Cotidiano é setting? Contribuições de Winnicott para o pensar-fazer cuidado nos serviços residenciais terapêuticos.
Cotidiano é setting? Contribuições de Winnicott para o pensar-fazer cuidado nos serviços residenciais terapêuticos.
Terapeuta Ocupacional,
Acompanhante Terapêutico,
Psicanalista
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Resumo
Este artigo tem como objetivo explorar a relação entre o conceito de ambiente facilitador, proposto por Donald Winnicott, e o trabalho desenvolvido nos Serviços Residenciais Terapêuticos (SRTs) no contexto brasileiro. A partir de uma revisão bibliográfica da obra de Winnicott, discute-se a importância do ambiente na constituição do indivíduo, destacando a provisão e a adaptação como elementos fundamentais para o amadurecimento emocional. O texto aborda ainda as falhas ambientais e suas consequências para o desenvolvimento, propondo uma reflexão sobre o setting terapêutico nos SRTs como um espaço de resgate e reconstrução da identidade de pessoas egressas de longas internações psiquiátricas. A análise enfatiza a confiabilidade, a adaptabilidade e a humanização do cuidado como pilares para a promoção de um ambiente facilitador, capaz de acolher e integrar indivíduos com histórias de privação e exclusão social. Conclui-se que o cotidiano dos SRTs, ao incorporar aspectos da teoria winnicottiana, pode ser compreendido como um setting terapêutico ampliado, onde a vida diária se torna um espaço de cura e ressignificação.
Palavras-chave: Ambiente facilitador. Serviços Residenciais Terapêuticos. Winnicott. Cuidado terapêutico. Amadurecimento emocional.
Abstract
This article aims to explore the relationship between the concept of the facilitating environment, proposed by Donald Winnicott, and the work developed in Therapeutic Residential Services (SRTs) in the Brazilian context. Based on a bibliographic review of Winnicott's work, the importance of the environment in the constitution of the individual is discussed, highlighting provision and adaptation as fundamental elements for emotional maturation. The text also addresses environmental failures and their consequences for development, proposing a reflection on the therapeutic setting in SRTs as a space for rescuing and reconstructing the identity of individuals who have experienced long-term psychiatric hospitalizations. The analysis emphasizes reliability, adaptability, and the humanization of care as pillars for promoting a facilitating environment, capable of welcoming and integrating individuals with histories of deprivation and social exclusion. It is concluded that the daily life of SRTs, by incorporating aspects of Winnicott's theory, can be understood as an expanded therapeutic setting, where everyday life becomes a space for healing and re-signification.
Keywords: Facilitating environment. Therapeutic Residential Services. Winnicott. Therapeutic care. Emotional maturation.
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Introdução
A ênfase no ambiente é um aspecto central na obra de Donald Winnicott, tanto no que se refere à provisão – entendida como o fornecimento daquilo que é fundamentalmente necessário – quanto à suficiência – no sentido de garantir suporte e adaptação às experiências relacionais ao longo do processo de amadurecimento. Ambos os aspectos são cruciais para a constituição do indivíduo.
Ao compreender que, na relação indivíduo-ambiente, podem ser constituídos tanto aspectos saudáveis do ser quanto seus opostos – ou seja, aspectos relacionados ao surgimento de distúrbios maturacionais e seu caráter etiológico –, é possível abrir caminhos para orientar o cuidado. Esses caminhos podem se dar por meio de adaptações técnicas, enquadramentos terapêuticos (settings) ou perspectivas prognósticas que visem à promoção de relações saudáveis.
Entre os objetivos gerais deste trabalho, destaca-se a aproximação entre os conhecimentos desenvolvidos por Winnicott – especialmente suas noções de setting e assistência residencial – e o contexto de atuação dos profissionais que compõem os Serviços Residenciais Terapêuticos (SRTs). Para tanto, será realizada uma breve explanação sobre esses serviços, considerando a necessidade de contextualização.
No que se refere aos objetivos específicos, este trabalho apresenta aspectos do conceito de setting na obra de Winnicott, com base em escritos que abordam ambientes facilitadores e manejos terapêuticos voltados a pessoas que vivenciaram falhas ambientais durante seus processos de amadurecimento. Em especial, propõe-se uma reflexão sobre o trabalho desenvolvido junto ao público que permaneceu internado em manicômios por anos e que agora reside em SRTs. Para alcançar esses objetivos, foram realizadas pesquisas bibliográficas e revisões da extensa obra de Winnicott, além de textos que abordam o tema sob a perspectiva winnicottiana.
Nesse sentido, considerar a casa – ou, mais precisamente, o ambiente de um Serviço Residencial Terapêutico – como um espaço de relações, onde os processos de amadurecimento emocional e desenvolvimento pessoal dos moradores possam ser resgatados, permite estabelecer um diálogo profundo com a obra de Winnicott. Esses indivíduos, que por anos estiveram confinados a uma existência reclusa e muitas vezes desprovida de dignidade, encontram nos SRTs a possibilidade de ressignificar suas vidas e reconstruir seus percursos existenciais.
Desenvolvimento
Em 2001, como resposta à luta social pela reforma da assistência à saúde mental no Brasil, a Lei nº 10.216 (BRASIL, 2001) estabeleceu dispositivos públicos que integraram as Redes de Atenção à Saúde Mental. Essa legislação representou uma reparação pelos horrores vividos por pessoas que permaneceram internadas em manicômios por anos, privadas de liberdade e direitos. Dentre esses dispositivos, destacam-se os Serviços Residenciais Terapêuticos (SRTs), cujo objetivo é resgatar indivíduos egressos de hospitais psiquiátricos, sem vínculos familiares ou comunitários, por meio de estratégias de desospitalização, desinstitucionalização, habilitação e reabilitação psicossocial. O propósito é possibilitar que essas pessoas vivam plenamente seus processos de amadurecimento emocional, desenvolvimento pessoal e (re)socialização.
Os SRTs são serviços de vida, caracterizados como moradias assistidas de base comunitária, vinculadas à rede pública de saúde. Destinam-se a pessoas com transtornos mentais graves, que passaram por longas internações psiquiátricas e possuem precário suporte social e familiar. Nessa perspectiva, cada morador torna-se usuário dos equipamentos da rede de serviços do território, recebendo acompanhamento integral, integrado e personalizado de acordo com suas necessidades. O trabalho é pautado na construção de projetos terapêuticos singulares, que substituem a lógica manicomial, visam prevenir a institucionalização e garantem o cuidado em liberdade, a inclusão social e o exercício da cidadania.
Cada casa/SRT é composta por uma equipe de 10 a 12 acompanhantes/cuidadores de saúde (com turnos de 12x36 horas), uma técnica de enfermagem (40 horas) e um supervisor (40 horas, com cobertura remota 24 horas por dia), além da equipe multiprofissional dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Diante dessa estrutura, questiona-se: que lugar é esse? Que demandas acolhe e produz? Quais enquadres terapêuticos são possíveis em seu cotidiano?
Partindo da ideia de que o cuidar é a atividade central na clínica e, por isso, deve ser aberto e adaptável ao outro, pressupõe-se a existência de um ambiente humano que se ajuste às necessidades dos moradores, sejam elas óbvias ou não. O grupo de residentes dos SRTs é composto, em grande parte, por pessoas cujo trabalho analítico envolve os estágios iniciais do desenvolvimento emocional, marcados por falhas ambientais significativas. Como afirma Winnicott (1954/2021, p. 464), é necessário, antes de tudo, “o estabelecimento da personalidade como uma entidade e antes da aquisição do status de unidade em relação a espaço-tempo.”
O cuidado nos SRTs frequentemente ocorre por meio da adaptação da técnica, em que o trabalho analítico tradicional é suspenso, e o manejo ocupa a maior parte do processo. Mesmo nessa adaptação, há aspectos do que Winnicott considera setting: um conjunto de características que englobam planos e formas de cuidado, baseados em uma posição ética. O terapeuta/cuidador oferece ao paciente a provisão ambiental necessária, como destacado por Winnicott (1962/2008, p. 152-155): “Faço análise porque é do que o paciente necessita. Se o paciente não necessita análise, então faço alguma outra coisa... se não, então somos analistas praticando outra coisa que acreditamos ser apropriada para a ocasião.”
No cotidiano dos SRTs, as relações, o tempo e o espaço são organizados para promover experiências integrativas. Isso ocorre por meio de ações cotidianas que permitem aos moradores sentirem-se relaxados, motivados e ativados em seus processos de continuidade de ser. Também são realizadas ações que integram psique e soma, apresentam objetos e situações que abrem espaços potenciais para a criação do novo. Essas atividades refletem flutuações naturais da vida, com oscilações entre estados integrados e não integrados, resgatando tarefas fundamentais dos estágios iniciais do desenvolvimento.
Baseadas no conceito de ambiente facilitador, muitas dessas ações ganham contornos específicos. A casa (e as pessoas que a compõem) se apresenta como um ambiente onde a continuidade de ser de cada indivíduo pode ocorrer. Embora bloqueios ou interrupções possam acontecer devido a dinâmicas interrelacionais, o objetivo é evitar falhas ambientais graves que reproduzam experiências traumáticas do passado.
Winnicott propicia uma apreciação valiosa das condições humanas e não humanas, objetivas e subjetivas, externas e internas, que promovem a luta individual pela constituição do self. Essa visão da relação indivíduo-ambiente destaca aspectos como a dependência, a variabilidade, a adaptabilidade e o caráter humano na constituição dos ambientes, elementos essenciais na prática clínica (SERRALHA, 2016).
A dependência é um conceito central na teoria do amadurecimento de Winnicott. As necessidades de provisão mudam conforme a progressão dos estágios de dependência absoluta para independência. Na dependência absoluta, por exemplo, a mãe deve prover de modo suficientemente bom as necessidades do bebê, pois estados de não-integração são predominantes. Como afirma Winnicott (apud DIAS, 2017, p. 110), “A unidade é o conjunto ambiente-indivíduo, unidade da qual o bebê é apenas uma parte.”
A confiabilidade é outro aspecto crucial. Diante da imaturidade, da doença e da velhice, é necessário que pessoas confiáveis reconheçam e atendam às necessidades de cuidado. Como destaca Winnicott (1970 b/2021, p. 133), “A confiabilidade vai ao encontro da dependência.” Nas relações dentro de um SRT, a dependência envolve não apenas o cuidado físico, mas também o suporte emocional e psicossocial. A presença confiável dos cuidadores permite que um senso de continuidade e confiança se instale.
Por fim, a adaptabilidade e o caráter humano na ambientação são essenciais para a constituição de ambientes facilitadores. A empatia e a dedicação são fundamentais para enfrentar decepções e frustrações decorrentes de falhas ambientais, promovendo melhoras nas relações de cuidado.
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Conclusão
Ao retomar a pergunta inicial deste trabalho – “Cotidiano é setting?” – e voltar-se especificamente ao trabalho desenvolvido nos Serviços Residenciais Terapêuticos (SRTs), é possível afirmar que a relação entre cotidiano, setting e as ideias de Donald Winnicott refere-se, entre outros aspectos, à interconexão entre a vida diária, o ambiente facilitador terapêutico e a importância do ambiente na formação da identidade e no processo de curar-cuidar. Essas conexões não apenas fundamentam a prática nos SRTs, mas também podem inspirar outras modalidades de cuidado, como acompanhamentos domiciliares, processos terapêuticos ocupacionais e a clínica do Acompanhamento Terapêutico (A.T).
Pensar o cotidiano como um enquadre temporal estendido, que se organiza diariamente, remete à noção winnicottiana de que a natureza humana se temporaliza a partir de uma tendência inata ao amadurecimento, gerando integrações internas e com o ambiente. Essa temporalização necessita ser contextualizada em espaços que atendam a uma gama de necessidades relacionais, como ocorre nos SRTs.
Outro aspecto relevante é a forma como Winnicott aborda o termo necessidades. Em textos como “Um caso tratado em casa” (1955) e “Assistência residencial como terapia” (1970a), o autor exemplifica os cuidados por meio de atividades cotidianas, destacando a importância das pessoas, objetos e materialidades que compõem o ambiente de moradia. Esses elementos, ao serem analisados com maior profundidade, remetem a funções como a de segurar (holding) e a de previsibilidade, que servem como pano de fundo para a construção de um ambiente facilitador.
Por fim, o cotidiano de uma residência terapêutica, especialmente em momentos como o horário do almoço, ilustra de maneira concreta esse pano de fundo. Ao meio-dia, a mesa é posta, as pessoas se sentam, a comida é servida, sucos são oferecidos, e conversas humoradas ou sérias fluem entre moradores e cuidadores. Esse momento diário, enquadrado no setting terapêutico, é a prova de um ambiente/habitar facilitador. Facilitador porque promove, entre os conviventes, regularidade, estabilidade, simplicidade, confiabilidade, sustentabilidade, previsibilidade, adaptabilidade, segurança e amorosidade – ingredientes essenciais para os processos de cuidar. Essas experiências cotidianas refletem o que podemos chamar de antropologias do morar, onde a vida diária se torna um espaço de cura e ressignificação.

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