Dezoito anos servindo palavras e cuidado



Há dezoito anos, o cursor de um computador no interior de um quitinete santista, piscava ritmadamente na tela em branco, aguardando que alguma ordenação de palavras fosse dada ao que, de verdade, eu nem imaginava direito o que era. Naquela época, a internet ainda engatinhava, em suas promessas de conexão global, a banda larga era uma novidade que se consolidava, e os chamados blogs surgiam como diários abertos, garrafas lançadas em um mar digital ainda desconhecido. Quando escrevi a primeira linha daquele que se tornaria um arquivo de quase duas décadas, não havia a pretensão de construir um compêndio ou de forjar um manual acadêmico. Havia, muito mais urgência do que método: a necessidade visceral de dar contorno à intensidade dos encontros que a prática clínica me proporcionava, juntamente as tantas descobertas que eram possíveis de serem estabelecidas através de hiperlinks no corpo dos textos publicizados. A eles uniam-se imagens, vídeos, músicas e uma gama outra variada de possibilidades de composições.

Mas, o que esse terreno de composições tem a ver com a T.O? A Terapia Ocupacional, especialmente quando exercida na espessura dos territórios existenciais e sob as premissas de uma saúde mental libertária, que já ousamos nomear de antimanicomial, é uma profissão que nos atravessa e nos desborda. Ao voltar para casa após um dia de trabalho em um Centro de Atenção Psicossocial, ou pros chegados CAPS, ou após atravessar as ruas de uma comunidade para um atendimento domiciliar, o corpo carregava vestígios que não cabiam na frieza de um prontuário institucional.

O prontuário exige da gente a objetividade do léxico técnico, o resumo do que foi observado ou síntese daquilo que se apresentou ou mesmo melhorias de sintomas, a evolução do quadro, a meta mensurável, etc e tals. Então, ficava me questionando: Onde se registra a cor exata construída pela mistura de tintas realizadas por uma pessoa que, enquanto chorava uma dor inominável, atinou um pouquinho de saúde através desse fazer? Em que campo do sistema oficial de saúde descrevemos o sorriso vacilante de quem, pela primeira vez em anos de exclusão, conseguiu assinar o próprio nome em uma tela de pintura?

Esses resíduos luminosos da prática clínica precisavam de uma morada. O blog nasceu dessa exigência ética e estética que aos poucos foi ganhando forças através do encorajamento e afirmação de Mariângela Quarentei que me dizia, nos encontros do Coletivo de Estudos Terapia Ocupacional como produção de vida: “Escreva de tantas formas que você conseguir. Preencha esse saber de seu jeito de dizer”. Lembro bem da sala do pequeno apartamento, em Santos-SP, voltar a se transformar num ateliê onde eu continuava uma outra forma de trabalho, depois que o expediente terminava.

Se, durante o dia, eu ofertava materiais  (argila, tintas, tecidos, papéis, madeira, café, conversas e ritmos) para que outros pudessem compor e tecer a si mesmo, à noite, eram as palavras e as imagens que funcionavam como minha própria matéria-prima. Escrever lá (aqui) no blog, tornou-se uma espécie de "atividade terapêutica", por ora não vou entrar nesse meando do uso das aspas para a nomeação da atividade, só sei que ela carregava meu modo de fazer costuras entre a arte, a saúde e o cotidiano.

Revisitar esse vasto arquivo digital, dezoito anos depois, é um exercício de arqueologia íntima e profissional que venho tentando encarar. Ao ler os primeiros textos, observo um terapeuta mais jovem, tateando o espaço do cuidado, maravilhado com a potência da Reforma Psiquiátrica brasileira que deixava de ser uma utopia legislativa para se tornar pulsação diária nas oficinas terapêuticas que coordenava. Com o passar dos anos e das postagens, a escrita foi ganhando outras espessuras. Deixou de ser apenas um desabafo fascinado diante do outro e passou a assumir um caráter de cartografia experimental.

Nesse sentido, a organização destes anos de reflexão em um novo suporte físico não é uma mera transposição entre plataformas de leitura. É, antes de tudo, um ato de curadoria ética. O educador e filósofo espanhol Jorge Larrosa, que estudamos no coletivo T.O como produção de vida,  nos ensina que a experiência não é o que se passa, mas aquilo que nos passa, o que nos acontece e nos toca. Sei também, por experiência própria, que vivemos em um tempo-mundo de excesso de informações, onde muita coisa acontece, mas quase nada nos toca profundamente. Os textos que compõem este trajeto aqui, nasceram de uma certa recusa em deixar a clínica se tornar apenas protocolo. Eles são o testemunho daquilo que me passou ao conviver com a loucura, com o sofrimento e, sobretudo, com a reinvenção da vida.

Em cada parágrafo digitado, ao longo dessa trajetória, noto a influência incontornável de mestres imersos na micropolítica do desejo. As vozes de Félix Guattari e Suely Rolnik, por exemplo, sussurravam nas entrelinhas, lembrando que a subjetividade se produz não apenas no interior da psique, mas também nas relações, nas ruas, na economia dos afetos e nas materialidades do mundo. A Terapia Ocupacional sempre foi, para mim, uma operadora dessa ecosofia. Quando um usuário da rede de saúde mental se reapropria da própria narrativa através de uma pincelada ou da tessitura de um fio, algo na ordem do mundo se altera. Há um processo de emancipação em curso.

Também, é impossível não reconhecer as sombras luminosas de Nise da Silveira projetadas sobre essas palavras colecionadas. O preceito de que o afeto é o catalisador de qualquer terapêutica possível permeia as reflexões tecidas ao longo do tempo. No entanto, o blog não se limitou a replicar o trabalho de Nise no contexto asilar, mas buscou esgarçar essas compreensões para o cenário contemporâneo: como sustentar esse cuidado amoroso e inventivo nas engrenagens das cidades atuais? Como fazer para que o pensamento compositivo de Nise da Silveira não se perdesse, ou silenciasse, dentro de uma batalha de ideias e discursos que privilegiavam autores de outras ordens da construção dos saberes? Como fazer da arte algo além de um adorno ou um passatempo, mas como diz Eliana Dias de Castro, uma prática social capaz de produzir pertencimento e apropriação de si?

A palavra "cuidado" carrega, em sua etimologia e em sua prática, a noção de cogitação, de pensamento dedicado a algo ou a alguém. Assim, o ato de tecer palavras no espaço do blog foi, e continua sendo, uma extensão do ato de cuidar, ou como elaborado nos escritos lá presentes: um cuidado diluído. Era o momento de elaborar as angústias de um sistema de saúde por vezes precário, mas repleto de vida pulsante; era o ato de trazer as palavras a tona de um modo libertário e criativo próximo a outras estruturas textuais que distanciavam-se do modelo dissertativo; era o espaço para celebrar os pequenos milagres invisíveis aos olhos da sociedade produtivista, como o dia em que o isolamento de anos de um paciente com esquizofrenia foi quebrado pelo adentrar o ateliê-oficina, meio hesitante, mas aceitante de um gole de café feito por outros componentes de uma coletividade.

A compilação destes ensaios, contos e crônicas clínicas revela um ponto de convergência irrefutável: a indissociabilidade entre a estética e a política. Ao longo destas quase duas décadas de registros (e três décadas de exercício profissional) e escritos as vezes diários, semanais, mensais ou anuais, permitem observar uma compreensão de que algo ganhou forma, se cristalizou e tornou-se uma estrutura, a espinha dorsal da minha prática. Compreender a profissão da Terapia Ocupacional exige adotar um pensamento que abraça muitos planos dessa uma existência. Não se conserta uma vida humana como se conserta uma máquina. Mas é possível criar máquinas que podem dinamizar a vida humana, eixo no qual o blog maquinomovel foi inventado. Nessas operações tem-se a vivência de que a vida humana se cultiva, se provoca e se recria. A criação de novos modos de existir, especialmente para aqueles que foram empurrados para as margens da sociedade, é essencialmente uma obra singular, e porque não nomeá-la de: arte?

No início, ainda havia uma separação quase didática na minha cabeça: aqui está o lado da saúde, responsável por cuidar, e as vezes curar ou reabilitar; ali está o lado da arte, responsável por expressar e embelezar. Com o passar do tempo e o acúmulo das experiências narradas, essa linha divisória ruiu por completo. O blog, como um diário clínico virtual, começou a atestar que as intervenções mais potentes aconteciam precisamente quando esses mapas se sobrepunham até borrar suas fronteiras. Ele em si era um experimento dessa ordem borrada. A arte deixou de ser uma ferramenta que a clínica utilizava, e a clínica deixou de ser um espaço onde a arte acidentalmente ocorria. Tudo então se mesclou resultando num modo híbrido de compreender e operar.

O que se ergueu desse encontro prolongado no tempo foi então uma zona de investigação própria. Os textos que sobreviveram à passagem dos anos mostram o labor de um profissional, de um artista e de um escritor tentando traduzir algo que beirava o intraduzível. Ao testemunhar o percurso de sujeitos que, diante das impossibilidades ditadas por laudos e estigmas, fabricavam novas saídas absolutamente inusitadas para suas existências, percebi que nosso repertório tradicional era insuficiente para essas formulações.

Frente a isso, me ponho a pensar. Há algo bastante singular no espaço e modo que o terapeuta ocupacional é convidado a ocupar seu próprio fazer. Não estamos no escuro absoluto do inconsciente inalcançável, nem estamos sob a luz cirúrgica da biomecânica pura. Habitamos o território dos saberes cotidianos. Aquilo com que lidamos com aqueles que ofertamos nossos trabalhos é a mesma matéria com a qual nós mesmos inventamos nossa lida diária. O momento de preparar um almoço comunitário, o tocar de um lápis numa folha em branco, a dobra cuidadosa de um pedaço de pano, a escolha de uma cor para pintar uma tela reciclada, o segurar de uma ferramenta que dará continuidade ao trabalho, o uso de uma lixa suavizando imperfeições da madeira... É na materialidade das coisas simples que grandes dramas da subjetividade se resolvem. E documentar isso por dezoito anos me ensinou que a escrita tem o mesmo poder da argila, da goiva, da tinta, ou melhor, ela aceita a sujeira, as marcas dos dedos, o peso das mãos e as impressões digitais das nossas angústias e de nossas potências.

Para que as palavras não fiquem presas ao tempo em que foram geradas, o esforço desta seleção foi transformar um material datado em um convite reflexivo para o tempo atual. Cada recorte dessa jornada foi pensado não para contar a minha história pessoal de modo narcísico, mas para oferecer uma perspectiva, um reflexo, no qual outras práticas possam também se observar. Quando compartilho, por meio da escrita, o instante em que uma oficina terapêutica de repente se transmuta em uma roda de conversa espontânea, ou num empreendimento bio-potente-econômico-solidário-social, estou propondo que sim, que olhemos para os métodos com um pouco menos de rigidez e possamos ousar com um átimo a mais de criatividade.

O sentido último destes dezoito anos tecidos em palavras é a celebração de um espaço de permeabilidade. Uma fresta, uma ruptura. Reúno aqui não certezas matemáticas sobre o funcionamento das atividades humanas, mas fragmentos de vida que resistem aos enquadramentos estritos. O arquivamento desse trajeto aponta para um modo de estar na clínica que foge das respostas prontas. Torna-se imperativo reconhecer que os encontros mais transformadores que tive com o sofrimento e com a potência alheia não aconteceram nos territórios rigidamente demarcados da normalidade. A verdadeira produção de vida, como os registros insistem em demonstrar, ocorre naquelas frestas onde nenhuma identidade se mantém intacta e onde as purificações dão lugar à beleza complexa da mistura.

Comentários