Participei da Pré-conferência de Saúde Mental da região em que trabalho. Enquanto o evento rolava fiquei me perguntando quais questões, pertinentes a construção dessa grande rede de atenção à saúde mental desse município, seriam trazidas para o centro da atividade pelas demais 27 regiões.
É que se pensarmos bem, cada território (e os grupos que os compõem) tem características bastante próprias, assim como as atividades ali realizadas carregam partes dessas qualidades. O tal papo do contexto e suas particulares diferenças e singularidades componentes... Mas enfim, ampliando a discussão é possível olhar para isso de outros modos... Explico melhor, as pessoas, somadas toda sua diversidade, tem algo em si que as põe mais propensas a realizar uma ação se virem outra(s) pessoa(s) fazê-la. Espécie de mimetismo.
Vi isso acontecer tantas vezes nas salas de terapia ocupacional quando atendia grupos!! E hoje, no exercício de composição das propostas na pré-conferência, isso também ficava evidente. A cada fala, escrita, feedback da fala, feedback da escrita, ou seja, a cada troca a.com.tecia algo ali que se operava e as pessoas entravam na dinâmica aos poucos.
As vezes, meio repetindo os assuntos de modos diferentes, outras divergindo completamente do exposto pelo outro, ou ainda, convergindo para soluções pareáveis. Na minha eu pensava: Aqui está havendo uma exposição da poieis coletiva desse território-rede, aqui estão criando-se no fazer dialógico, inventando-se entre um "giro das ideias" nessa grande rede relacional. Uma rede composta de "pontos de atenção" mas sobretudo composta de pessoas = gente, né!?
Interessante notar que parte do fenômeno conectivo, vivido através dessa atividade humana (nesse caso a grande área era da comunicação), caminhava junto com uma ideia outra, espécie de "contágio pelo meio". Ou melhor, como se ali fosse possível o exercício coletivo de uma 'prova social" .
(Prova Social é um fenômeno psicológico que se refere à dependência das pessoas por feedbacks para determinar o que é certo e errado, possível ou impossível...).
Essa "prova das conexões" entre aquilo que pode ser criado através da junção das partes, com aquilo que pode ser feito naquela determinada situação, com aquilo que não será conectado mas foi exposto, e mais um tanto de ideias que não se invalidam se observarmos outros contextos... ou seja, tudo se somando no momento das transmissões e aguardando algum nível de feedback...
Mas voltando ao exemplo dos grupos de T.O, lembro que se alguém via um pessoa realizando determinada atividade (expressiva, construtiva...) haviam boas possibilidades que esse outro (que só via) viesse a experimentar tal produção também. Se um fazia pintura, logo mais outro também queria experimentar. Se um fazia café, outro mostrava interesse em fazer. Assim as atividades circulavam entre as pessoas, conectando-se. E as linguagens acabavam por produzir uma "zona do comum possível" entre os integrantes do grupo que para além de interagiam entre si, também punham a postos a interação entre suas atividades.
Esse fenômeno da "prova" pode ser pensado (não só, como também é usado) amplamente. Do marketing ( e suas ações replicadoras de vontades coletivas) até a gravura ( e suas replicações da imagem- sempre "iguais e diferentes entre si). A gente também observa isso nos comportamentos e mudanças de comportamentos das pessoas (onde um certa cópia do bom exemplo acaba nos "salvando")... E não tem nenhum problema nisso, a gente só precisa reconhecer.
Porém, nem tudo são flores nessa história "copiada"... Também existem algumas desvantagens. Um delas é quando esse processo é por demais recorrente, promovendo uma espécie de dessensibilização e falhas nos processos de demonstração da criatividade por parte de muitos indivíduos que sempre observam os outros fazerem as coisas primeiro. Certo gesto espontâneo é posto de lado, perdendo sua potência.
Nesse acontecido de hoje, não houveram grandes distinções entre a potência compositiva dos grupos e sua poiesis ; No fundo eles (potência e poiesis) pareciam um e o mesmo. Por potência, nesse caso, foi mais como as coisas vieram a ser feitas por esse grupo. Já a poiesis mostrou-se na invenção de um que foi transformando em outra coisa a partir da junção de cada fragmento de ideia construindo uma maior... (engraçado a gente pensar que a democracia é isso= a soma dos tantos fragmentos de um corpo social... enfim!)
Das práxis (e seus objetos-ação) foi possível fazer acontecer coisas que não estavam ali antes de acontecer (ou seja, mudar). As práxis agem no mundo para fazer algo diferente acontecer... ou não! (Confere, produção?)
Pra ir fechando o texto... percebi ainda que nesses fenômenos do fazer (seja no grupo de TO, seja na pré-conferência), esses fenômenos que estão instalados no campo do fazer e que são mais aparentes, trazem a tona partes da "natureza" dos objetos-coisas e dos objetos-ações. Essas se encontram numa dinâmica imanente... mas isso é assunto pra outro dia.
Até lá
André (miolo) Nunes

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