Na questão, do exercício de escrita diária de uma hora, há coisas que tem ocorrido com uma certa frequência.
A primeira é um deslocamento desse horário para o final do dia, como se eu estivesse buscando alguma inspiração ao longo do passar das horas que pudesse integrar os pensamentos que vou produzindo durante ele. Daí, passa meia noite e o texto ainda não subiu.
A segunda é que parte do texto trabalhado-criado no
dia anterior vai diluindo-se nas atividades realizadas durante as horas e acaba
ganhando uma acomodação/alojamento, dando impressão de descontinuidade. Se há certa perda de um tanto de foco, por
outro lado abre um apêndice para uma das funções possíveis da linguagem. É ela: a função referencial.
Explico melhor, como já diz o nome, essa função tem por
objetivo criar na cadência dos textos ( e desses tb produzidos ao longo dos 21 dias) , carregamentos em seu
corpo processual de aspectos denotativos. Ou seja, traçando uma comparação, é
como se cada texto do dia carregasse algo circunscrito a situação vivida, uma
referência ao acontecido nele, referente a ele. Diários tem essa particularidade "referencial" em sua composição enquanto gênero literário. E essa foi a forma escolhida para a realização dos presentes textos.
Hoje tirei o final do dia para observar o pôr do sol. Ficar sentado e simplesmente acompanhar esse acontecimento natural, temporal, diário, que muitas vezes não encontramos tempo na correria da vida para olhar-experimentar.
Vou te dizer que foi muito agradável. Estar ali, vendo o sol ir embora, abrir um tempo suspenso, a hora dourada, aquela onde a gente não sabe se é dia ou noite.
Você sabia que nesse horário, em muitas casas idosos com questões demenciais apresentam alterações de comportamento, a chamada síndrome
do sol poente, ou síndrome do pôr do sol.
É uma espécie de confusão temporo espacial em que pessoas
(principalmente com Alzheimer) apresentam nesse horário, muitas vezes apresentam comportamentos de agitação, desconhecimento sobre sua
própria casa, perambulação pelos cômodos, não reconhece os familiares...
Terapeutas ocupacionais, entre outros profissionais, conseguem através de dicas nos cuidados ambientais e relacionais intervir e propor adequações e adaptações na rotina para que tais comportamentos possam ser modulados.
Por exemplo, ligar todas as
luzes do ambiente antes que a escuridão venha a aparecer, ou ainda, tentar instalar
alguma atividade significativa nesse horário. Entre outras possibilidades.
O fato é que se você observar bem o nascer e o pôr do sol, tem uma semelhança na coloração das luzes em uma hora determinada. E para alguém que de certo modo encontra-se
com dificuldades de fixar atenção e por conseguinte memória a cadência dos
fatos deve ser bastante sofrido se ver lançado diariamente nessa angústia de
não saber em que “marca do tempo” se encontra. A doença interfere nos padrões de sono- vigília, afeta também o "relógio biológico .
Voltando ao relato do ocorrido no pôr do sol, me dei por conta que naquele momento que para isso aqui continuar como se fosse um diário, eu vou precisar cada vez mais que um lado fixo das palavras em mim pudessem se perder. Não ficar absorvido pela palavra escrita. Dar a ela, cada vez mais cara de palavra falada.
Mesmo sabendo
que no instante do espaço e do tempo em que me digo- digito e publico isso aqui... para você é outro instante, diferente e distante. E quando você me lê e, sei lá, usa sua voz silenciosa de leitor, ou até pode ser em voz alta...
Não tem outro jeito, entre escrever-ler acontece isso, esse ajeitamento entre nós.

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Assim nascem os poetas