Breve análise sobre minha experiência escavatória da escrita de si




 

Recentemente, transformei posts publicados no Instagram há mais de um ano em livro, criando uma pequena narrativa sobre o processo de desocupação. Gostaria agora de compartilhar com vocês algumas questões que permearam o processo, a fim de abrir um campo de diálogo com os futuros leitores.

Ele está inscrito em uma categoria narrativa denominada de "escrita de si" ou "autonarrativa", e pelo andar da carroagem no ato de escrever compreendo que ele é muito mais do que um simples diário: é uma prática complexa que intersecta profundamente quatro eixos: a psicologia, a sociologia, a linguística e, porque não, as “terapias ocupacionais”.

Farei uma análise inicial, examinando cada eixo separadamente.

1. Definição e Contextualização da "Escrita de Si"

Durante os estudos realizados no Coletivo de Terapia Ocupacional como Produção de Vida, coordenados pela terapeuta ocupacional Mariângela Quarentei, contamos com a ilustre presença de outra terapeuta ocupacional: Eliana Anjo Furtado, que havia desenvolvido um método de pensar-fazer-sentir terapia ocupacional. Em sua tese de doutorado defendida em 2010, intitulada 'Método da escavação como recurso de ensino e clinico em terapia ocupacional na perspectiva da abordagem ergológica', Eliana apresentou suas ideias. Ela veio compartilhar conosco as diversas formas possíveis de operar o Cuidado de Si. Durante meses de encontros, o coletivo pôde experimentar os efeitos potentes daquela experiência de escavar as atividades, buscando o que nos aproximasse do que poderia ser considerada alguma “atividade sagrada” que de certo modo proporcionava no agente efeitos integrativos.

Pautado nessa experiência, fui cada vez mais compreendendo que escrever estabelecia um laço significativo com minhas experiências pessoais de construção de sentido na vida, e me dediquei a essa atividade de maneira bastante particular.  Anos depois, sob orientação da terapeuta ocupacional Aline Godoy, participei de uma oficina de escrita denominada : "escrita de si". Essa refere-se a qualquer prática textual em que o indivíduo torna-se, ao mesmo tempo, sujeito e objeto da narrativa (o que dialoga diretamente com alguns dos preceitos da terapia ocupacional, onde o sujeito agente se torna também objeto de sua ação).

Voltando à escrita de si, ela abrange desde diários íntimos e autobiografias até memórias, cartas não enviadas, blogs pessoais e posts em redes sociais. De certo modo, todo esse universo de práticas fez parte de meu cotidiano, nem sempre o atual.

O filósofo Michel Foucault foi um dos grandes teóricos do conceito do cuidado de si, descrevendo-o como uma "tecnologia do si", ou seja, um conjunto de práticas por meio das quais os indivíduos realizam operações sobre seu próprio corpo, alma, pensamentos e condutas para se transformarem e atingirem um estado outro de felicidade, pureza, sabedoria ou verdade (sendo a parresia esta última a principal mola propulsora do processo).

2. Análise Psicológica

A relação aqui entre escrita e um aspecto do si mesmo (a mente) é profunda e bidirecional: não só a mente influencia a escrita e a escrita transforma a mente, como essa vivência também abre espaço para que questões próprias possam ser exploradas, fomentando acontecimentos que tocam em necessidades que ficaram reclusas ou não elaboradas.

No contexto do processamento emocional e cognitivo, o escrever sobre experiências traumáticas ou estressantes força uma estruturação do que se pode nomear de caos mental. O psicólogo James W. Pennebaker, pioneiro na "escrita expressiva", demonstrou que articular em palavras uma experiência dolorosa reduz a atividade do sistema límbico (centro das emoções) e ativa o córtex pré-frontal (centro do raciocínio e da linguagem). Isso literalmente ajuda o cérebro a "digerir" a emoção, transformando-a em uma narrativa com princípio, meio e fim, removendo seu poder paralisante.

Quanto ao Autoconhecimento e Integração do Self, ao escrever, o autor externaliza partes de si mesmo. Ele pode ler sua própria história como se fosse um "outro", ganhando distância e perspectiva. Esse processo é fundamental para a integração de aspectos fragmentados ou negados da personalidade, abrindo espaços potenciais de criatividade. A escrita torna o invisível, visível; o inconsciente, consciente.

Na regulação emocional, escrever serve como uma válvula de escape segura para emoções intensas como raiva, tristeza ou ansiedade. Ao expressar essas emoções no papel, o escritor pode encontrar outros meios para que essas não sejam descarregadas de forma destrutiva em relacionamentos ou no próprio corpo, prevenindo manifestações psicossomáticas.

E, finalmente, como exercício de clareza e resolução de problemas, ao escrever ou até mesmo listar questões mal resolvidas, medos e opções por escrito, a mente para de ruminar em loops infinitos, dando alguma base para que se possa visualizar aquilo que muitas vezes ainda não coube em palavras. A escrita lineariza o pensamento, tornando os problemas mais palpáveis e as soluções mais evidentes.

3. Análise Social

A escrita de si, assim como qualquer outra atividade, nunca ocorre no vácuo. Ela está vinculada a um contexto e, portanto, é possível afirmar que, mesmo na esfera da intimidade, constitui um ato profundamente social.

Nós nos construímos através das histórias que contamos sobre nós mesmos. A escrita de si pode ser um laboratório onde diferentes identidades são experimentadas, permitindo novas construções da identidade social do autor. Em uma sociedade digital, esse fenômeno é cada vez mais intenso. O Eu frequentemente se aproxima de uma performance e, mesmo assim, é comum observar que muitos acabam nessa dinâmica efetuando práticas que “curam” a persona online por meio de posts, stories e tweets - formas modernas de escrita de si. No compartilhamento dessas postagens, a interação com a rede relacional gera feedbacks que auxiliam quem posta a estabelecer um canal tanto emissor quanto receptivo de mensagens.

Ao escrever, o indivíduo dialoga, internaliza ou contesta os valores e expectativas da sociedade à qual pertence. No caso da escrita de si, uma espécie de autobiografia, por exemplo, trata-se sempre de uma justificativa de uma vida perante um tribunal social imaginário. O que muitas vezes habita os pensamentos e criações ganha outros contornos. Ao compartilhar histórias pessoais (em redes sociais, grupos de apoio, fóruns online, livros), é possível criar laços de solidariedade e validação, embora também possam surgir ondas de haters, fenômeno social amplamente presente nas esferas digitais. Ver a própria experiência refletida na história de outro, ou ter a própria história reconhecida, é um poderoso antídoto contra o sentimento de isolamento e alienação. A frase "eu também passei por isso” tem um enorme poder social e curativo.

As escritas autobiográficas de pessoas comuns são documentos preciosos que capturam o Zeitgeist (espírito da época) de uma forma que a história oficial não consegue. Elas mostram o impacto das grandes transformações sociais (guerras, migrações, lutas sociais e crises) na vida cotidiana das pessoas, terreno esse amplamente explorado pela Terapia Ocupacional.

4. Análise Linguística

A linguagem não é apenas um veículo neutro para a expressão; ela molda ativamente a experiência. Oferece um repertório limitado de palavras e estruturas gramaticais para expressar uma experiência interna ilimitada. Esse "encaixotamento" é, ao mesmo tempo, uma limitação e uma ferramenta de clareza. Força o autor a fazer escolhas: "Foi tristeza ou desapontamento?", "Foi reabilitação ou desocupação?". Durante o ato da escrita, fui me deparando com esse aspecto de jaula da linguagem, em momentos em que era necessário rever qual estrutura linguística comportaria melhor aquilo que eu gostaria de expressar. Contos em prosa, cartas e poemas foram formas exploradas na elaboração do livro.

Humanos entendem o mundo através de histórias, que se manifestam por meio de narrativas e atribuições de significados ao que se escreve. A escrita de si impõe uma estrutura narrativa (com causa, efeito, vilões, heróis e um arco de transformação) sobre a sequência caótica de eventos da vida, e no caso em questão, do cotidiano que estava sendo recontado através da experiência narrada. Ao fazer isso, a criação de significados foi gradualmente estabelecida, não sem antes reestruturar a cadência e fluidez dos capítulos do livro. Um evento aleatório e doloroso podia se tornar um "capítulo difícil" na "jornada da escrita" da própria vida, sendo muitas vezes diluído em cuidados de mim mesmo e cuidados para com o leitor imaginado.

A linguagem figurada (cheia de metáforas e analogias) foi, e é, uma ferramenta crucial para expressar o inefável. Dizer "sinto um vazio, um NADA no peito” ou "era uma névoa cinzenta" teve sua eficácia para comunicar estados emocionais complexos, mais até do que as tentativas descritivas literais sobre o assunto. O cuidado em escolher palavras, deletar partes, editar o que e como seria dito foi um excelente exercício de escolha, ou, por que não dizer, de autonomia.

A escolha de escrever em terceira e/ou primeira pessoa, de usar um tom beirando o confessional ou à forma discursiva falada, ou mesclando trechos irônicos com perguntas mais sérias, foram também escolhas linguísticas que refletiram , e refletem, moldaram e moldam as possibilidades de relação do “meu eu” autor com meu próprio self.

5. Práxis e Efeitos Terapêutico-Ocupacionais

Este último eixo, embora seja o mais familiar por aqui, busca trazer ideias e questões que apliquem as análises e conceitos anteriormente descritos em um contexto próximo ao raciocínio clínico e aos campos da (re)abilitação.

A Terapia Ocupacional se baseia num fundamento teórico de que o agente precisa vivenciar, através de suas ações, um engajamento em atividades significativas, sendo isso fundamental para produção de sua saúde e bem-estar. A escrita de si é uma atividade altamente significativa, que pode ser adaptada às virtudes de qualquer condição física ou cognitiva.

Seu uso nos processos como ferramenta de avaliação situacional pode ser um começo ou convite para entrada no processo. A escrita do paciente (considerando o conteúdo, a coerência, a caligrafia, a organização no papel, entre outros aspectos) pode oferecer pistas valiosas sobre seus estados cognitivo, emocional e funcional, mas principalmente sobre seus modos de ser e fazer.

 Como intervenção, a escrita toca em alguns pontos relevantes que podem ser elencados. Ao dar voz a quem se sente silenciado pela doença, trauma ou incapacidade, o terapeuta oferece um espaço potencial de relação, um ato inicial de acolhimento e suporte para que a mensagem recebida possa ganhar algum grau de realização. O paciente deixa de ser um "objeto passivo" de cuidado e torna-se o "autor ativo" de sua própria história. Isso restaura o senso de controle (agência de si), que é muitas vezes perdido em processos de adoecimento. Todos esses aspectos são exemplos de empoderamento e agenciamento que a experiência de escrever pode proporcionar. 

Para um paciente com um diagnóstico novo ou uma deficiência adquirida, escrever sobre a experiência ajuda a integrar essa nova realidade à sua identidade. A pergunta "quem sou eu agora?" pode ser explorada com segurança no papel. Nesse sentido a integração da experiência da “doença” vai aos poucos abrindo graus de liberdade, anunciando graus de saúde presentes nesse paradoxal binômio saúde-doença. 

A prática da escrita também exercita a memória, a criatividade e imaginação, a organização sequencial, a atenção e as funções executivas, desenvolvendo habilidades cognitivas, gráfico-manuais, posturais, emocionais e muitas outras que demandariam uma análise mais extensa. Em alguns atendimentos com a população idosa, tenho utilizado um livro interessante de Elma Van Vliet, no Brasil pela Sextante, com mais de 4 milhões de exemplares vendidos mundialmente. O livro se chama 'PAI' (ou 'MÃE', ou 'AVÓ/AVÔ') ME CONTA SUA HISTÓRIA e tem se mostrado um excelente recurso para momentos descontraídos, ou nem tanto, na relação terapêutica. Após algumas semanas, releio aos autores suas respostas, e esse reencontro gera uma felicidade ímpar.

Isso nos leva a pensar sobre como os processos terapêuticos têm também, como função, serem espaços de facilitação da comunicação. Para pessoas com dificuldades de comunicação verbal (por exemplo, alguns casos de autismo, afasia, quadros de transtorno cognitivo leve, ou até mesmo quadros demenciais, ansiedade social), a escrita pode ser um canal alternativo e menos ameaçador para expressar necessidades, medos e pensamentos à equipe terapêutica e até mesmo à família.

E por fim, pensando no grande território existencial do cotidiano, com suas rotinas e estruturas, a prática regular da escrita (como um diário) impõe uma forma criativa de compor alguma cadência à rotina, sendo ela um momento de pausa e reflexão extremamente benéfico para a saúde mental. Escrevo diariamente, assim que acordo, uma experiência conhecida como escrita automática ou páginas matinais. Essa práxis adquiri quando fiz um curso baseado no livro de Julia Cameron, vem me ajudando a colocar no papel muitas questões que por vezes estão rondando minhas ideias, sonhos e preocupações, mas que ao ganharem espaço no papel acabam produzindo em mim uma melhora significativa.

Por fim, chego à conclusão que a "escrita de si" é uma prática transformadora nas interfaces entre o indivíduo e o mundo, a arte e a saúde. Psicologicamente, é um mecanismo de processamento e regulação emocional que promove o autoconhecimento. Socialmente, é um ato de construção e negociação da identidade dentro de um contexto cultural, criando pontes de entendimento entre os indivíduos. Linguisticamente, é um processo através do qual a experiência amorfa ganha forma, estrutura e significado através das limitações e possibilidades da linguagem. E, Terapêutica Ocupacionalmente, é uma ferramenta poderosa de empoderamento, avaliação e intervenção que restaura o agenciamento de si, integra experiências traumáticas e facilita a comunicação.

Em última análise, a escrita de si faz a arte de fazer de uma vida uma história e, no processo de contar essa história, reescrever a própria vida.

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