Mãos à obra.
Recentemente, comecei a usar o Instagram de uma maneira diferente. Algumas pessoas que me seguem por lá acabam chegando aqui, ao meu blog, clicando no link da bio. Mas também pode haver quem chegue diretamente aqui, sem passar pelo Instagram — embora isso seja bem menos provável.
Essa reflexão me fez perceber que a blogosfera, pela qual nutro tanto afeto há anos, ainda tem um potencial enorme a ser explorado. Principalmente diante do cenário que se desenha atualmente, com as transformações tecnológicas e culturais que partem do "norte" das Américas. Vivemos em um momento em que nossas vidas são moldadas pelos fluxos das big techs, em meio a uma guerra híbrida de dados, onde informações são capturadas e processadas para alimentar o que chamamos de "inteligência artificial".
Decidi, então, retomar a escrita no blog. Afinal, o que compartilho no Instagram dialoga intimamente com uma poética que já havia estabelecido aqui há alguns anos. Gosto de escrever, isso é fato. No entanto, os textos no Instagram precisam ser concisos, o que muitas vezes me desagrada, devido ao limite de caracteres que restringe a profundidade da mensagem.
Nessa vontade de dizer mais, me pergunto: O que ainda cabe escrever aqui? Ao formular essa pergunta, percebo que há nela um certo reclinar-se sobre o que tenho feito. Surge, então, um lampejo de autocrítica. Seria este o espaço para elaborar, de forma mais apurada, o que venho produzindo?
Reconheço que o que trago aqui é uma espécie de "literatura barata", como gosto de chamar. Tenho dificuldades em organizar minhas ideias dentro de estruturas rígidas, como as exigidas pela ciência e suas normas ABNT. Não que eu não tenha pesquisado sobre como estruturar um artigo científico, mas me moldar a isso me causa uma certa paúra — sim, essa palavra que dificilmente caberia em um texto acadêmico.
Embora eu queira expor no Instagram parte do processo de criação da série-álbum "Ordinarices", percebo que lá não há espaço para uma abordagem mais ampla. Às vezes, espero que as coisas transpareçam nas entrelinhas dos carrosséis de fotos e dos microtextos. Reúno fragmentos de cenas e imagens que capturo a cada dois dias, ou até mais, e as compartilho para que as pessoas vejam um pouco do meu cotidiano. A ideia é resgatar aquilo que só o dia a dia é capaz de revelar. Além disso, incluo uma trilha sonora que, de certa forma, reflete o espírito do momento capturado nas fotos. Assim, acabo construindo uma playlist no Spotify, que complementa essa experiência. (Aqui poderia entrar o hiperlink da playlist.)
No momento, reconheço que essas experimentações só são possíveis porque ainda não retomei todas as atividades de trabalho e estudos. É bem provável que eu precise repensar como darei continuidade a isso quando a agenda voltar a ficar cheia. Por enquanto, aproveito os momentos de tempo livre. Apesar de ter um trabalho de conclusão de disciplina me esperando, iludo-me pensando que este blog talvez seja uma forma de retomar um processo de escrita mais longo e reflexivo.
Percebo que estou imerso em um processo de produção ampliada, que envolve imagens, palavras e sons. Gosto dessa mistura de esferas, onde os acontecimentos não apenas entram e saem, mas compõem algo que carrega um tanto de disritmias — e que dialoga com aquilo que imagino ser uma demanda dessa relação com o outro: o ato de compartilhar.
Estabeleci um teto de tempo para escrever diariamente. Tenho notado que, assim como muitos, minha atenção anda dispersa. Começo uma coisa, pulo para outra, e assim vai. Tudo parece refletir o uso do celular e o hábito de rolar a tela para cima. Lembro de ter lido, nos anos 90, em uma revista chamada Velotrol, que o telefone era o único eletrodoméstico que "assaltava" nossa atenção. Quando tocava, parávamos imediatamente o que estávamos fazendo para atendê-lo. Com os smartphones e o WhatsApp, as ligações tornaram-se raras. Em casa, o telefone fixo não toca há meses. Em contrapartida, as mensagens de texto e áudio não param de chegar. Muitas vezes, percebo que nem é a mensagem em si que me faz pegar o celular, mas a curiosidade de saber o que está acontecendo naquela esfera de comunicação. A vontade de estar conectado impera, como se fosse um "grande chamamento coletivo" que afeta profundamente nossa individualidade.
Reflito sobre o quanto o celular impactou a configuração de nossos cotidianos. Lembro de quando trabalhava em um serviço e, ao esquecer o celular em casa, voltava correndo para buscá-lo. Se não dava tempo, sentia-me incompleto, como se estivesse "pela metade" no trabalho. De fato, nos tornamos extremamente dependentes desse aparelho. Cada vez mais, aceito a provocação incômoda do filósofo Byung-Chul Han, que define o smartphone como nosso "playground" — o chão onde brincamos.
Enfim, acho que o uso do celular é uma das maiores ordinarices da vida contemporânea. É bem provável que você esteja segurando um agora, enquanto lê isso aqui.
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Tudo isso sobre conexão me faz lembrar do antropólogo Nestor García Canclini, autor de vários livros, mas aqui trago em especial "Diferentes, Desiguais e Desconectados", de 2005. Uma daquelas obras de referência para quem se aventura pelas órbitas do cultural — esse campo que, ultimamente, tenho pensado, como ele mesmo sugere, mais como um adjetivo do que como um substantivo na configuração da ordem social. Mas isso já é outro papo.
Sempre acho que valeria a pena ler essas coisas em grupo. Volta e meia, me pego nutrindo a vontade de montar coletivos de estudo ou clubes de leitura. Estudar sozinho é bom e ruim ao mesmo tempo. Folheei alguns capítulos do Canclini e quem sabe retomo a leitura em 2025? Alguém aí se anima a enveredar pelos Estudos Culturais?
Convoquei o Canclini aqui porque tenho pensado cada vez mais sobre a invasão da informática e a "on-linização" de todo o nosso modo de construir o cotidiano na atualidade, especialmente nos meios e bordas dos processos de comunicação. O quanto esse aparelhamento da vida se tornou algo imperativo, lançando-nos a uma zona intermediária de interação com as pessoas e suas produções, veiculadas de modo ininterrupto, sem pausas. E o quanto essa hiperprodução também gera um esvaziamento, uma certa banalização do comunicado. Tudo se torna consumível, num modo capitalista de info-fast-food. Isso, de fato, tem ocupado, em velocidades assustadoras, as relações humanas em variados domínios.
Voltando à ideia que me fez lembrar do Canclini: seu conceito de desconectados, presente nos processos de interculturalidades, remete aos campos comunicacional e informático. Nele, a ideia de inclusão e exclusão aparece como parte dos processos de construção de uma sociedade que se pensa e se faz como uma grande rede-conexão.
Entendo que a internet, para além de outras finalidades, pode ser também usada como um campo de pesquisa e produção de cuidado. O que quero dizer com isso? Se, por um lado, fazemos dela um novo terreno de inclusão da informação — e uma certa ânsia pelo saber nos leva a buscar aqui os conteúdos para construir respostas e pensamentos —, uma oferta variada de posições de conhecimento nos é apresentada (não sem levar em conta a existência de um mercado de informações por trás dessa apresentação). Essa operação de busca pelo saber acaba, de fato, solando nosso cotidiano, de tal modo que estar desconectado dessa rede infoviária passa a ser outra forma de sofrer na pele o processo de exclusão.
Por outro lado, a própria produção teórica de conhecimentos, que muitas vezes ficou distante da possibilidade de aplicação direta no cotidiano das pessoas, através do acesso à internet, tem se tornado cada vez mais necessária. Desce, assim, de seu pedestal intocável para a esfera do dia a dia, para aquilo que possa ser encontrado em comum, reafirmando nas pessoas uma vivência do que é real a partir do compartilhamento, do que é ordinário.
Se, por um lado, a conexão pode facilitar trocas e encontros mais acessíveis com o conhecimento, a hiperconexão tem servido como produtora de outros distanciamentos. Refiro-me ao sentido de conexão com o vivo e com aquilo que é passível de produção pelo sistema a partir desse novo modo de ser distante estando ao lado — algo que se tornou comum em nosso dia a dia. A cena a que me refiro não é difícil de se ver: entre em qualquer meio de transporte e você verá pessoas totalmente imersas em seus aparelhos. Até na locomoção mais comum, como caminhar ou subir uma escada (seja rolante ou não), há pessoas mergulhadas naquilo que seus smartphones trazem como informação.
Não assisti a tantos episódios de "Black Mirror", mas cada dia mais presencio que essa é uma curva sem volta. O admirável novo mundo já está aqui, e cabe a nós decidir como vamos ocupá-lo de modo que a experiência de conexão possa, de fato, nos ajudar a escavar o buraco em que estamos metidos.
Enfim, acho que por enquanto já deu.
Saudações,
André Miolo
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