolvam a dimensão do tempo (por exemplo- acelerar, retardar, fracionar, expandir, presentificar, futurar...) conversarão diretamente com essa dimensão no/do sujeito da/na atividade.  Por sua vez, configurar questões que envolvam aspectos relacionais do/no sujeito da/na atividade também criarão diálogos com tais dimensões. 

Isso dito dessa forma acima teve um caráter muito mais pedagógico, na tentativa de mostrar à estudante a importância que o termo OCUPACIONAL carrega em seu invólucro. Afinal a terapia proposta por essa profissão tem essa qualidade ser OCUPACIONAL. o fato é que essas dimensões estão acontecendo a todo instante. É uma ilusão acharmos que é possível dividi-las, porque ao acionarmos uma, ou melhor, porque ao intensificarmos o olhar sobre uma delas as demais continuarão a operar.  E tudo bem, porque de fato uma análise é feita disso, de uma espécie de fragmentação do todo ocorrido. 

Voltando a questão da metáfora da tecitura, dias atrás recebi uma mensagem de meu grande amigo Sancler que me disse que tais questões (tempo-espaço-relações) configuravam aquilo que pode levar o nome de CONTEXTO.  "_ É uma verdade!" respondi. E quando a gente diz para o outro, mas principalmente para si mesmo, algo que é da ordem da verdade, a gente acaba por atribuir àquilo algo da instância do sentido. Ou seja, o processo de afirmação ( isso faz sentido!) resvala num encontro que compõe potência (opera numa paixão alegre- como me ensinou Espinosa através de Mari Quarentei) e nessa composição há aberturas para novos sentidos, assim como possíveis ajeitamentos e acomodações. Se a gente bobear, vai cair naquela conversa de atividade significativa... mas hoje vou cortar essa linha, porque ainda me enrolo... deixa pra outro texto, ok?

Na tecelagem, a trama é o nome que leva a linha latitudinal movente que atravessa as linhas fixas longitudinais chamadas de urdiduras. Tecer consiste num fazer esse entrelaçamento alternado dessas linhas-fios (lati-longitudinais: trama-urdidura) que formam no decorrer ou final de seu processo: tecidos, panos (planos), corpos (objetos-coisas) entre outros. 

No caso desse texto, ESPAÇO, TEMPO E RELAÇÕES, seriam as urdiduras CONTEXTUAIS necessárias para a construção da passagem de tramas (mil...) sendo as atividades componentes dessa linhagem tramada.

Agora, vou  fiar um pequeno encontro contigo. Ele vai requerer de NÓS, ACONTECENTES (aqui no caso: escritor e leitor) algum cuidado ( um NÓ ou FIBRA ?) ao puxarmos o fio das palavras. FIO vem de filum: fibra. Um cuidado posto em relação é da CONFIANÇA... Veja só, CONFIAR vem do latim confidare: fiar-se de ou em.   TEXTO vem do latim texere: tecer. e CONTEXTO vem do latim contexĕre 'entrelaçar, reunir tecendo'.  Se a gente se permitir olhar para o que acabou de ser maquinado nesse encontro, acabamos de compor uma forma de linha do pensar/nomear... ao relacionar possíveis sentidos das palavras no agora pouco (quase -já) do espaço desse texto, arquitetamos a ativação de uma micro trama da linguagem, através da escavação de seus sentidos etimológicos.

Vou ficando por aqui, que já deu a minha hora (corte no fluxo), esperando saber de você que me lê, o que ACONTECEU aí contigo ao ler... a gente volta a tramar sobre o A COM TECER outro dia.

Grande abraço

Ocupem-se de si.

Mantenham os cuidados com relação ao COVID.

André (miolo) Nunes 


 

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