Ao começar esse escrito, retomei um pouco de onde essa ideia
do híbrido surgiu por aqui. Embora essa palavra, que agora tem circulado entre
as pessoas, e tenha ganhado projeção pós pandemia da COVID-19, marcando um lugar
de transição/modo de funcionamento do fazer humano, entre o presencial e a
distância... mas não foi nesse momento que isso aqui se deu.
Em 2001, durante as aulas do curso de especialização
‘lato-sensu’ Práxis Artísticas e Terapêuticas:
Interface da Arte e da Saúde, promovido pelo Programa Arte, Corpo e
Terapia Ocupacional (PACTO-USP), do Departamento de Terapia Ocupacional da
Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo o termo INTERFACE, presente
em sua nomeação, ganhou uma notoriedade passível de investigação.
Interface, termo utilizado nas linguagens das ciências da
informática, refere-se à relação estabelecida entre o usuário da máquina ou
sistema, os ícones apresentados no suporte-tela e as necessidades de informação
advindas dos usuários. Ideias soltas perpassavam meus pensamentos: pensar
interface enquanto ligação amigável entre Arte e Saúde; pensar interface
enquanto objeto-ponte sobre o qual a conexão entre discursos pudesse ser
construída; pensar interface enquanto território, forma-conteúdo de trocas
informacionais.
Numa primeira aproximação, o Novo Dicionário Aurélio —
Século XXI (2000) trouxe algo que pôde agregar essas ideias iniciais, esboçando
uma definição: “Interface seria uma região fronteiriça onde diferentes sistemas
e áreas do conhecimento dispõem-se a dialogar, na tentativa de compor
dispositivos lógicos e/ou físicos que visam, além da troca de informações, a
construção de adaptações para que a atividade prática ou ação (práxis) possa
ser exercida e ampliada.”
Entender a existência
desse lugar de fronteiras fez com que eu compreendesse que a Terapia
Ocupacional, não só a contemporânea como aquela que antecedeu tantas gerações
de terapeutas, exigiu e exige, antes de qualquer técnica, um deslocamento e
ampliação do olhar e conexão com outros saberes, olhar que hoje em dia parece se
dobrar até mesmo para o interior da
própria profissão numa atitude crítica, como nos alerta a professora Beth Lima
em muitos de seus escritos.
Frequentemente, a cultura
ocidental nos empurra para a lógica das gavetas, seus rótulos e recortes, seus
saberes sistematizados em áreas especializadas de conhecimento: de um lado, o
sujeito saudável, produtivo, autônomo; do outro, o patológico, o disfuncional,
aquele que "perdeu a razão". E a terapia ocupacional a todo instante transita
entre esses espaços aparentemente fechados.
Pois é, na vida real,
aquela que pulsa nos coletivos, nos ônibus e trens, nos corredores dos serviços
de saúde mental e nas esquinas dos territórios vulneráveis, raramente essa
lógica enquadrada de divisórias cartesianas é seguida à risca. Tudo anda junto
e misturado, e a vida é feita nessa trincheira, uma linha de passe onde as
coisas se cruzam a todo instante. Pode-se dizer que a todo momento há mesclagens,
hibridizações.
O conceito de híbrido,
que dá título a esta jornada, nasceu então como uma espécie de identidade que
habita essa região fronteiriça de trocas, ideia desdobrada, como já disse
acima, da palavra INTERFACE.
Vou puxar da memória daquela
época, de onde mesmo ter encontrado essa palavra: HÍBRIDOS. Elas apareciam em 3
citações-situações que me serviram para a escrita do trabalho final do curso.
A primeira foi no livro
de Tomás Tadeu da Silva: A pedagogia dos monstros- Os prazeres e os perigos da
confusão de fronteiras. Ali, ele publicava alguns textos de pensadores que
aprofundavam o pensamento a respeito de certa tetralogia (saber sobre os
monstros). Um dos capítulos, em especial, ecoou por muitos anos em mim. O texto
em questão era: 7 teses sobre os monstros, de Jeffrey Jerome Cohen. Os híbridos
(detentores da hybrys-excessos) eram considerados exemplares dos cruzamentos de
fronteiras, e como tais podiam ser lidos a partir das teses apresentadas.
A segunda aparição dos
Híbridos, foi em um trabalho realizado por Lygia Clark. Nesse a artista ultrapassa
o espaço da tela e projeta matéria para o exterior do enquadre. É um momento de
seu trajeto pré-invenção dos Bichos, onde a artista rompe o espaço atravessando
a forma das pessoas interagirem com a suas obras. Na obra Hibridos, ela está de
fato anunciando a crise de categorias na arte, e instalando novos modos de olhar-saber-fazer.
Que a partir de então foram ganhando múltiplas potências.
O terceiro momento se deu
através de um texto de Suely Rolnik, intitulado: O híbrido de Lygia Clark. Neste,
Suely vai nos mostrando os modos como artista e obra vão se constituindo
simultaneamente, dando a compreender que vida e arte se intercruzam a todo
instante, ela também aponta para os caminhos que Lygia foi fazendo nessa
mesclagem entre a clínica e a arte de modo que em determinado momento parecia
não estar mais em nenhum desses enquadres.
Olhando hoje, depois de mais
de 20 anos, consigo compreender que essa afeição a ideia de híbrido, proveio de
minha recusa em aceitar essas separações estéreis. Ser híbrido é reconhecer que
a existência se dá em uma zona de mistura, onde a saúde e a arte não são ausência
de dores, doenças ou não-criações, mas algo da ordem da capacidade humana de
criar a partir da relação que estabelecemos com múltiplos aspectos presentes na
vida.
Habitar o
"entre" é um fundamento ético da nossa prática enquanto cuidadores; e
o trabalho do terapeuta ocupacional é, em essência, o de um cartógrafo de
fronteiras. Atuamos na fresta, é no intervalo entre o que o laudo de
encaminhamento se põe a dizer e o que o corpo da pessoa ali presente se põe a
fazer, entre o delírio catastrófico que pulsa orbitas de (des)razões e a mão
que segura criativamente um pincel... a vida encontra brechas para se refazer.
Georges Canguilhem já nos
alertava que o patológico não é a ausência de norma, mas a presença de uma
norma diferente, muitas vezes restrita e sofrida. Nosso papel então é o de
questionar e ampliar essas normas, hibridizando a rigidez de um certo
congelamento-existencial com a fluidez das invenções.
Certo dia um usuário chegou
ao serviço de saúde onde trabalhei por 12 anos, com o diagnóstico de
esquizofrenia residual. Aos olhos da psicopatologia pura, ele era visto como um
conjunto de déficits e sintomas cronificados. Aos olhos da sociedade
produtivista, ele era uma engrenagem quebrada e invalidado por muitos estigmas
que carregava em suas relações e modos de ser e fazer. Mas, no setting da
Terapia Ocupacional, quando ofertei a ele a possibilidade de se relacionar com
as atividades, e com a figura do terapeuta que coordenava uma oficina de
xilogravura, esse sujeito passou a habitar um lugar novo. Ele não deixou de ser
alguém que convive com vozes ou isolamento, mas ele se tornou, simultaneamente,
um arteiro. Posso dizer que ele é as duas coisas ao mesmo tempo, híbrido entre
paciente e criador. Posso dizer que é nessa zona de vizinhança que a
reabilitação psicossocial acontece. Não na cura que apaga a história, mas na
criação de uma nova camada de identidade que recobre e ressignifica a parte
ferida de sua existência-sofrimento.
Para habitar esse
"entre", o terapeuta precisa abrir mão da posição de detentor do
saber absoluto. A clínica tradicional muitas vezes nos coloca em um palanque de
superioridade, onde o profissional observa o "espécime" patológico “meio
neutro e com certa distância” e raciocina modos de transformar aquela situação.
No hibridismo que defendemos, a relação é de contágio. Não tem outro modo, ao
entrar no mundo do outro, somos também transformados. Para que aquela pessoa
possa existir, pra e na gente, precisamos abrir um espaço interno pra
percebe-la. A fronteira entre o terapeuta e o paciente torna-se porosa. É
impossível mediar a produção de um desenho que irá se tornar gravura, uma
máscara de argila, uma dobradura de origami, com alguém que está em profundo
sofrimento sem que as qualidades do material e o calor do encontro afetem
ambos. O cuidado é, portanto, uma construção artesanal feita a quatro mãos, em
um espaço que não pertence exclusivamente a nenhum dos dois, mas ao
"entre" que se criou no encontro.
Essa perspectiva dialoga
diretamente com as ideias de Michel Foucault sobre os “espaços outros”, as
heterotopias. A oficina terapêutica é uma espécie de heterotopia: um lugar que
está dentro da sociedade, mas que funciona com regras próprias de tempo, espaço,
afetos, fazeres e valor. Ali, a produtividade não se mede pelo lucro, mas pela
produção de sentido. Quando habitamos essa fronteira, estamos desafiando a
lógica de que a vida se resume a ser útil ou ser inútil, a ser funcional ou
disfuncional. Estamos afirmando que a vida é, sobretudo, a capacidade de afetar
e ser afetado.
Se a oficina for encarada
como um território existencial, então nela pode ser visto um lugar onde a vida
acontece, e ali muitas vezes nos encontramos com acontecimentos repletos de contradições, misérias, violências e também belezas. O terapeuta ocupacional é aquele que caminha junto, está
ao lado de, aquele que em muitos momentos “faz com”, que as vezes pode para
catalisar/facilitar/adaptar o processo “fazer por” uma etapa desse.
Não ficamos apenas
esperando o sujeito "melhorar" para que ele possa ir à rua; nós vamos
à rua para que, no ato de caminhar, ele possa encontrar novas formas de se
sentir vivo. O "entre" é meio, é lugar, é o asfalto, é a feira, é a
galeria de arte, é a cozinha. É o espaço potencial (e porque não dizer híbrido?)
onde a saúde deixa de ser um envelope
fechado em si mesma e passa a ser vivenciada como possibilidade de
participação.
Ao longo de dezoito anos
registrando esses momentos de fronteira, percebi que a maior dificuldade não é
tratar a patologia em si, mas enfrentar o medo que a sociedade tem do
desconhecido, e talvez aqui o híbrido se valha desse lugar. O mundo prefere o
puro: ou é louco, ou é normal; ou é isso ou é aquilo, como se essa linearidade
de categorização fosse algo dado. O híbrido perturba porque borra as
fronteiras, ele mostra que a loucura tem lampejos de genialidade e que a
normalidade pode ser profundamente “psicotizante” em muitas de suas exigências.
Quando um sujeito em
sofrimento mental severo expõe suas obras em uma sala de atendimento e essas,
com o trabalho desenvolvido de ganhar mundos chega até um museu, por exemplo,
ele implode as categorias. Ele passa também a habita a fronteira entre o museu
(lugar do sagrado e do belo) e o CAPS (lugar do cuidado e da dor). Ele liberta identidades hibridizando o
artista-louco, o cidadão-paciente, o ser-aí-em-devir.
Essa atuação nas bordas
exige de nós uma sensibilidade estética apurada. Não basta saber a
classificação dos diagnósticos no CID-10 ou entender a funcionalidade pela
Classificação Internacional de Funcionalidade (CIF). É preciso entender de
texturas, de gestos, de ritmos, de tempos, de espaços, de palavras e de
silêncios.
É preciso perceber quando
o silêncio de um atendimento não é ausência de comunicação, (ou mesmo quando
ele está voltado a questões do ser que antecedem ao fazer), mas uma imersão na
zona híbrida processual do pré-verbal. O terapeuta ocupacional é um tradutor
que não busca converter uma língua em outra, mas criar uma terceira língua: a
tradução poética da existência: POIESIS. E o quanto essa poíesis constitui e constrói
mundos e formas de existir.
Habitar o entre é, em
última instância, um ato político de resistência. Em um sistema de saúde que
muitas vezes tende à protocolização e à despersonalização, apostar no
hibridismo é ousar garantir que o sujeito não seja reduzido a um número ou
categoria patológica. Cada oficina, cada grupo de caminhada, cada projeto de
geração de renda por meio da arte é uma barricada contra a lógica manicomial
que insiste em separar o joio do trigo. E sendo sincero, no nosso campo, o joio
e o trigo crescem juntos, misturados, e é essa mistura que sustenta a riqueza
da vida ruidosa.
Se aceitarmos que a
existência é fundamentalmente híbrida, paramos de buscar uma perfeição
inatingível e passamos a investir na beleza do possível. A intervenção na
Terapia Ocupacional nasce desse reconhecimento: o de que estamos todos,
terapeutas e usuários de nossos trabalhos, navegando em águas turvas e
fascinantes, onde as certezas da ciência se encontram com as incertezas da arte,
ou vice-versa. Não há caminho seguro fora da fronteira; a segurança pode as
vezes se tornar uma ilusão que nos paralisa. A vida, essa força indomável que
insiste em brotar mesmo nas rachaduras do cimento, acontece no entre.
Esta compreensão lança as
bases para muito do que virá a seguir. Admitir que somos seres de fronteira nos
liberta da obrigação de "consertar" o outro e nos convoca para a
tarefa muito mais complexa e apaixonante de "compor" com o outro.
Compor um cotidiano que seja suportável, sim, mas que seja também inventivo.
Que o normal e o patológico deixem de ser muros intransponíveis e passem a ser
fios de uma mesma trama, cores de uma mesma paleta. Ao habitarmos esse espaço
híbrido, legitimamos cada pequena vitória sobre o congelamento da alma, pois
sabemos que cada gesto de criação, por menor que seja, é um território de
cidadania criativa conquistado.
A partir desse entendimento, as ferramentas do cuidado,
sejam elas o pincel, a agulha de costura, a enxada da horta, o bilhete de
ônibus, a palavra dita ou escrita, o olhar que espelha a fala, deixam de ser
instrumentos técnicos para se tornarem dispositivos de subjetivação. Elas
servem para cavar esse espaço de transição onde o sofrimento deixa de ser um
destino fechado e passa a ser matéria de trabalho. Acho que é nesse solo
movediço das fronteiras da existência que a Terapia Ocupacional plantou, e
continua a plantar-cultivar, suas sementes mais duradouras.

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